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Coluna

'Amor e luta': um encontro com Angela Davis

    Sobre o dia em que conheci, em pessoa, uma das primeiras escritoras feministas que a biblioteca da Unicamp emprestou-me para levar para casa com um carimbo de 15 dias

    É Carnaval! Você está com a família na Bahia. Entre ondas, confetes e arrochas, recebe de Lilia Schwarcz (que Mu-lher!), uma das historiadoras mais importantes do Brasil, um e-mail. A mensagem carrega o sugestivo título “Princeton”. Mudança de planos. Na última semana de férias, você desembarca em Nova York. Entre risos, lágrimas, superações, chegou a vez de celebrar o legado da socióloga e vereadora Marielle Franco. 14 de março de 2019. Lutos. Lutas.

    Dia. “What does #mariellepresente it mean?” Noite. #mulheresnegrasmovemomundo. Em uma sala de jantar com ares coloniais, filósofa, antropóloga, socióloga e historiadora reinventam suas próprias verdades. Embora tenha aprendido se tratar de missão impossível, o quarteto realizou uma proeza: desmantelar a casa grande com as ferramentas do senhor. Em resposta ao improvável fato, suas integrantes despertaram o desejo incontrolável de muitos selfies, beijos, abraços. Doutoras em serem elas mesmas, partiram felizes.

    (Intelectuais Negras: um tanto esotéricas assim - relato de uma noite inesquecível, abrilhantada por uma estrela chamada Angela Davis e pelas reluzentes Aisha M. Beliso-De Jesus e Tianna Paschel).

    ***

    Amor e luta. Foi com estas duas palavras que a grande filósofa e ativista Angela Yvone Davis autografou meu exemplar de “Mulheres, Cultura e Política”. Essa cena icônica, registrada sob diferentes lentes (viva a tecnologia!), ocorreu durante um jantar, promovido pelo Brazil LAB. Isso depois do primeiro dia do seminário “Feminismos Negros nas Américas: Um tributo à ativista política Marielle Franco”, no qual estivemos juntas. O cenário: nada mais, nada menos do que Princeton University.

    Na manhã seguinte a esse memorável encontro, dei-me conta da oportunidade raríssima que tive em mãos. Dela jamais esquecerei. Entre tantas afetações, envolvendo a culpa por não ter aproveitado mais (devia ter anotado tudo, mas tentei ser “natural”!), pensei na importância que o investimento na educação pública representou na minha história. No dia em que completei sete anos de doutorado, realizei o sonho de conhecer Angela Davis. Uma das primeiras escritoras feministas que a biblioteca da Unicamp emprestou-me para levar para casa com um carimbo de 15 dias. #mulheresnegrasmovemomundo

    Em uma noite carregada de sentimentos, com nomes e intensidades variadas, aprendi de mãos dadas a ver minha própria mulher negra de perto

    Desde então estou a pensar que, em geral, pessoas provenientes de famílias pobres, alimentam sonhos ligados à aquisição de bens materiais, melhorias econômicas, viagens. Obviamente que isso é legítimo. E, ao mesmo tempo, somos ensinadas a não cultivar referências que nos inspirem a transformar nossas vidas por meio do estudo, da dedicação ao trabalho intelectual, à leitura, à escrita. Esse desincentivo não é obra do acaso. Ele é o racismo global. Uma estrutura violenta que baseia-se em negar a humanidade da população negra. Das mulheres, então, a gente bem sabe.

    Participar de um mesmo evento, jantar, tirar fotografia, conversar sobre os dilemas envolvendo carreira acadêmica, militância feminista, antirracista. Falar sobre os desafios da maternidade. Da educação pública, da manutenção do projeto família negra. Conectar o pensamento de feministas negras brasileiras e afro-americanas na companhia de Angela, Aisha e Tianna mexeu demais comigo. Ao estilo “amor que não se mede”, nosso encontro foi transcendental.

    Considerando o fato de estarmos reunidas em uma das universidades mais antigas e importantes do mundo para celebrar a vida e o legado feminista de Marielle Franco, comecei a pensar na dedicatória com a qual fui presenteada. Mais do que duas simples palavras - amor e luta - foram símbolos que Angela Davis selecionou. Uma seleção tão cuidadosa quanto seu trabalho ininterrupto de décadas na luta por paz, igualdade e justiça social. Inteligente, sensível e generosa, seus olhares, sorrisos e abraços revelaram que a “mulher mais perigosa do mundo” também pode ser definida como alguém que mantém a firmeza para realizar o que precisa ser feito, sem, contudo, abrir mão da capacidade de amar, de ser humana. #permita-se

    Em uma noite carregada de sentimentos, com nomes e intensidades variadas, aprendi de mãos dadas a ver minha própria mulher negra de perto. Thanks Miss Davis! Ame, seja como for.

    Giovana Xavier é professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Formada em história, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado, por UFRJ, UFF, Unicamp e New York University. É idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras. Em 2017, organizou o catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil.

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