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Coluna

Da erva do diabo ao remédio da vovó

03 de jul de 2019

    O uso medicinal da maconha é uma realidade que não tem mais volta

    Passei o fim de semana no Rio de Janeiro, no Seminário Internacional de Cannabis Medicinal, um evento que lotou o velho Cassino da Urca de médicos, cientistas, agrônomos, pacientes, cultivadores, advogados, idosos e um bom número de amantes da planta polêmica.

    Saí de lá com uma certeza absoluta: o uso da cannabis (ou maconha, se você preferir um nome mais informal) para cuidar da saúde no Brasil já é uma realidade sem volta, queira o governo ou não. Indício disso é o apoio enfático ao evento de autoridades do mundo médico, acadêmico e farmacêutico. Estavam lá, por exemplo, a reitora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), a presidente da Fundação Oswaldo Cruz e a diretora da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) – todas conscientes da necessidade urgente de facilitar as pesquisas e o uso de cannabis na medicina.

    O assunto não é novo para mim. Escrevo sobre ele há mais de 15 anos. Ainda assim, estou voltando do Rio impressionado com o potencial dessa revolução que está começando na saúde. Diferentes tipos de maconha têm mostrado utilidade enorme em tratamentos de uma variedade enorme de males. A cannabis já revolucionou os tratamentos de dor crônica, um mal muitas vezes sem cura que afeta milhões no Brasil, e que infelizmente aguarda por boa parte daqueles entre nós que vivermos o suficiente: só os muito sortudos chegam sem dor à velhice.

    Os resultados contra convulsões e epilepsias que não respondiam a nenhum outro tratamento são impressionantes, a ponto de ser tentador usar a inadequada palavra "milagre" para descrevê-los. Impressionantes também têm sido alguns casos de esclerose múltipla, um mal terrível, degenerativo e letal que, teoricamente, deveria ser irreversível – outro dia encontrei um paciente que conheço há anos e ele evidentemente está muito melhor hoje do que estava há uma década, caminhando quilômetros depois que seus médicos haviam declarado que ele nunca sairia da cadeira de rodas.

    No final de semana tive contato com pesquisas sobre outras doenças. Há uma empolgação enorme com o uso para tratar autismo entre crianças – os relatos são de que certas variedades da planta melhoram praticamente todos os sintomas, facilitando inclusive a conexão emocional dos pacientes. O uso para melhorar a qualidade de vida em pacientes com câncer é tradicional e consagrado, mas não faltam médicos suspeitando que os princípios ativos da planta podem também reduzir tumores, e quem sabe frear o avanço da doença. Parkinson, Alzheimer, intolerâncias alimentares, ansiedade, depressão, estresse pós-traumático, até dependência de drogas – há pesquisas animadoras rolando sobre tudo isso.

    Hoje se sabe que maconha é uma planta complexa, que contém uma enorme quantidade de princípios ativos. Tudo indica que vários deles têm valor medicinal. Há um fuzuê cercando um deles, o até há pouco desconhecido CBD, que não dá efeito psicoativo e parece ser um remédio espetacular sem nenhuma contraindicação. Mas o THC – velho conhecido, esse sim ligado ao "barato" da droga – também é útil para várias dessas doenças. E há centenas de outras substâncias, a maioria com efeito ainda bem pouco entendido. Algumas pesquisas dão a entender que cada paciente diferente se dá melhor com uma combinação específica desses ingredientes – e que todos juntos normalmente funcionam melhor que um sozinho.

    Cada vez mais gente acabará tendo acesso aos remédios. Em especial, os idosos: uma porcentagem enorme da população de mais idade pode se beneficiar com algum tipo de maconha

    Toda essa animação tem a ver com a descoberta do sistema endocanabinoide, um sistema de receptores nas paredes das células de nosso corpo todo, ativados por substâncias que nós mesmos produzimos, semelhantes aos químicos da maconha. Suspeito que você não tenha nem estudado esse sistema na escola – mais grave: boa parte dos médicos de hoje não o estudou nem na faculdade. É que é tudo muito novo. Mas hoje está claro que ele é fundamental para a modulação de praticamente todos os processos complexos do corpo humano, e que está envolvido em todas as doenças crônicas que nos afetam. Sério: todas.

    Nada disso quer dizer que maconha não contenha riscos. Contém, sem dúvida. Além disso, falta muito para se saber: ainda há poucas pesquisas clínicas de larga escala, para avaliar com precisão estatística a eficácia do uso para a maioria desses males. Mas ninguém que acompanha o assunto tem qualquer dúvida de que a maconha vai mudar o jeito como se enxerga a saúde.

    Mês passado fui a Israel, líder mundial nas pesquisas científicas sobre o assunto, onde há mais de 300 testes clínicos em curso para oferecer respostas a essas perguntas todas. Encontrei lá um país preparando-se intensamente para essa nova era. Lá, quase 50 mil pacientes têm acesso a maconha distribuída num sistema cuidadosamente controlado pelo governo, e dois ex-primeiros ministros do país – Ehud Barak e Ehud Olmert – estão trabalhando em fundos para financiar a indústria farmacêutica canábica. O atual governo, de direita, elegeu o setor como uma prioridade estratégica e está criando incentivos fortes para ganhar muito dinheiro tornando-se grande exportador mundial de maconha. Visitei um monte de startups canábicas, e também algumas indústrias farmacêuticas tradicionais, que estão correndo contra o tempo para criar novas marcas e novos medicamentos à base de maconha, para não morrerem vítimas da disrupção que vem aí. Ao que tudo indica, Israel vai ficar mais rico ainda. E mais saudável.

    Enquanto isso, do ponto de vista governamental, o Brasil está ficando para trás: é um dos países mais atrasados do Ocidente. Enquanto 50 mil pacientes se beneficiam legalmente desses novos remédios no pequeno Israel, aqui no nosso país-continente há um total de só 37 pessoas com acesso a maconha legal, concedido por tribunais, graças a um grupo de heroicos advogados ativistas, que trabalham de graça para mudar o status da planta. No governo, há até um ministro médico que acha que maconha medicinal é uma mentira: Osmar Terra, cujo espírito anticientífico rendeu-lhe o apelido de Osmar Terraplanista. Ele controla boa parte das associações de médicos do país, inclusive o Conselho Nacional de Medicina, que está assustadoramente desinformado sobre o assunto. Pressionada, a agência que aprova novos medicamentos no Brasil, a Anvisa, é excessivamente restritiva e mata qualquer possibilidade de que surja um setor produtivo vibrante no país, ou de que pacientes possam cultivar seu próprio remédio, tratando-se a baixos custos, em vez de pagar milhares de reais por mês por um produto importado.

    Mas, nas próximas semanas, você vai começar a ouvir notícias de decisões judiciais aprovando cultivos coletivos, mantidos por associações de pacientes. Com  o tempo, com certeza, a situação vai mudar no Brasil, como já mudou no mundo todo – Europa, América do Norte, Chile, Colômbia, Uruguai estão avançando rápido na regulamentação. Aqui, como lá, cada vez mais gente acabará tendo acesso aos remédios. Em especial, os idosos: uma porcentagem enorme da população de mais idade pode se beneficiar com algum tipo de maconha, psicoativo ou não. No mundo todo, é assim que a perspectiva sobre o assunto tem mudado. Quando a planta ajuda a vovó, fica difícil sustentar a história de que ela é do demônio.

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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