Coluna

A persistência do latifúndio e do mandonismo no Brasil

    Nossa República continua falha e apresentando muita concentração de poderes, no que se refere à igualdade social, de renda e à propriedade

    “Latifúndio” é um termo de origem latina que inclui e condensa as noções de latus, “amplo, espaçoso e extensivo”, e fundus, cujo sentido é o de “fazenda”. Já “plantation” foi o termo usado para nomear os domínios ingleses no ultramar e que depois a historiografia generalizou para as demais colônias, mas cujo significado era basicamente o mesmo: uma  propriedade rural de grande extensão, muitas vezes formada por terras mal cultivadas ou exploradas, com a utilização de técnicas rudimentares e pautadas no suposto do uso depreciativo da terra e com baixa produtividade.

    Tanto na época do predomínio da cana-de-açúcar na região Nordeste do Brasil (durante os séculos 16, 17 e 18) como no contexto da cultura do café, cujo predomínio data de meados do século 19, o padrão da “agroindústria” foi se modificando, e os proprietários, além de herdar, compravam terras. Já o poder de mando do senhor sobre suas terras e aqueles que nela habitavam seguiu basicamente semelhante. É fato que foi se consolidando, em poucas províncias, e de forma paralela, uma economia interna baseada em pequenas e médias propriedades. No entanto, e ainda assim, a formação e ascendência desses grandes mandões locais manteve-se pouco alterada.

    O modelo colonial que se desenvolveu no Brasil combinava, portanto, e majoritariamente, mão de obra escrava com a grande propriedade monocultora, o personalismo dos mandos privados e a (quase) ausência da esfera pública e do Estado. Esse grupo conformava uma espécie de “aristocracia meritória” recente, e não “hereditária” como era a europeia, uma vez que seu predomínio advinha da concentração da riqueza e do poder.

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    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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