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Coluna

Afinal, quando a economia vai bem, vai bem para quem?

11 de nov de 2019

    Nos Estados Unidos e no Brasil, realidade de famílias negras pobres é equilibrar empregos e orçamentos para tentar conseguir se sustentar em um quadro geral precário

    Aumentou o número de pessoas que vive abaixo da linha da extrema pobreza no Brasil no ano de 2018. São cerca de 13,5 milhões de pessoas – que representam 6,5% da população – vivendo com uma renda mensal abaixo de R$ 145. De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), esse número vem aumentando progressivamente desde 2012.

    Podemos pensar que essa multidão de miseráveis é composta por pessoas desempregadas, mas não necessariamente. Quase dois milhões de pessoas que vivem em situação de extrema pobreza têm emprego, o que demonstra a precariedade das condições de trabalho. Assim, políticas públicas continuam sendo ferramentas importantes de combate à pobreza e à miséria, afinal de contas, a desigualdade histórica e escandalosa que acompanha o Brasil não pode ser tratada como efeito colateral do crescimento econômico. Mas cabe perguntar: a economia cresce para quem?

    Ainda sobre os dados do IBGE, a pesquisa revelou aquilo que já esperávamos: a maioria dessas pessoas que vivem com uma renda que representa cerca de um sétimo do salário mínimo vive na região Nordeste e mais de 10 milhões delas são negras. Arrisco aqui afirmar que essa realidade atinge, na sua maioria, lares chefiados por mulheres negras responsáveis pela renda de uma pequena comunidade, que compõem modelos familiares que extrapolam os limites do que vem a significar família no modelo patriarcal e nuclear.

    De acordo com a socióloga Patricia Hill Collins no seu livro “Black feminist thought”, recentemente traduzido para o português como “Pensamento feminista negro”, política e economia, sobretudo em épocas de crise, afetam diretamente a forma como comunidades negras se organizam. Sendo a mulher a pessoa principal dessas comunidades, e ao mesmo tempo aquela cujos salários são os menores, as políticas públicas têm papel fundamental – principalmente se pensarmos no cuidado com as crianças em épocas de instabilidade. Assim, defende Collins, mulheres negras trabalhadoras necessitam mais de creches, de emprego formal, escola em tempo integral e de qualidade, além de um serviço público de saúde que funcione, políticas de combate à violência e especificamente ao feminicídio (não políticas de genocídio), além do combate à cultura do estupro e a existência de programas de assistência social. Isso também é avanço econômico.

    Nesse sistema de valores, condenados pela economia neoliberal, “guardar” a comida, sobretudo para estas famílias que vivem abaixo da linha da extrema pobreza, pode significar que alguém, naquele dia, ficará com fome

    Discursos moralistas que acabam por culpabilizar as mulheres (e sobretudo as mães) pelo seu suposto fracasso econômico e na educação dos filhos e filhas são inúteis diante das suas realidades. Uma vez que a centralidade das famílias pobres está na figura feminina, essas mulheres sabem muito bem, a partir de uma economia muito peculiar, como dividir o alimento de maneira que todos em casa comam, além de como pagar a conta de luz e a melhor data para pagar o cartão de crédito e ainda como colaborar com amigas, vizinhas, familiares e companheiras que se encontram em situações ainda mais precárias. Essa forma de organização comunitária pode ser inimaginável nos parâmetros das elites, mas tem garantido desde sempre o sustento dos pobres.

    De acordo com o ministro da Economia, a pobreza é culpa do próprio pobre, já que “os pobres consomem tudo” e, portanto, não poupam. Para ele, as recentes medidas do governo acabariam por “educar financeiramente as famílias mais pobres”. Essas famílias na verdade poderiam dar uma aula ao ministro sobre como dividir, multiplicar e como ser solidário também.

    Patricia Hill Collins fala sobre uma frequente realidade entre as mulheres negras pobres e que é muito conhecida por nós, inclusive aqui na região Nordeste. Comumente, família é um coletivo de pessoas que estão ligadas para além de laços consanguíneos. Entre a classe média e as elites, o filho biológico é o único objeto de preocupação e responsabilidade de uma família nuclear. Já nas comunidades pobres sobram mães, tias, vizinhas, avós, madrinhas, mães de santo e as “mães de consideração”, que preferem dividir e consumir a “poupar”.  Assim, nesse sistema de valores, condenados pela economia neoliberal, “guardar” a comida, sobretudo para estas famílias que vivem abaixo da linha da extrema pobreza, pode significar que alguém, naquele dia, ficará com fome. Collins também descreve o dilema das famílias negras de classe média, aqui dentro do que significa ser de classe média no caso das famílias negras de origem popular. Pensar somente em si pode significar solidão e isolamento do restante da sua comunidade. Além disso, é preciso muito esforço para dormir tranquila enquanto, por exemplo, uma irmã desempregada precisa pagar uma consulta na ginecologista, ou um afilhado está indo para a escola com um tênis furado, ou uma amiga precisa pagar a inscrição de um concurso. Enfim, sobram exemplos de como a rede financeira e solidária é importante nessas horas. 

    Embora Collins descreva no livro a realidade dos Estados Unidos, ela pode muito bem ser tomada emprestada por nós para pensar o Brasil, antes que alguém diga que essas (des)estruturas populares de mulheres trabalhadoras são uma peculiaridade dos pobres consumistas que vivem abaixo da linha do Equador. Mas vejamos como vai a economia na terra das oportunidades…

    O presidente Donald Trump tem orgulhosamente afirmado que nunca na história dos Estados Unidos a economia do país cresceu tanto… O que não é, exatamente, uma verdade. Dados demonstram que o discurso de intolerância e violência não tem sido um efeito colateral que “vale a pena aguentar” para ter uma economia supostamente estável. O emprego cresceu, mas a renda das famílias estadunidenses recuou, devido à desvalorização dos salários. Fala-se em uma recessão para 2020 e, assim como no Brasil, ter emprego não significa que as pessoas não vivam em condição de pobreza.

    Vejam por exemplo a situação dos profissionais da área de educação naquele país: dois terços em início de carreira fazem um “bico” para complementar a renda. Boa parte trabalha durante as férias em atividades não relacionadas à área de educação.

    Uma dessas professoras é Lucy Wilson, uma afro-americana que mora na cidade de Columbia, no estado da Carolina do Sul.

    Lucy é professora da educação infantil e, quando sua renda como professora não era mais suficiente para manter a ela mesma e mais duas crianças, ela tomou duas decisões: voltou para a casa da família e se inscreveu num programa de uma empresa farmacêutica que emprega especificamente professoras e professores em busca de renda extra. A jornada tripla de Lucy é a realidade de um em cada seis professores dos EUA.

    Lucy acorda às 5h30, às 7h está na sala de aula como professora e, às 16h, três vezes por semana, empacota caixas de remédios numa indústria farmacêutica. Perguntada sobre como vai a economia, a professora Lucy Wilson disse que vai mal. Além disso, ela afirma que junta o dinheiro “extra” para comprar uma casa e que, ainda assim, isso só seria possível com o apoio de sua rede familiar. Morando numa casa sozinha com suas crianças, a professora afirmou que não teria garantida suas necessidades básicas, inclusive de alimentação.

    Por outro lado, para a CEO da empresa que emprega a professora Lucy, a economia vai bem. E ela afirma que está amando o momento econômico. Quando perguntada sobre o porquê de um programa específico para empregar professoras e professores agora empobrecidos com a desvalorização dos seus salários, a administradora foi enfática: “professores são mão de obra responsável e confiável.”

    A crueldade dessa estrutura tem consequências. Primeiro, faz com que pessoas desempregadas busquem emprego competindo com pessoas já empregadas. E as pessoas empregadas, por sua vez, estão numa estrutura precária de trabalho, sem mecanismos de reivindicação de direitos, como os sindicatos, e buscam soluções individuais para suas necessidades, o que as enfraquece enquanto categoria. As empresas, ávidas por mão de obra qualificada e ao mesmo tempo “responsável” e barata – já formalmente empregada em outros lugares –, viram nisso uma oportunidade, criando o que chamam de “programas inovadores”.

    Melhor seria se esse potencial fosse reconhecido no campo de atuação em que se preparam para estar, ou seja, na sala de aula. Crianças, jovens e adultos dos Estados Unidos contribuiriam muito mais com o crescimento econômico tendo professoras e professores qualificados, com bom salário e que tivessem tempo para passar com suas famílias e acesso à cultura, lazer e ao autocuidado.

    A realidade estadunidense, portanto, não é nenhum exemplo a se seguir. Sendo aquele país o modelo de tudo que se faz por aqui, a realidade dos pobres de lá e de cá, seja com emprego formal e qualificado, como as professoras, ou entre aquelas pessoas que estão abaixo da linha da pobreza, nos faz perceber que os impactos da economia e dos projetos políticos para ambos os países têm lugares sociais bem demarcados. Nos Estados Unidos e no Brasil, quem está com a caneta e o poder na mão e os que cometeram o crime de não nascerem “letrados em finanças” têm lugares de raça, gênero e classe bem distintos. No caso dos miseráveis e empobrecidos, esses vivem o desafio de inventar estratégias e malabarismos para administrarem bem sua pobreza. No caso dos que supostamente “poupam”, administram aquilo já herdaram – e haja discurso da meritocracia para justificar seus privilégios de berço.

    Luciana Brito é historiadora, especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA. É professora da Universidade Federal do Recôncavo e também integra uma organização de mulheres chamada Rede de Mulheres Negras da Bahia. É graduada em história pela Universidade Federal da Bahia, mestre pela Unicamp, doutora em história pela USP e pós-doutora pela City University of New York. É autora do livro “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista”, além de vários artigos. Luciana mora em Salvador com sua família, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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