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Coluna

As desigualdades na luta pela defesa do meio ambiente

    Falar de questão ambiental é falar de racismo, de classe, de território e de gênero

    Escolher um tema para inaugurar minha coluna não foi fácil. A dúvida foi grande entre reflexões constantes, que vou chamar aqui de “temas antigos” e temas mais atuais. Optei pela segunda opção, que é na verdade uma mistura de reflexões novas e antigas. Para aproveitar o calor do momento, vou falar sobre raça, classe e gênero nos debates acerca da questão ambiental.

     

    Algo me chamou atenção nos protestos que aconteceram pela internet e nas marchas em defesa da Amazônia que ocorreram nas grandes capitais. A cara da indignação era pouco diversa, racial e socialmente. Isso me faz pensar que a questão ambiental não é uma questão neutra, pois ela está inscrita num forte campo de disputas político-sociais. O que quero dizer é que falar de questão ambiental é falar de racismo, de classe, de território e de desigualdade de gênero.

     

    Nos Estados Unidos, grupos de ativistas da causa da defesa do meio ambiente, compostos por mulheres negras, indígenas e latinas, têm demonstrado os limites daquilo que chamam de eco-feminismo. Segundo elas, os processos de tomadas de decisão e negociações entre governo, organizações não governamentais e empresas devem contar com sua participação. Sendo elas as maiores afetadas por essas decisões, essas mulheres têm insistido que o debate sobre meio ambiente deve ser composto por diferentes segmentos da sociedade, que não só grupos social e economicamente privilegiados. Mulheres ambientalistas de diversos grupos raciais e classes sociais querem estar na mesa de decisões sobre a melhor forma de garantir desenvolvimento sustentável, preservação da natureza e qualidade de vida para comunidades pobres.

     

    No Brasil, trago aqui os exemplos dos movimentos indígenas, quilombolas e de comunidades de candomblé para apontar o protagonismo e feitos cotidianos desses grupos, cujas maiores lideranças são mulheres.

     

    É na região amazônica que estão os maiores índices de vulnerabilidade do país. Segundo dados do IBGE, a coleta de esgoto na região Norte atinge 7,8% dos municípios, enquanto na região Sudeste, mais de 90%. Quando a floresta queima e a violência chega às regiões indígenas, são as mulheres que vêm na frente para declarar guerra a quem ameaça a vida do seu povo.

     

    Historicamente, no Brasil, a mulher indígena é vista como a própria metáfora da terra: virgem, disponível e indefesa diante dos projetos ocidentais de exploração, econômica e sexual. Contudo, as próprias mulheres indígenas têm, na prática cotidiana, inscrito seu protagonismo na luta em defesa da natureza. No mês de agosto deste ano, aconteceu a primeira marcha das mulheres indígenas com o tema: “Território: nosso corpo, nosso espírito”. Milhares de mulheres declararam que sua existência está intrínseca à preservação da natureza, que é sua fonte de existência material e espiritual. O objetivo da marcha foi dar visibilidade a essas mulheres, que têm cada vez mais alcançado espaço no campo da política e nos debates sobre direitos indígenas, como a líder Sonia Guajajara e a deputada Federal Joênia Wapichana

     

    As comunidades quilombolas também são fundamentais na preservação do meio ambiente, ao mesmo tempo em que defendem seus direitos. Citarei aqui duas delas que há anos estão em disputa com o Estado brasileiro pelo direito de permanecerem nos seus territórios. Aqui na Bahia, na região metropolitana de Salvador, a comunidade de Rio dos Macacos é uma delas. O Incra reconheceu a região como comunidade quilombola desde 2015, mas até hoje a comunidade não tem o título da área, cuja disputa se dá com a Marinha do Brasil. Não são raros os relatos de intimidação, violência (física, psicológica e sexual), abusos e mortes. Segundo lideranças da comunidade, adultos e crianças vivem com medo e têm limitados o acesso a bens básicos, como água. É da terra que as mulheres quilombolas tiram a matéria prima para a produção de alimentos e dos produtos naturais que fabricam e que têm como base folhas e ervas, além do artesanato, que garante a sua autonomia financeira.

     

    No Maranhão, a comunidade quilombola de Alcântara disputa com a Força Aérea Brasileira parte da região que é alvo da cobiça do governo brasileiro e dos Estados Unidos, que pretendem criar um Centro de Lançamento de Alcântara. A pretendida expansão da área da Força Aérea de 8 mil para mais 12 mil hectares numa região onde hoje a comunidade vive afetará as forças produtivas e naturais da área quilombola, limitando o acesso a recursos naturais, como o mar, as nascentes dos rios, as árvores e áreas de plantio. De acordo com um coletivo de entidades quilombolas que escreveu no último mês de julho a Carta de Alcântara, endereçada ao Congresso Nacional, a comunidade não está sendo consultada sobre os projetos do governo brasileiro e estadunidense.

     

    Em todo o Brasil, lideranças quilombolas não deixam de ter motivos para temer pela vida das pessoas das suas comunidades. Somente entre 2016 e 2017 o número de assassinatos de quilombolas cresceu 350%, com destaque na região Nordeste do país.

    Quando falamos de meio ambiente, estamos inevitavelmente falando de cultura, de sobrevivência e de garantia de direitos dos povos tradicionais

    Por fim, outra frente em defesa da preservação do meio ambiente está nas mãos das religiões afro-brasileiras. De acordo com Makota Valdina Pinto, líder religiosa, ativista pelos direitos das religiões de matriz africana e do meio ambiente, “racismo é um problema ambiental”. No candomblé, a existência da própria religião depende de uma profunda simbiose entre seres humanos e a natureza. É na natureza, ainda segundo Makota Valdina, que está a essência do Orixá. Makota Valdina nos deixou em março deste ano, e ao longo da sua vida se dedicou a nos ensinar como as religiões de matriz africana carregam a responsabilidade de, ao preservar a natureza, preservar a própria existência humana. Nas folhas está a cura de muitos males físicos, mas também da alma. E uma vez que toda folha tem sua função, nenhuma delas deve ser destruída. Todo orixá em si é uma manifestação da natureza: Ossain é o senhor das folhas sagradas que revitalizam, Oxum senhora dos rios, Iemanjá mora nas águas do mar. Oxossi vive na mata, enquanto Iansã soprou o vento que escureceu a cidade de São Paulo. Aliás, da religião de matriz africana podemos tirar o ensinamento de respeitar e reconhecer o protagonismo de quem antecedeu nossa presença num lugar. É por isso que os indígenas, chamados de caboclos, são cultuados e reverenciados na religião: são os povos indígenas os donos da terra, uma vez que chegaram aqui primeiro.

    O que quero dizer então? Que pessoas reconhecidamente influentes não devem se engajar nas lutas pelo bem geral? Não, não é isso. O que chamo a atenção é para o risco de o debate sobre o meio ambiente ser mais um campo de aprofundamento de desigualdades. Quem apoia e acredita na narrativa de que povos indígenas, quilombolas e povos de religião afro-brasileira são “massa de manobra” ou incapazes de cuidar dos seus territórios, ou que estão distantes de um ideal de civilização que caminha com o desenvolvimento econômico e cultural, está também adotando um discurso que fortalece a destruição da natureza. Esse tipo de incoerência pode custar a vida das pessoas que vivem em áreas de preservação, e consequentemente a própria natureza que deve ser cuidada e protegida.

    Quando falamos de meio ambiente, estamos inevitavelmente falando de cultura, de sobrevivência e de garantia de direitos dos povos tradicionais e grupos sociais que estão na linha de frente da preservação das matas, dos mares e dos rios, não só para si mesmos, mas para a humanidade. Apoiar a luta, ou pelo menos reconhecer os direitos dos povos indígenas, das comunidades quilombolas e das religiões afro-brasileiras, significa preservar concepções de mundo que entendem que não há vida sem natureza. Por isso, insisto que em torno da questão do meio ambiente reside uma séria questão de disputa política, em que raça, classe, gênero e noções de hierarquias baseadas nas ideias de nação e territorialidade orientam as ações. O protagonismo dessa luta é de mulheres negras e indígenas, que entendem que “sem folha não tem vida, sem folha não tem nada”.

    Agradecimentos: Nesta primeiro coluna, que inicia meus caminhos aqui no Nexo, quero agradecer à equipe do jornal pelo convite e à Giovana Xavier e Lilia Schwarcz, que, como os encantados, chegaram antes.

     

     

    Luciana Brito é historiadora, especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA. É professora da Universidade Federal do Recôncavo e também integra uma organização de mulheres chamada Rede de Mulheres Negras da Bahia. É graduada em história pela Universidade Federal da Bahia, mestre pela Unicamp, doutora em história pela USP e pós-doutora pela City University of New York. É autora do livro “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista”, além de vários artigos. Luciana mora em Salvador com sua família, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Está no Instagram como @lucianabritohistoria. Escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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