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Coluna

Dez vidas a menos e a eterna mania de perseguição de Daí

19 de fev de 2019 (atualizado 19/02/19 às 15h00)

    Essa semana virou moda nas minhas redes sociais a frase ‘isso acontece com todo mundo’. Mas como ‘o que acontece com todo mundo’ se dá, de fato, com cada pessoa?

    Em meio a uma #surftrip estava me preparando emocionalmente para escrever sobre as consequências da enchente no Rio de Janeiro. Lembrei de uma madrugada em janeiro de 2018. O papo no bar estava animado. Pagamos a conta. Quando saímos percebemos que a rua tinha enchido. A água estava na altura dos nossos joelhos. Uma das três amigas precisava estar no aeroporto às cinco da manhã. Pagou R$ 180 de táxi para fazer um trajeto que normalmente custa R$ 60. Perdeu o voo. Por questões de inteligência e segurança, fui dormir na casa da segunda amiga. Mais próxima do bar do que a minha, sua residência fica ao pé do Morro dos Macacos, “lá em Vila Isabel”, bairro de Noel Rosa e da escola de samba de Martinho.

    O ritual de passar álcool nos pés, lavar os sapatos, tomar banho foi embalado pelo som ininterrupto de uma sirene. Perguntei do que se tratava. A amiga respondeu-me: este é o “alerta de deixem suas casas”, disparado em situações de risco de desabamento de encostas em favelas. Pensei em situações específicas. Crianças, mulheres em pós-parto, pessoas com necessidades especiais, empregadas domésticas que dormem fora de casa para sustentar suas famílias. Com uma multidão de imagens fazendo minha cabeça, perdi o sono. O botão da pergunta “Até quando?” não parava de apitar. Toda vez que um jovem é assassinado, uma mãe chora a morte de sua filha por bala “perdida”, uma mulher é crítica a sua objetificação, ele apita, bem mais alto do que a sirene. Em volumes que desrespeitam qualquer regra de boa convivência entre seres humanos.

    A má notícia é que, independentemente de nosso nível de consciência racial, o alerta do “até quando?” embala a história de todas as pessoas negras no Brasil e, dada tamanha persistência, precisamos escutar e lidar com sua mensagem barulhenta: nossas vidas são a personificação do ditado “para morrer basta estar vivo”.

    Embalada pelo som da sirene, comecei a pensar que, por mais que goste do meu nome, (do italiano jovem), se tivesse de escolher outro, gostaria de me chamar Daí. Daí que isso. Daí que aquilo…

    ***

    Entre uma tentativa e outra de evoluir nas ondas, a moça anda a escrever o Diário de sua viagem por um país latino-americano. Daí começa a lembrar de histórias que escuta. A primeira é de uma de suas alunas relatando o monitoramento da mãe ao telefone quando embarca em táxis ou ônibus na volta para casa, depois da balada. Daí rememora outra. De uma universitária que contou para turma que quando menstruou pela primeira vez as mulheres de sua família reuniram-se. Muito preocupadas,  colocaram-na sentada no sofá e deram uma palestra sobre como se proteger de estupros. Na mesma aula, a colega sem cor levanta o dedo e conta sua experiência. Pelo rito de passagem de menina para mulher, ganhou de presente uma festa organizada por sua família. Daí revive um “causo”. Quando o filho estudava em uma escola, como diria sua avó, “de bacana” na zona sul carioca, deparou-se com um grupo de adolescentes do ensino médio. Às dez da manhã, os jovens sem cor desentocavam uma trouxinha de maconha malocada em um tijolo solto, no muro da entrada do prédio.

    Vestida na sua própria pessoa, Daí entrou em um túnel do tempo desesperador. Imaginava como poderiam ser as consequências do que “acontece com todo mundo” com o menino que gerou em seu ventre. Atordoada, recordou uma cena que viveu como docente universitária. Em certa ocasião, um grupo de estagiários a procurou. Negros, tornaram-se brancos. “Sonhadores”, queriam “solução” para lidar com uma situação que envolvia dois personagens. O primeiro, um estudante de 11 anos. Havia sido “eleito” o “garçom da turma”. A tarefa do pequeno, que todo dia atravessava a cidade para estudar na escola em que fora sorteado, consistia em recolher o dinheiro dos colegas. Subir e descer a rampa. Ir até a cantina. Entrar na fila. Providenciar porções individuais de pão de queijo. Entregar para seus “clientes”. Já o segundo, da mesma idade e sem cor, possuía histórico de brigar e agredir fisicamente os coleguinhas. A professora de História do colégio tranquilizou os estagiários de Daí. Explicou-lhes o seguinte: “precisamos aprender a lidar com as especificidades de cada pessoa. Fulano foi eleito garçom porque possui uma natureza subserviente. Quanto a ciclano, vamos ter empatia. Ele apresenta comportamento agressivo porque está passando por problemas em casa”.

    Daí espera ondas menores para poder correr menos riscos. Sua instrutora de surf tenta argumentar: é importante se jogar no mar para que sua prática evolua. Machucar-se “acontece com todo mundo”. Daí concorda, ao mesmo tempo em que pensa no que a expressão “jogar-se ao mar” significa. Como historiadora, pesquisou por anos no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro livros com registros de pessoas escravizadas em navios negreiros. Foi assim que soube de crianças como Cipriano de Nação Congo, a quem só pode conhecer pelo nome, não só pela distância temporal, mas porque, junto com outras vidas, o menino havia sido lançado ao mar e tornado-se “óbito” no século 19.

    Daí, já bastante cansada de tantos caldos mentais, pensou no seu filho de seis anos. Nas orientandas de pós-graduação. Levou em conta o fato de que no Brasil apenas 0,4% das professoras que atuam em programas de pós-graduação são mulheres negras. A expressão “futuras mestras” acalmava seu coração. Cientista está a descobrir a cura para a doença de ser a única, por isso não podia se ferir na sua tão sonhada #surftrip. Lembrou de novo da avó. Presença marcante em sua vida, a antiga costureira vivia em polvorosa diante do espírito de rebeldia da neta. A cada machucado, o mesmo texto: “menina, você nasceu perfeita. Por que adora arrumar histórias para se mutilar?” Daí, pisando no fundo de pedra da praia do KM 59, onde já estava familiarizada com o nascer e o pôr do sol, lembrou: todas as vezes que adentro as águas para surfar, choro e agradeço aos meus antepassados. Eles moram nelas, na forma de espíritos e ossadas. Será que isso “acontece com todo mundo”? Daí vive a se perguntar.

    Enquanto, em movimentos na água ou percorrendo a cidade de San Salvador, pensava  incontrolavelmente em todas essas coisas, Daí soube da tragédia que tirou a vida de dez meninos do Flamengo. Aconteceu no Rio de Janeiro, uma cidade que por mais que critique como boa garota carioca também ama e acha maravilhosa. Enquanto ouvia os relatos sobre o ocorrido, pensava: “tenho certeza de que esses meninos têm cor”. Olhou para as narradoras. Pensou nas palavras empatia, sororidade, lugar de fala, empoderamento. Todas essa gramática foi soterrada pela força da frase “você não entendeu”. Antevendo o cansaço de tantas explicações que teria de prestar, deu vivas aos orixás. Suportou ficar em silêncio, negociando com sua dor. Uma dor, sabia ela, que não “acontece com todo mundo”. Diante da constatação, pediu um café. “Negrito” ou “com leche”, perguntou a simpática cozinheira da pousada? Daí gosta da simetria entre as palavras. Assim, pensou quando chegaria o dia em que “con leche” seria substituído pela palavra “blanquito” quando cafés fossem oferecidos. Pensou nas aulas de yoga. Respirou fundo. Entupiu-se de cafeína, bem “fuerte”.

    Daí, no íntimo de seus pensamentos: bem que valeu a pena pegar ondas em El Salvador e celebrar a vida na Marquês de Sapucaí. Nesse último lugar, lavou a alma com tempestades, raios e trovões e curou as feridas da manhã com samba e requebrado. Já na dispersão, em meio a tanta gente com cor, deparou-se com uma enorme bandeira verde em homenagem a Marielle Franco. Daí que hasteada por Vanderlea Aguiar e Nicolas Calabrese da Rede Emancipa Movimento de Educação Popular, a flâmula gigante tornou-se a sensação da noite. Em momentos como esse, em que tudo se conecta, por mais que estivesse cansada de chorar tantas mortes e mover muitas estruturas, Daí conseguia mirar um mar que fosse para todas.

     

    O melhor que pude fazer:

    Em memória

    Arthur Vinicius - 14 anos

    Athila Paixão - 14 anos

    Bernardo Pisetta - 15 anos

    Cristian Esmério - 15 anos

    Gedson Santos - 14 anos

    Jorge Eduardo - 15 anos

    Pablo Henrique - 14 anos

    Rykelmo de Souza Viana - 16 anos

    Samuel Thomas Rosa - 15 anos

    Vitor Isaías - 14 anos

    +

    Pedro Gonzaga - 19 anos

    +

    Jenifer Gomes - 11 anos

    Giovana Xavier é professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Formada em história, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado, por UFRJ, UFF, Unicamp e New York University. É idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras. Em 2017, organizou o catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil.

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