Coluna

Defende a natureza e deixa a gente morrer de fome?

    As tragédias ambientais atingem mais gente do que se imagina. E fazem todo mundo mais pobre

    Na sexta-feira passada, 25 de janeiro de 2019, o peso do grosso resíduo marrom acumulado em anos esburacando as montanhas de Minas Gerais para tirar minério de ferro de dentro delas foi demais para a precária barragem da Vale segurar. Deu-se o maior acidente de trabalho da história do Brasil, uma tragédia tão devastadora que os bombeiros não estão conseguindo nem encontrar os corpos, soterrados na lama, arrastados para longe com uma violência impensável.

    No dia, eu nem fiquei sabendo, ocupado que estava com minhas próprias crises, bem ao estilo “classe média sofre”. Estava de férias, na praia. Junto com os pais e as mães de uma dúzia de crianças pequenas que estudam com meus filhos, alugamos umas casinhas no litoral norte de São Paulo, com um lindo jardim com vista para o mar. No primeiro e no segundo dias, nossos pequenos se divertiram na praia como se não houvesse amanhã. Mas houve: e veio com esguichos de vômito, febre alta e diarreia. Na sexta, enquanto a lama escorria aterrorizante pelos morros de Minas, nosso bucólico jardim em frente ao mar parecia um pouco com uma enfermaria, com cadeiras de praia fazendo as vezes de macas. Das 13 crianças, 11 estavam bem doentes, prostradas, sem apetite, irreconhecíveis.

    No fundo, o que respingou em mim naquela casa de praia foi uma pequena gota da mesma crise ambiental que traumatizou Minas. Tanto a tragédia da Vale como o desconforto de Ubatuba são consequência de um mesmo fenômeno que se repete no Brasil inteiro, do Rio Grande do Sul a Roraima, do Acre a Pernambuco: o descuido irresponsável com os recursos básicos que nos mantêm vivos. Andei viajando o país uns anos atrás para uma grande reportagem que publicamos no Estadão sobre mudanças climáticas e o quanto seus efeitos são agravados pela maneira como erguemos nossas cidades e fazemos nossas plantações. Vimos por todo lado – de Santa Catarina a São Paulo ao sertão do Nordeste – os mesmos erros e os mesmos crimes. Para começar, no Brasil todo resíduos são atirados diretamente nos cursos naturais de água – sejam eles restos químicos e venenosos da indústria ou da mineração, ou o conteúdo de nossas privadas. Mais da metade do esgoto brasileiro é despejado quentinho na natureza.

    Culpar o novo governo por esses erros é absurdo. Sob gestões do PT, do PSDB e do PMDB, uns mais uns menos, insistiu-se num modelo destrutivo de ocupação do solo, com bairros ricos e pobres sendo erguidos sem instalações mínimas de saneamento, e grandes empresas, como a Vale, sequestrando o sistema político e lucrando com a destruição da terra dos outros brasileiros. Quase nenhum governante preparou-se para as previsíveis mudanças climáticas, que estão aumentando o calor e a frequência de chuvas extremas, gerando condições cada vez mais propícias para desmoronamentos e epidemias.

    Mas, até algum tempo atrás, apesar de todos esses erros, havia ao menos do lado do governo o reconhecimento de que era necessário melhorar. E melhorou-se, é justo que se diga – mais devagar do que deveria, mas também não é de se desprezar que a água limpa, que só chegava a uns 55% dos brasileiros nos anos 1980, hoje escorra da torneira de mais de 80% da população. A mortalidade infantil no Brasil caiu pela metade entre 2000 e 2015. E o cuidado com a natureza também vinha aumentando, devagar: o desmatamento na Amazônia caiu quase 80% nos primeiros anos do século 21, por exemplo.

    Agora, esses indicadores estão todos piorando. A mortalidade infantil aumentou no ano passado, na esteira dos impactos da crise econômica sobre a saúde e das pioras no clima global – os últimos quatro anos foram os mais quentes da história, recorde que deve ser batido em 2019. O desmatamento vem crescendo também, assim como a destruição de ecossistemas. No entanto, as nossas novas autoridades não parecem nem se preocupar. Um ministro acusou os comunistas de terem inventado a ideologia das mudanças climáticas, deixando claro que não vai mover uma palha para proteger os brasileiros das infecções e desmoronamentos, que não têm nada de ideológicos. Talvez para fazer uma piada, o presidente escolheu como ministro do Meio Ambiente um lacaio das mineradoras, condenado por fraudar um mapa para favorecê-las. Os ambientalistas do Brasil estão apavorados, depois da ameaça do presidente, no dia da eleição, de que iria colocar “um ponto final em todos os ativismos”.

    Por trás dessa onda antiambiental, está a crença de que as ideias ambientais atrapalham a economia, e que só sairemos dessa crise se os ambientalistas pararem de atrapalhar. Essa ideia é uma mentira. Claro que um país precisa reduzir burocracia se quer se desenvolver, e é verdade, sim, que no Brasil há um emaranhado tão confuso de normas, inclusive ambientais, que é quase impossível seguir todas elas. Mas o jeito de lidar com esse problema não é acabando com as salvaguardas ambientais – é melhorando-as.

    Normas ambientais bem feitas não atrapalham a economia: elas servem para impedir que um criminoso destrua o que é dos outros – inclusive dos brasileiros do futuro. Para proteger crianças e regiões inteiras. Conheço Brumadinho. Numa das vezes em que fui para lá, para visitar o Museu Inhotim, encontrei por acaso um diretor do museu Tate Modern, de Londres. Ele estava embasbacado: “este lugar muda tudo o que eu achava que um museu podia ser. Agora vou ter que voltar para Londres e fazer tudo diferente.” Meus pais, quando foram para lá, hospedaram-se numa pousada à beira do rio Paraopeba. Hoje, essa pousada já não existe mais e a família simpática que os recebeu está desaparecida, provavelmente debaixo da lama suja. Tragédias assim não matam só gente – matam sonhos, negócios, possibilidades, matam a economia. O Brasil é menos visitado por turistas do que Cingapura, Vietnã, Macau. Garanto que as contaminações na praia e as trombas de água suja descendo montanhas não ajudam nada a melhorar esse números.

    Não há uma oposição entre cuidar da natureza e cuidar das pessoas. É o contrário, na verdade. Destruição de ecossistemas é causa de pobreza, doença e morte entre as pessoas também. Num país onde todas as águas são sujas, pioram todos os tipos de indicadores, de mortalidade infantil a depressão. Quando a devastação impede o surgimento de indústrias de alto valor agregado, como o turismo, o país acaba ficando dependente do pior tipo de produto que existe, que são as commodities, como o minério de ferro que a Vale esburacou as montanhas para encontrar. Quem produz commodity não tem nenhum poder para definir o preço de seu produto – quando o preço internacional cai, inevitavelmente falta dinheiro para cuidar da segurança. A dependência de commodities faz com que as indústrias que as produzem mandem nos políticos, como se vê acontecer no Congresso e no Executivo, apinhados de cachorrinhos de mineradora.

    Sobra para o resto de nós a água marrom.

     

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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