Coluna

Coragem, Brasil

    O momento pede não violência, que é algo inteiramente diferente de pacifismo

    Eu fugi do Brasil. Não, não fugi de vez, volto logo. Nem pretendo fugir de vez, quero estar no meu país neste período difícil, para participar da reconstrução, quero que meus filhos pequenos cresçam brasileiros. Só dei uma fugidinha. Agarrei-me a uma oportunidade de um evento numa cidade cheia de jotas depois de éles - Ljubljana, na Eslovênia, o mais distante que consegui encontrar de Bolsonaro. Aproveitei para botar para rodar um projeto de livro que vinha adiando faz tempo, e vou passar quase um mês longe, mergulhado em pesquisa. Quando embarquei em Cumbica, semana passada, planejei desconectar daí, e usar esta coluna só para mandar para vocês umas distrações alienadas vindas de longe de vez em quando.

    Não rolou, claro. Minha cabeça não consegue sair daí. Andei sendo despertado por pesadelos políticos no meio da madrugada, com o impulso de levantar para procurar notícias na linha do tempo do Facebook e ir lamentá-las no WhatsApp. E toda conversa que tenho por aqui vai derivando até que me vejo lamentando nossos erros, nossas agruras, nossos azares, nossos medos. E acabo em lágrimas lembrando das pessoas queridas que saltaram no abismo do ódio, jogando o resto de nós junto, e que agora me esforço para um dia ser capaz de perdoar.

    O evento do qual vim participar era sobre desinformação e sua relação com a corrosão das democracias, em toda parte. Encontrei turcos, italianos, americanos, chineses, poloneses, preocupados também com o que acontece na terra deles. Entrevi em algumas conversas o risco que corremos — o tanto que pode piorar. Um novo amigo turco falou do êxodo de jornalistas, de homossexuais, artistas, não-muçulmanos, cientistas, ativistas, para quem a antes laica e tolerante Turquia ficou irrespirável, graças a Recep Erdogan, o Jair Bolsonaro deles. Mas todo mundo — ele inclusive — parece chocado com o que acontece aqui, sem conseguir acreditar nas histórias extremas que eles ouviam falar de Bolsonaro. “É sério que ele falou isso mesmo?”, perguntam. É sério. Saibam que vocês, aí no Brasil, contam com a solidariedade do mundo.

    Numa dessas madrugadas de pesadelo e WhatsApp, fiquei sabendo que Bolsonaro está chamando o Brasil para a guerra. Que convocou seus seguidores para tomarem as ruas no domingo, em resposta aos protestos contra as patetices do seu governo e seu projeto de destruir a educação. Do interior profundo da Eslovênia fiquei baixando vídeos assustadores, de apoiadores ameaçando aos gritos calar o dissenso. Na hora que vi isso, me deu raiva, e me pus a fantasiar sobre as agressões que esses bolsonaristas iludidos iriam sofrer, ao defender o indefensável em meio a uma população furiosa.

    Espero que o Brasil tenha a coragem de não cair na provocação e não deixar Bolsonaro fazer o que ele quer, que é transformar a raiva merecida contra sua evidente incompetência para governar em pretexto para truculência

    Mas depois me acalmei. Espero, de coração, que isso não aconteça. Espero que o Brasil tenha a coragem de não cair na provocação e não deixar Bolsonaro fazer o que ele quer, que é transformar a raiva merecida contra sua evidente incompetência para governar em pretexto para truculência. Nesta hora agora, o Brasil precisa de cabeça fria — e eu sei que, do meio da minha fugidinha, acordando com pesadelos e entrando no Facebook, estou sem moral nenhuma para falar disso. Mas precisamos.

    O momento pede não violência, que é algo inteiramente diferente de pacifismo. Não se trata de aceitar os desmandos do autocrata panaca. Pelo contrário, não violência é uma estratégia de luta: é uma forma extrema de confronto, e uma que demanda enorme coragem. Significa negar-se a colaborar, mas sem jamais agredir o adversário. Não porque o adversário mereça respeito — no caso de Bolsonaro, claramente, não merece. Mas porque, com a força bruta na mão, tudo o que ele quer é uma justificativa para soltar sua fúria sobre o povo. Não violência é o único jeito de negar-lhe o uso desse recurso e de expor sua covardia. Quando bem conduzida, a estratégia de não violência é quase invencível, como demonstraram Martin Luther King e Mahatma Gandhi, infelizmente a um custo alto demais.

    Não se iludam. A perda de apoio deixa Bolsonaro mais imprevisível. E, nesses tempos de hoje, de desinformação rampante, mesmo com sua impopularidade despencando, pode haver milhões de apoiadores aferrados às teorias da conspiração, cada vez mais radicalizados e violentos. Pior, esse apoio pode crescer num clima de guerra, propício a nacionalismos. Bolsonaro pode não ter mais a maioria, mas com certeza tem apoio de gente suficiente para ensanguentar o domingo. Ainda mais porque esse apoio talvez inclua ainda a maior parte das forças policiais, que escolheram lado nessa polarização.

    É hora de ter coragem, Brasil. De ir para a rua também, com orgulho, com esperança, com alegria. E sem violência. É hora de tecer alianças, de buscar as instituições. De sonhar. Estou agora digitando isto aqui sobre os Bálcãs, a caminho do Oriente Médio, acho que é a Bulgária aqui embaixo. Mas minha cabeça e meu coração estão aí com vocês.

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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