Coluna

A filosofia do ruim e do pior

    Longe da máxima que define a política como a arte de produzir consensos, Bolsonaro acredita ter mandato sobre a voz dos brasileiros

    Tudo que é ruim pode sempre ficar pior. Penso que poucas vezes um dito popular foi tão evocado, e corretamente, na nossa contemporaneidade. No dia 8 de abril, o ministro Ricardo Vélez Rodriguez foi destituído do comando da Educação, diante da sua total e absoluta incapacidade de gestão. Também caiu por conta de suas ideias estapafúrdias; defendeu que alunos filmassem professores com ideias diferentes das deles, e se saiu muito mal quando declarou que os brasileiros, quando no exterior, agiam como “canibais”. Merecidamente, Vélez experimentou de seu próprio veneno e caiu “canibalizado”.

    O episódio confirma também uma atitude recorrente do atual chefe do Planalto, que já deu provas de que não guarda lealdade ou tem vontade política para defender companheiros pressionados pela sociedade civil. Em seus quatro meses de governo, já defenestrou vários de seus “colegas” que soçobraram por causa de atos e gestos tão irresponsáveis como infelizes. Nesse mesmo período, também deixou claro como é pouco apegado ao liberalismo (bandeira que içou durante sua campanha) e ofereceu mostras de que vai em frente com a “batalha moralista e populista” com a qual se elegeu. Jair Bolsonaro se deu ao luxo de censurar uma campanha do Banco do Brasil que procurava atingir uma clientela mais jovem e plural. E mais: pediu a cabeça do chefe de marketing da instituição, falou grosso contra as minorias, dizendo que esse não era o “seu” Brasil”. Há que se perguntar, porém, se o líder do Executivo teria o mesmo gesto altivo se ocorresse o oposto; se a peça publicitária fosse encenada, exclusivamente, por figurantes brancos e heteronormativos! Acho que não; afinal, para nosso chefe de Estado, a “normalidade” parece não passar de mera extensão de si próprio e de sua sombra.

    Mas como dizíamos, “tudo que é ruim pode ficar pior”, e Abraham Weintraub, o novo ministro da Educação, que tomou posse no dia 9 de abril, tem mostrado como, diferente de seu discurso de posse, não está, definitivamente, “aberto ao diálogo”. Ao contrário, vai se afirmando como uma verdadeiro pitbull do presidente (e os cães dessa raça me perdoem pelo paralelo). Logo que entrou, deu uma declaração desastrosa para o Estadão, que cito aqui na íntegra: “O Brasil gasta muito e a produção científica com resultados objetivos para a população é baixa. O Brasil é um país de renda média que tem necessidades essenciais. Precisamos escolher melhor nossas propriedades porque nossos recursos são escassos. Não sou contra estudar filosofia, gosto de estudar filosofia. Mas imagina uma família de agricultores que o filho entrou na faculdade e, quatro anos depois, volta com título de antropólogo? Acho que ele traria mais bem-estar para ele e para a comunidade se fosse veterinário, dentista, professor, médico. O Japão direcionou recursos públicos para coisas mais objetivas e materiais”.

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    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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