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Coluna

#80tiros. E os nossos projéteis de futuro

    A pergunta foi feita de forma provocadora. O que, para além de manifestar nossa indignação em relação à arbitrariedade e violência do Estado, nós somos capazes de fazer?

    “Ninguém explicou que a resposta sou eu.”

    Miriam Alves, “Fumaça”, 1982.

    *

    Nota de início, não de fim: a coluna já estava pronta. Recebi da amiga e historiadora Martha Abreu a informação de que Seu Manoel Morais da Silva, lavrador, ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Angra dos reis, militante da Comissão Pastoral da Terra, fez sua passagem dia 12 de abril. Dona Marilda, liderança do Quilombo do Bracuí, expressou tristeza e preocupação com a morte do mestre griô: “Nossos antepassados estão morrendo sem ver suas conquistas”. Descanse em paz, seu Manoel. A gente agradece e mantém acesa a chama dos sonhos seus, de Marilda e de nossos antepassados. Obrigada!

    *

    Dia 8 de abril completei 40 anos. Foi um dia feliz, com flores e surfe ao amanhecer, almoço prolongado, sala de aula à noite. A presença em tantos lugares que amo, acompanhada por pessoas fundamentais em minha vida, foi arrematada por muitas mensagens emanando boas energias, ao vivo e nas redes sociais. Ao anoitecer, chamou-me a atenção a conversa no grupo de zap da família. A pauta: “em 40 anos nunca choveu no aniversário de Gigi” (como sou chamada em casa).

    Só fui me dar conta da gravidade do ineditismo das águas em 8 de abril quando saí da universidade. Ocasião em que pude ler mensagens de amigas que não conseguiriam chegar à minha casa por conta da chuva. Deve ser sério, pensei, caminhando até o metrô, pelo centro da cidade, deserto, às 20 horas. E aí veio a enchente de imagens e reflexões que habitam a cabeça de intelectuais negras insurgentes. Como está a situação nas favelas? De que forma estudantes voltarão para casa seguros? O que passa na cabeça das mães, empregadas domésticas, presas no trânsito, sem crédito no celular, para falar com seus filhos? Enquanto caminhava, sentindo-me ameaçada pelo vazio da rua, pensava em tudo isso.

    O exercício de manter em primeiro plano, preservado, o dia do meu aniversário tinha se iniciado na véspera. Um domingo no qual o carro do músico Evaldo Rosa, que estava na companhia de sua família, foi alvejado com 80 tiros pelo Exército Brasileiro. Eu não sei o que me dá ao certo, mas quando essas tragédias evitáveis acontecem, sou acometida por um senso de frieza absurdo. Sou tomada pelo rompante de pensar: o que efetivamente podemos fazer? Essa pergunta é necessária por uma razão óbvia: enquanto indivíduo a chance de efetivamente lutar de igual para igual contra o Estado genocida brasileiro não está posta. Eu, mulher preta. Ele, o Estado brasileiro genocida. Ou seja, pessoa versus estrutura. É causa ganha para o segundo. Já sabemos. Meus sentimentos à Dona Lúcia Rosa dos Santos. Mais uma mulher negra transformada, não por “engano”, mas pela certeza do racismo, em vítima do Estado brasileiro. Quem tem sua cor e seu gênero consegue ao menos imaginar a dor que esse lugar representa.

    É possível nos movermos além dessa dor a partir da qual somos forçadas a educar nossos filhos?

    E falando em dor, lembrei de um texto importante de bell hooks. Chama-se “Mover-se além da dor”. Movimentar-se para ultrapassagem não significa minimizar feridas, perdas, cicatrizes. Ao contrário, isso tem um sentido ligado ao que a feminista afro-dominicana Audre Lorde nomeou como o ato de “transformar o silêncio em linguagem”. Em uma cidade na qual o poder público instituído afirma que “a polícia vai mirar na cabecinha e … fogo”, o que me resta? Explicar ao meu filho de seis anos que ele não pode correr em qualquer lugar, abrir um pacote de biscoito no supermercado sem falar comigo, dirigir-se a adultos na rua sem a minha presença ou a do pai. Considerando que sou obrigada a isso, pergunto: é possível nos movermos além dessa dor a partir da qual somos forçadas a educar nossos filhos?

    Sem esquecer que era meu aniversário, indaguei as amigas mitos que, a despeito do temporal, conseguirem chegar na Tijuca, para celebrar minha existência. Curiosamente das cinco, contando comigo, estávamos em quatro mães. A pergunta foi feita de forma provocadora. O que, para além de manifestar nossa indignação em relação à arbitrariedade e violência do Estado, nós somos capazes de fazer? Cada uma deu suas respostas. O mais legal é que todas envolviam as palavras “educar”, “transformar”, “mudar”.

    Efetivamente, não temos uma resposta, ao estilo “o segredo da alta performance”, até porque isso é linguagem que o Batalhão de Operações Especiais usa, em seus cursos de formação, para nos matar. Pode parecer contraditório, mas me deu esperança constatar que a resposta estava na própria sala. Mulheres, negras e brancas, mães, irmãs, tias conversando, formulando, teorizando, compartilhando sobre suas histórias, medos, saberes. Com pontos de vista distintos, estávamos todas juntas tecendo saídas.

    Todos os dias convivo com centenas de estudantes negros na Universidade Federal do Rio de Janeiro. É uma situação muito curiosa conviver quase que exclusivamente com pessoas negras em um espaço da supremacia branca. A academia é isso – gostemos ou não. O fato é que quando essas coisas acontecem, meninas e meninos (queria usar o “x”, mas o leitor para pessoas com deficiência visual não reconhece esta linguagem – a se pensar) chegam às salas de aula com rostos inchados, semblantes apavorados. Uma onda de silêncio abate a turma. De repente alguém desanda a falar. São dez anos ouvindo histórias de jovens que olham para as suas fotografias de escola e se dão conta que todo mundo da imagem morreu. “A única pessoa viva dessa imagem sou eu, professora.” A gente chora, se abraça. Infelizmente acostumada com a situação, minha mente se ilumina e surgem trechos de músicas, poesias e outros escritos de autoria negra que atuam como abraços na alma de pessoas que todos os dias são desacreditadas como pessoas.

    Considerar que a verdadeira ciência precisa ser neutra e afastada da realidade é a mesma coisa que dar um tiro na única pessoa viva da foto. Definitivamente, recuso esse papel. Não só recuso, desautorizo. Prefiro apostar em pessoas que ressignificaram o lugar de “única da foto” em nome da paz e da igualdade. Nossos projéteis de futuro. Eles estão por toda parte. Acreditem!

    Alguns exemplos…

    Cool Hunter Favela:  escritório de pesquisa na zona oeste do Rio de Janeiro. A iniciativa é idealizada e coordenada por Rafaela Joaquim Pina, uma jovem pesquisadora e stylist que – através do desenvolvimento de laboratórios de pesquisa diversos – identifica comportamentos e estéticas emergentes nas periferias de todo o mundo. Entre as ações do escritório, estão trabalhos desenvolvidos para Casa dos Criadores, Festa Literária das Periferias, Puma Brasil, Senac Moda Informação, com ênfase em temas como genocídio da população negra.

    Onira Produções: produtora de Amanda Neri, pedagoga em formação, fotógrafa especialista em registrar cerimônias do candomblé através da valorização da humanidade e da beleza dos orixás. A produtora nasce do desejo de “congelar” as imagens marcantes vistas em ritos, festividades e momentos de comunicação com os orixás. O objetivo está em eternizar a entrega emocional das pessoas envolvidas: lágrimas, sorrisos, movimentos corporais. Gestos que captados com todo cuidado rompem com as narrativas preconceituosas de desumanização e barbárie associadas à religião.

    Yoga Marginal: projeto conduzido por Tainá Antonio Fernandes. Também conhecido por YOGA BXD, a iniciativa consiste na realização de aulas de yoga a preços acessíveis em Duque de Caxias, município da Baixada Fluminense. A jovem, formada em Ciências Ambientais pela Unirio é mestranda no Programa de Psicossociologia e Ecologia Social da UFRJ, possui formação em Yoga Kemética (Africana) e reúne centenas de praticantes de yoga no terraço de sua casa. Tainá, em iniciativa inédita, realizará no mês de abril um Retiro de Yoga na serra de Itatiaia, voltado para pessoas das classes trabalhadoras, geralmente des-identificadas com a prática do yoga.

    Giovana Xavier é professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Formada em história, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado, por UFRJ, UFF, Unicamp e New York University. É idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras. Em 2017, organizou o catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil.

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