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Coluna

Bem que tentei tirar férias

    Cada um tem a capacidade de criar seu próprio calendário, no sentido de eleger eventos que fazem sentido para si. Garanto, todavia, que o meu ficou marcado por essa série de episódios que fizeram com que alguns dos nossos políticos ‘queimassem a largada’

    “A noção de férias está ligada a figuras de viagem, esporte, aplicações intensivas do corpo; quase nada a descanso. As pessoas executam durante esse intervalo aquilo que não puderam fazer ao longo do ano; fazem ‘mais’ alguma coisa [...] Exatamente porque abrem mão de tudo, as boas férias não devem tender à concentração espiritual nem à contenção da vontade. São antes um deixar-se estar, sem petrificação. [...] Divertir-se é desviar-se, e não convém que nos desviemos das férias, enchendo o tempo com programas de férias. Deixemos que ele passe, sutil; não o ajudemos a passar. Há uma doçura imprevista em sentir-se flutuar na correnteza das horas, em sentir-se folha, reflexo, coisa levada; coisa que se sabe tal, coisa sabida mas preguiçosa. Se me pedirem para contar o que fiz afinal nestas férias, direi lealmente: ignoro. [...] O pensamento errou entre mil avenidas, não se deteve em nenhuma; cada dia amadureceu e caiu como um fruto. Nada aconteceu? O não acontecimento é a essência das férias. E agora, é trabalhar duro onze meses para merecer as inofensivas e deliciosas férias do não.”

    Adoraria ter sido a autora dessa bela crônica. Mas ela foi escrita por Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e faz parte de uma coletânea organizada pelo autor chamada “Cadeira de balanço” (1977). Eu a reli quando estavam começando as minhas férias e guardei pra mim sua “filosofia” central: “o não acontecimento é a essência das férias”. Férias representam um tempo da interrupção, de fazer nada e assim realizar muito.

    Quebrar a rotina, romper com o cotidiano, alterar hierarquias entre o que é premente e o que é adiável são pequenos atos de liberdade e de rebelião que conseguimos realizar quando nos encontramos, de fato, em férias.

    No entanto, vocês hão de concordar, que, nesses últimos tempos, escapar do dia a dia brasileiro não tem sido tarefa fácil. Tanta coisa aconteceu em janeiro, que tentei, mas não consegui (totalmente), manter o que havia combinado comigo mesma.

    Já no dia 1º de janeiro, o novo presidente, em seu discurso de posse, prometeu democracia, mas ameaçou com radicalismo. Fiquei me perguntando, por exemplo, o que significaria acabar com o “politicamente correto”? Lutar pelo racismo? Será que ele se referia àqueles que são a favor do fim dos direitos conquistados pelas minorias no Brasil? E qual o sentido em afirmar que iria “respeitar as religiões judaico cristãs”? Nesse caso, o que aconteceria com as demais religiões? Se governar é a arte de produzir consensos, vamos combinar que a primeira fala de Jair Bolsonaro se manteve bem distante desse princípio de boa prática política. Mesmo assim, continuei de férias. Tentei...      

    No entanto, logo na sequência, e como numa avalanche, vieram uma série de suspeitas envolvendo Flávio Bolsonaro; isso após o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), um órgão de inteligência que atua contra a lavagem de dinheiro, identificar movimentações suspeitas na conta de Fabrício Queiroz, ex-assessor parlamentar de Flávio, na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), e motorista da família de 2007 a 15 de outubro de 2018. A investigação também revelou que as filhas de Queiroz trabalharam para o então deputado federal Jair Bolsonaro. Uma delas, se define como “personal trainer” e passa a maior parte do seu tempo no Rio de Janeiro (e não em Brasília onde uma assessora deveria estar).  

    Mas a história não parou por aí. O Ministério Público do Rio de Janeiro investiga os apontamentos do Coaf de que o senador eleito em 2018 recebeu em sua conta bancária 48 depósitos em dinheiro, entre junho e julho, sendo que esses foram realizados na agência que fica dentro da Alerj, sempre no valor de R$ 2.000. Em dezembro o Coaf verificou outra movimentação “atípica”, de R$ 1,2 milhão, na mesma conta de Queiroz. Seriam, pois, R$ 7 milhões em três anos. Bem que o Planalto tentou conter a crise, e Flávio buscou afirmar, sem sucesso, que “o problema era do Queiroz” (e não dele). Para se certificar que tudo daria certo, Flávio pediu não só a suspensão do processo, como que ele fosse levado ao Supremo Tribunal Federal.

    Pediu, mas não conseguiu: o ministro Luiz Fux entendeu que a demanda poderia valer e pediu que a investigação fosse suspensa até a volta do recesso do relator do caso, a despeito de o Ministério Público afirmar que se tratava de ato irregular. O processo voltou ao relator no STF Marco Aurélio Mello agora no dia 1º de fevereiro, o qual negou que a investigação merecesse foro privilegiado para o agora senador, o que significa, na prática, que as apurações voltam para a primeira instância no Rio de Janeiro. Flávio Bolsonaro, que sempre falou grosso contra a corrupção, vai saindo chamuscado do episódio: não deu explicações suficientes e, em compensação, se excedeu nos sinais de pânico. Da minha parte, continuei com minhas férias. Tentei...

    Foi quando a primeira rusga interna no PSL estourou. Vinícius Carvalho Aquino, que se define como “consultor jurídico”, organizou uma missão para a China com alguns futuros deputados do partido, para aprender como instalar um novo sistema de identificação nos aeroportos brasileiros. O agressivo guru do novo governo, Olavo de Carvalho, reagiu forte, chamando a comitiva de “semianalfabetos, palhaços e caipiras”, e explicando que a viagem não passava de “um monte de asneiras”. Vinícius, que tem um currículo no mínimo eclético – foi ativista pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, dono oficial da marca Pixuleco (o boneco inflável que representa o presidente Lula como presidiário) e proprietário do nome MBL (Movimento Brasil Livre), o que lhe rendeu uma briga judicial com Kim Kataguiri –, ficou ofendido com a verve do filósofo do PSB e avisou que vai processar Carvalho. Enfim, eles que se entendam... Quanto a mim, mais uma vez, interrompi o intervalo das férias. Bem que tentei...

    Já de volta à rotina, prefiro torcer para que o novo governo entre numa certa “normalidade” e consiga cumprir com as promessas que o elegeram

    Enquanto isso, nova fumaça se formou e começou a soltar faísca em torno das relações da família Bolsonaro com as milícias do Rio de Janeiro. Eleito em 2007, Flávio Bolsonaro passou a integrar a comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio. Na época, foi fotografado com uma camiseta com os dizeres: “Direitos Humanos, a excrescência da vagabundagem”. Em seus discursos defendeu o pagamento da taxa de proteção às milícias por parte dos moradores de territórios ocupados. Na CPI de 2008, foi a vez de Jair Bolsonaro minimizar a gravidade e até elogiar a atuação das milícias, comentando que “não raro é constatada” a boa organização existente nas áreas dominadas por esses grupos paramilitares. E lá vai outro “porém”. Tanto Flávio como seu pai mantêm relações próximas com Adriano da Nóbrega. O ex-policial, que hoje se encontra foragido, é acusado de liderar “O Escritório do Crime”, uma milícia que carrega nas costas a suspeita de ser responsável pelas mortes de Marielle Franco e Anderson Gomes. Aliás, seis testemunhas já reconheceram Adriano, segundo o The Intercept Brasil.

    Não há crime até aqui, mas muita coincidência que carece de verificação. Tanto que o quebra-cabeças não está, ainda, completo. A mãe de Adriano, segundo o Coaf, foi uma das pessoas que depositou dinheiro na conta de Queiroz. Já o ex-motorista da família chegou a indicar a esposa de Adriano para o gabinete de Flávio Bolsonaro, na Alerj. Raimunda trabalhou como assessora do pai (2016-18) e do filho (2007 a 2018). E tem mais: Flávio homenageou o ex-PM, em outubro de 2013, quando ele ainda se encontrava preso, com a medalha Tiradentes — a mais alta honraria que se pode receber da Alerj. Vamos combinar que é muita confusão para agitar a calmaria das férias.

    E a agenda nacional não deu trégua. No dia 23 de janeiro, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, ao dividir uma mesa de seminário com o indígena Fulni-ô Wilke Torres Melo, atacou o que chamou de “excesso de demarcações de terras indígenas e unidades de conservação ambiental”. Foi imediatamente contestado por Fulni-ô: “Ministro, isso não passa por uma questão de ideologia, isso passa por compromisso com as políticas ambientais pública e ambiental do país”. Fica fácil entender quem falou como estadista (e quem não). Também a ministra da Agricultura, Teresa Cristina, deu uma escorregada nas redes. Achou por bem passar um pito na modelo Gisele Bündchen, que criticou a política ambiental no país. Afirmou a ministra que Gisele era “má cidadã” e ainda mandou recado: “Desculpe, Gisele Bündchen, você devia ser a nossa embaixadora e dizer que o seu país preserva, que o seu país está na vanguarda do mundo da preservação, e não vir aqui no Brasil meter o pau sem conhecimento de causa”. O problema é que o país está longe de ocupar qualquer posição de “vanguarda” nesse setor. Aliás, a despeito de ser a segunda nação com a maior cobertura vegetal do planeta, o desmatamento está reduzindo de forma significativa tal situação. São aproximadamente 20 mil km² de vegetação nativa desmatada por ano em consequência de derrubadas e incêndios. Errou a ministra, acertou a modelo.

    E nossa crônica do primeiro mês do ano continua, incluindo-se a triste e inesperada renúncia do deputado federal Jean Wyllys, do PSOL, a seu novo mandato, uma vez que não se sentia seguro no país. Ele e sua família andavam (e andam) sendo ameaçados por mensagens anônimas. Já nosso presidente, em vez de lamentar a perda de um deputado federal eleito democraticamente preferiu comemorar em seu twitter: “Grande dia”, escreveu ele.

    Falta incluir um escândalo recente envolvendo nosso ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez, que deu um jeito de fazer “desaparecer” alguns vídeos do Ines (Instituto Nacional de Educação de Surdos), sobretudo aqueles que  faziam referências a Karl Marx, Engels, Antonio Gramsci e Friedrich Nietzsche. Vélez Rodríguez retrucou às críticas da imprensa, explicando que nada havia ocorrido durante sua gestão. Mas o jornalista Ancelmo Gois, provou que, sim, tudo aconteceu na gestão do ministro. Censurar é péssimo, mentir é pior ainda...

    Assim, se tive férias ótimas, não consegui, entretanto, apagar e suspender, de todo, o cotidiano e o que ocorria nos bastidores de Brasília. Cada um tem a capacidade de criar seu próprio calendário, no sentido de eleger eventos que fazem sentido para si. Garanto, todavia, que o meu ficou marcado por essa série de episódios que fizeram com que alguns dos nossos políticos “queimassem a largada”.

    Se a danada da realidade tem frustrado, bastante, o que vai me animando, pra valer, é pensar numa nova e futura “suspensão no tempo"

    Já de volta à rotina, prefiro torcer para que o novo governo entre numa certa “normalidade” e consiga cumprir com as promessas que o elegeram. Estamos ainda no período de transição, com a Câmara e o Senado começando a se organizar, e não é hora de avaliar o que de fato ainda não começou.

    De toda maneira, se a danada da realidade tem frustrado, bastante, o que vai me animando, pra valer, é pensar numa nova e futura “suspensão no tempo”. No dia 4 de março, feriado de Carnaval, a Mangueira vai sair na avenida cantando “Brasil, chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”. Será a vez de projetarmos um Brasil mais diverso, plural e generoso, com um grupo de heroínas negras agindo na ordem da contra-utopia. Desejo que as Luizas Mahins, Acatilenes, Amélias Rosas, Anastácias, Andrezas, Aninhas, Aqualtunes, Beneditas, Carolinas Marias de Jesus, Catarinas Minas, Chicas da Silva, Ciatas, Clementinas de Jesus, Dandaras, Enedinas, Felicianas, Josephas, Liberatas, Olgas de Alaketu, Rosas Marias, Sabrinas das Laranjas, Therezas Benguelas, Zeferinas invadam a folia, roubem a festa do rei Momo e iluminem a alegria. Será um bom momento para gozar de merecidas férias: sair do ramerrame da política, evadir-se das mentiras e dos descalabros que têm cercado nossos representantes nacionais, e devolver ao Brasil uma imaginação diferente, porque mais inclusiva.

    Como canta Chico Buarque: “Eu tô só vendo, sabendo, sentindo, escutando e não posso falar. Tô me guardando pra quando o carnaval chegar...”

     

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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