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Coluna

A queima de livros na história – e no presente

23 de set de 2019

    Censura a esse objeto que inspira a fantasia, perturba e faz pensar atravessa os séculos. Mas como muralhas indestrutíveis, os livros de alguma forma sempre se vingam

    Não me parece coincidência que governos autoritários, espalhados pelas mais diferentes partes do mundo, e vigentes em diferentes períodos da história, apresentem, em comum, o fato de tomarem os livros como objetos a serem destruídos: queimados, recolhidos ou censurados.

    A história mostra como livros e bibliotecas foram e estão sempre sendo destruídos, seja por motivos naturais, seja por conta da própria consciência instável dos homens. Essa é a história da biblioteca de Alexandria, que durante um século teve o mérito de aglutinar 700 mil volumes, que correspondiam a parte significativa do conhecimento disponível sobre a Grécia, mas que ardeu com um incêndio criminoso. Também não foi obra do acaso os ingleses queimarem, em 1814, a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, com seus 3.000 livros. Algo semelhante ocorreu quando Monte Cassino foi bombardeada, durante a Segunda Guerra Mundial, perdendo-se boa parte do conhecimento acumulado sobre a Europa medieval. E não foi muito diferente a sina da Biblioteca Nacional do Camboja, que, atacada pelo Khmer Vermelho, teve 80% de seus livros desaparecidos, assim como foram assassinados 57 dos seus 60 bibliotecários.

    A queima de livros, vista numa perspectiva de longa duração, corresponde a uma espécie de ato ritual, geralmente praticado em locais públicos para assim ganhar um caráter exemplar. E são vários os casos que ilustram tal informação. Em 1244, edições do Talmude e de outros manuscritos judaicos lotavam 24 carruagens que circulavam nas ruas de Paris; foram propositadamente queimados. A Inquisição espanhola, em 1499, incendiou 5.000 manuscritos árabes na cidade de Granada. Documentos maias e astecas foram queimados pelos conquistadores espanhóis, no ano de 1560, por serem considerados “obras do demônio” e se encontrarem cheios de “superstições”. A famosa Bíblia de Lutero, bem como várias de suas traduções, acabaram queimadas, em 1640, por príncipes de regiões católicas da Alemanha. No ano de 1730, o arcebispo de Salzburg supervisionou pessoalmente a destruição de livros protestantes. A “Sociedade nova-iorquina para a Supressão do Vício”, fundada em 1873 nos EUA, chegou a usar um desenho representando a queima de livros como símbolo para combater a imoralidade. Nos anos 1920, na então União Soviética, incendiou-se um número ainda hoje indeterminado de obras “decadentes” do Ocidente.

    Talvez o exemplo mais famoso tenha ocorrido em 1933, quando, logo após a subida ao poder de Adolf Hitler, foram queimados, em várias cidades da Alemanha, todos os livros considerados contrários ao sistema e aos valores nazistas. O evento virou ícone e exemplo para regimes opressores que procuram silenciar e censurar obras não coadunadas com esses governos.

    Durante o macartismo, na década de 1950, várias bibliotecas dos EUA queimaram livros considerados comunistas. O mesmo fez a ditadura de Augusto Pinochet, no Chile, que em 1973 determinou o extermínio de livros como forma de censura. Caso muito semelhante ocorreu em 1981, na Sri Lanka, quando forças policiais deram fim à biblioteca pública de Jaffna, que contava com 100 mil livros e documentos raros, boa parte deles pertencentes à minoria tâmeis. Durante a Guerra da Bósnia (1992-1995) arderam várias bibliotecas com o objetivo expresso de destruir a cultura muçulmana dominante no local.

    Como se vê, a história das bibliotecas e dos livros é tão antiga como pródiga nas destruições que protagonizou, fossem elas mais ou menos intencionais. E a repetição pede atenção, assim como a insistência em queimar, demonstra uma intenção última: liquidar memórias e destruir modelos que não sigam a ordem vigente (e muitas vezes imposta).

    Também na ficção não são poucos os exemplos desse tipo de destruição. É famosa a passagem do livro “El ingenioso Hidalgo Don Quixote” (1605), de autoria de Miguel de Cervantes (1547-1616), quando o barbeiro e o cura lançaram à fogueira os excomungados alfarrábios que já haviam perturbado demais a mente fraca de d. Alonso Quijano el Bueno. Enquanto d. Quixote dormia, tentando descansar o corpo moído pela fadiga das pancadas que recebera ao deixar a estalagem que ele, por sua demência, imaginava ser um castelo, intrusos entraram em seu no cômodo e queimaram sua “livraria endemoniada”.

    os livros foram sempre capazes de resistir a seus destinos inseguros e de vingarem como se fossem muralhas indestrutíveis.

    O cineasta François Truffaut (1932-1984) filmou uma história de ficção científica, cujos protagonistas principais eram livros. Em “Fahrenheit 451” (1966), película baseada no romance distópico de Ray Bradbury (1920-2012), o cineasta narra o dilema de Montag, um responsável bombeiro que tinha como encargo queimar todas as obras “nocivas à modernidade” que encontrasse. Aliás, o número 451 corresponde à temperatura que um livro inflama e se consome. Mas Montag não estava livre do “feitiço dos livros” e bastou que lesse a primeira obra, para começar a duvidar de sua missão (e de sua própria civilização).

    Também vale a pena lembrar do belíssimo conto de Italo Calvino, “Um general na biblioteca”. Nele, o literato narra um estranho episódio que teria ocorrido na Panduria: “nação ilustre, onde uma suspeita insinuou-se um dia nas mentes dos oficiais superiores: a de que os livros contivessem opiniões contrárias ao prestígio militar”. A partir de uma série de investigações percebeu-se que esse hábito, tão difundido, era partilhado por grande quantidade de livros, modernos e antigos, pandurianos e estrangeiros. Frente a tal constatação, o Estado-Maior nomeou uma comissão de inquérito para examinar a maior biblioteca da região. Os militares tomaram posse num dia chuvoso e os estudiosos que costumavam frequentar a instituição foram retirados; só ficou o senhor Crispino, um velho bibliotecário local. A partir de então procedeu-se à divisão de tarefas, sendo que a cada tenente foi designado um ramo do saber. Mas como os militares não eram muito versados “em matéria bibliográfica”, tiveram que recorrer ao Crispino, enquanto procuravam desenvolver seu trabalho de censura. E logo a febre dos livros atingiu os (pobres) militares. Fim da história, mas não tanto. Até hoje, vestidos à paisana, os militares destituídos são “vistos entrando na velha biblioteca, onde esperava por eles o senhor Crispino com seus livros”.

    Dizem que “quem conta um conto aumenta um ponto”. Todos esses casos me fizeram lembrar de um episódio que ocorreu no final de semana de 7 e 8 de setembro de 2019. Incitados pelo prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, um grupo de fiscais da Secretaria Municipal da Ordem Pública percorreu os estandes da Bienal do Livro, para recolher livros com temas ligados à população LGBTTQ+, e, em especial, aqueles que versassem sobre homossexualidade. O pretexto era um romance gráfico da Marvel, que contava a história do casal de homens, Wiccano e Hulkling, que em uma das páginas se beijam. Foi o suficiente para o prefeito (pretensamente ultrajado) tentar montar o seu show e ameaçar apreender esse tipo de obra, considerada por ele “inapropriada”. A decisão do Tribunal de Justiça do Rio impediu, porém, que a prefeitura carioca retirasse os livros. Mas eis que a decisão foi novamente suspensa por um desembargador que emitiu um “inspirado” parecer, afirmando que obras trazendo o tema da homossexualidade “atentavam contra o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente)”. Isso a despeito do ECA não citar literalmente a homossexualidade.

    Enfim, mais do que falar do vai e vem da situação, que ainda passaria por novas reviravoltas, quero tratar do “sintoma” que ela revela. Queima e censura de livros são atos icônicos e simbólicos, que demonstram a emergência de Estados autoritários e abusivos, como esse em que estamos vivendo, e que costumam transformar a “diferença” em “aberração” e o “adversário” em “inimigo”.

    Mas há outro dado igualmente significativo. O prefeito Crivella, que fez de tudo olhando para a sua possível reeleição como prefeito em 2020, não previu o tamanho da reação da sociedade civil brasileira. A imagem do beijo homossexual foi estampada nas capas de grandes jornais e viralizou na rede. Passeatas, com seus integrantes portando livros em suas mãos, e hostilizando o prefeito, mostraram que não se é passivo diante do descalabro e da censura.

    Enfim, livros guardam memórias, encantamentos e se travestem. Perturbam e excitam a fantasia, assim como, muitas vezes, irmanam o sonho com a ação. Frágeis na sua aparência, eles se mostram, na prática, fortes na memória e no conhecimento que divulgam. Pensados dessa maneira, os livros foram sempre capazes de resistir a seus destinos inseguros e de vingarem como se fossem muralhas indestrutíveis. Talvez por isso mesmo, eles também inspiram, no decorrer da história da humanidade, tanto medo e provocam toda sorte de reação por parte daqueles que preferem coibir a debater e lidar com tudo que lhes é diverso.

    Conforme conclui Elias Canetti, em seu belo “Auto de fé”, que conta justamente a sina de uma biblioteca privada, lotada de livros: “Na história de um país ao qual todos nós devotamos igual veneração, de um país onde sempre se tributava atenção sob atenção, carinho sobre carinho, e até mesmo o culto sagrado que bem mereceis, houve um acontecimento horroroso, um crime de dimensões míticas ... No ano 213 a c., por ordem do imperador chinês Shi-Hoang-Ti, usurpador brutal que ousou arrogar-se os títulos de ‘o primeiro, o sublime, o divino’, foram queimados todos os livros existentes na China. Esse celerado, cruel, supersticioso era por demais inculto para compreender a importância dos livros ...”.

     

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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