Uma desgraça é uma desgraça, e acontece. Mas a sequência delas pode indicar um padrão

Tragédias acontecem. Infelizmente, é de se esperar que aconteçam, neste mundo complexo, cheio de gente e de perigos. Tanto é assim que acontecem em qualquer parte do mundo.

Mesmo numa cultura metódica e cuidadosa como a do Japão, pode ser que a soma de um evento geológico com uma série de pequenas negligências resulte num desastre nuclear, como aconteceu na usina de Fukushima, em 2012. Mesmo num lugar pacífico e rico como a Dinamarca, não é impossível que a combinação de condições climáticas desfavoráveis com um excesso de empolgação da multidão termine num dos piores desastres da história do rock, como aconteceu no Festival de Roskilde, em 2000, quando nove pessoas morreram pisoteadas num show do Pearl Jam e dezenas ficaram feridas. Mesmo num país zeloso pelo ambiente e atento a normas de segurança, como a Nova Zelândia, a fiscalização pode falhar e um vazamento de gás pode causar uma explosão, como aconteceu na Mina de Pike River, em 2010, matando 29 pessoas.

Por mais improvável que um evento seja, vai chegar o dia em que ele vai ocorrer, porque o tempo é infinito, e nossa capacidade de controlar as coisas não. Humanos foram programados pela evolução para enxergar relações de causa e consequência no mundo. Se algo horrível acontece, nosso cérebro logo conclui que deve ser culpa de alguém. Nossos ancestrais cansaram de sacrificar animais — e humanos — inocentes, acreditando que era o único jeito de acalmar os deuses e evitar outras desgraças. É prudente não cair nessa tentação e desconfiar dessa nossa tendência. Às vezes, uma tragédia é só uma tragédia. Cabe a nós chorar os mortos, investigar as causas, aprender e fazer o possível para que não aconteça de novo.

Mas às vezes é mais que isso. Se é inevitável que, de tempos em tempos, eventos extremos e improváveis aconteçam, é suspeito quando eles começam a se repetir mais do que a lei das probabilidades indicaria. Em isolamento, uma desgraça ambiental e humana como a causada pela Samarco, em 2015, é uma tragédia, e acontece. Se, três anos depois, acontece de novo, por culpa da Vale, passa a ser outra coisa: um padrão. Obviamente, há algo errado na mineração brasileira. Se essas duas tragédias acontecem em meio a outras tantas, grandes e pequenas, em todas as esferas da vida — do incêndio que carbonizou a história do Brasil, no Museu Nacional, ao outro que queimou o futuro do esporte que este país mais ama, no Flamengo — há que se ao menos suspeitar que o que quer que haja de errado não seja um problema só da mineração. Que seja um problema do Brasil.

Muita gente tem dito que não há novidade nenhuma aí. Que este país nunca foi diferente: é a terra do improviso, da incapacidade técnica, da gestão ruim, do descuido. Passamos a vida negligenciando tudo que importa, qual a surpresa quando algo queima, ou desmorona?

Discordo. Quer dizer, concordo com a crítica: este é mesmo um país ruim em termos de cuidado e de responsabilização. Como bem notou João Moreira Salles num lindo (e triste) texto para a revista piauí, a frase “não fui eu”, que se espalhou em forma de pichação pelo Rio de Janeiro, exprime com concisão o contrato que temos com o Brasil. Não é de hoje que os brasileiros, ao mesmo tempo em que acusam a incompetência dos outros, recusam-se a assumir suas próprias responsabilidades.

Mas discordo de que não haja nada de novo sob este sol cada vez mais escaldante. Algo mudou. Que este país nunca esteve à altura de seu potencial, não é surpresa para ninguém. Mas nunca convivemos com uma frequência tão alta de desgraças absurdas. A repetição delas parece indicar que estamos sofrendo uma doença aguda.

Estamos todos preferindo os destruidores aos cuidadores, os imprudentes aos responsáveis

Para mim, uma chave importante para diagnosticar essa doença é um indicador do qual falamos pouco no Brasil: o nível de confiança interpessoal. O tanto que as pessoas no geral acham possível confiar nos outros. O nosso está em queda livre. O instituto Latinobarómetro, especializado em América Latina, detectou em 2018 que apenas 4% dos brasileiros acham que dá para confiar nos outros — um ano antes, em 2017, eram 7%. Faz tempo que estamos entre os últimos colocados do mundo por essa medida — na última pesquisa da World Values Survey, de 2014, estávamos em 87° lugar num ranking de 91 países. Mas o que era ruim parece estar aceleradamente degringolando.

Se não confiamos nos outros, não nos importamos com eles — e nem eles conosco —, e as decisões dos brasileiros parecem refletir esse descaso, cada vez mais. Vejo isso com clareza nas nossas escolhas políticas. Parece que estamos elegendo as pessoas que melhor expressam nossa raiva, em detrimento daquelas mais capazes de cuidar de todos nós.

O caso de João Doria, em São Paulo, me parece bem típico. Como prefeito, ele foi mal. Seu descaso com o cuidado dos paulistanos ficou patente pelas políticas de mobilidade, que aumentaram o número de mortes no trânsito, ao mesmo tempo em que pioraram os engarrafamentos, e pelo abandono da infraestrutura urbana, que levou ao colapso de várias pontes, ameaçadas de desabar. Um viaduto já cedeu, por sorte sem causar uma tragédia. Se Doria é ruim em cuidar das coisas e em assumir suas responsabilidades ( ele culpa adversários políticos por tudo que deu errado em sua gestão), ele é ótimo na mobilização do ódio. Com essa estratégia elegeu-se governador, recebendo ainda mais responsabilidades. Fica fácil entender assim por que tragédias acontecem.

Mas não estou aqui apontando o dedo para os políticos e concentrando neles as culpas pelo que dá errado. O sucesso eleitoral de gente desse tipo para mim é outro sintoma da doença, não a causa. O Brasil não está doente por causa do Doria — está elegendo Dorias porque está doente. Quando paro para pensar que o ministro do Meio Ambiente é Ricardo Salles — cuja corrupção a favor de empresas mineradoras é fato notório —, fica evidente para mim o quanto este país deixou de se importar. O quanto estamos tão mobilizados pela polarização e pelo ódio ao outro lado que não nos damos conta do perigo que estamos impondo ao Brasil todo.

Antes que me acusem, que fique claro que não estou falando de ideologia. Vejo tendência parecida na esquerda, que também tende a preferir gente ruim de cuidado e de assumir responsabilidades, como foi o caso de Dilma Rousseff, cuja gestão causa calafrios nos ambientalistas pela leniência com que tratou mineradoras e permitiu obras destrutivas. Num ambiente em que ninguém confia em ninguém, e ninguém se importa com ninguém, estamos todos preferindo os destruidores aos cuidadores, os imprudentes aos responsáveis.

A culpa não é “deles”. Não se trata só de punir os culpados pelas tragédias que já aconteceram, mas de começar a mudar a cultura para que a prevenção de tragédias seja prioridade nas escolhas que fizermos no futuro. E isso só vai acontecer se todos nós nos sentirmos responsáveis por todos nós — o que demanda empatia, inclusive por quem está do lado oposto da polarização. É isso ou se acostumar com a rotina de tragédia todo dia.

Denis R. Burgierman  é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. Foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, comandou a curadoria do TEDxAmazônia, e fez parte do time que criou o Greg News, primeiro comedy news da TV brasileira.
Escreve quinzenalmente, às quintas-feiras.

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