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Coluna

“Faça a coisa certa”

    Como trajetórias individuais podem contribuir para causas coletivas? Spike Lee e sua obra “Infiltrado na Klan” me deixaram feliz e fizeram pensar sobre os desafios de se fazer a coisa certa

    Spike Lee e sua obra monumental têm todo meu amor e respeito. Fiquei muito feliz com a vitória do filme “Infiltrado na Klan” para o Oscar de melhor roteiro. Como historiadora atenta às conexões de tempos e espaços distintos, sua conquista remeteu-me à quantidade de personalidades negras contemporâneas homenageadas este ano por escolas de samba cariocas e paulistas. Assim, durante um Carnaval dedicado a celebrar o amor à minha família, reflito, inspirada pelo discurso do cineasta, sobre os desafios de se fazer a coisa certa.

    Lição 1: “Somos todos conectados com nossos ancestrais”

    Só mesmo um homem da categoria de Spike Lee para subir de terno roxo e anéis Hate e Love para receber o primeiro Oscar de sua carreira. É uma pena que muitas pessoas não tenham alcance para entender o quanto isso é inspirador e forte o suficiente para mudar a vida de milhões de crianças negras no mundo! Nas favelas do Rio de Janeiro, por exemplo, um dos primeiros itens comprados por meninos que entram para o tráfico (em média aos dez anos, por um salário de R$ 300) são os cobiçados pares de tênis. Lee, que foi o primeiro neto a cursar uma universidade com as economias que sua avó juntou por cinquenta anos, subiu ao palco calçando seu Nike Jordan personalizado. #façaacoisacerta

    Lição 2: “Vamos reconquistar nossa humanidade”

    Existe uma reflexão muito antiga, que acompanha minha própria trajetória: o sistema é eficaz e perverso em confinar o talento de pessoas negras à condição de único. Trinta e três anos até o brilho do cineasta ser reconhecido na forma da estatueta dourada do Oscar! Trinta e três anos! Mais ou menos o mesmo tempo que a escritora Conceição Evaristo levou para ter seu trabalho respeitado pelo grande mercado editorial. Considerando que estamos falando de apenas seis anos a menos que minha vida, lembrei que parte significativa do meu processo de letramento racial passou pela leitura do livro “Insubmissas lágrimas de mulheres negras” e também por me ver através das personagens de Spike.

    O ápice dessa identificação veio com “Ela quer tudo” (1986). Primeira produção do cineasta, o filme, que virou série (crítica relevante), traz como protagonista Nola Darling. Uma bem-sucedida designer gráfica que, com sua determinação e seu amor à liberdade, também me ajudou a entender muitas coisas sobre mim mesma. A militância pelo direito ao amor, ao autocuidado, a fazer valer nossos desejos. A importância de seguir a carreira acadêmica. De ter estudado nos Estados Unidos e retornado para meu país com um acúmulo de conhecimento que tem gerado tantos frutos, individuais e coletivos. Considerando que morei no Brooklyn, no charmoso bairro de Fort Greene, e que estudei na prestigiosa New York University, super posso surfar na crista da onda. ‘Dotora’ Inspiração, vizinha de Nola Darling, colega de universidade de Spike Lee. #façaacoisacerta

    Lição 3: “Vamos ficar do lado certo da história”

    Como trajetórias individuais podem contribuir para causas coletivas? Este ano, após longas conversas, pesquisas e também muitas dúvidas, decidimos matricular nosso filho em uma escola pública da rede municipal. Dentro de um processo de sucateamento gigantesco, constam na lista de absurdos impostos pela Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro (através de sucessivas portarias, baixadas durante as férias escolares): descumprimento da carga horária mínima, determinada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Básica Nacional, de oitocentas horas por ano letivo, fechamento de escolas, extinção do recreio, superlotação de turmas, redução dos turnos, da distribuição de cadernos, livros e uniformes, corte das merendas, ausência de mediadoras para crianças com deficiências físicas, não abertura de concursos, não contratação de novas profissionais e, consequentemente, sobrecarga das que estão na ativa.

    “Que bom que vocês vieram!”foi o que a diretora disse para mim e minha amiga advogada no dia em fomos, felizes, matricular nossas crianças na instituição sob sua gestão e que se insere em uma rede carioca que atende hoje 637.512 crianças. Definitivamente, lutar pela educação pública é estar dentro dela e, mesmo do lado de fora, defendê-la de todas as formas. Nesse sentido, é essencial conhecer o Movimento de Mães, Pais e Responsáveis pela defesa da escola pública e assinar a petição, coletivamente construída pelo Movem-Rio. #façaacoisacerta

    Lição 4: “Vamos fazer a escolha moral entre amor e ódio”

    Carioca e foliã convicta, este ano troquei o Carnaval de rua do meu #errejota pelo de Itacaré. A parte ruim da decisão, milimetricamente pensada, liga-se a dois fatores. Primeiro: o sentimento de indignação frente ao conservadorismo das políticas de educação, saúde e segurança públicas. Praticadas diariamente, na velocidade da luz, essas políticas impactam drasticamente a vida das mesmas pessoas de sempre. Segundo: o incômodo e o medo do machismo naturalizado da sociedade patriarcal. Um machismo que faz com que em espaços públicos como ruas, transportes e rodas de samba, práticas como encoxamentos, passadas de mão, puxões de cabelo e falas violentas com conteúdos de sexualização, sejam interpretadas como “cantadas”. Em meio a esse contexto, que envolve um feminismo contraditório, que se escusa de chamar publicamente homens para assumirem sua responsabilidade, vamos à parte boa da decisão: o investimento no projeto família negra.

    É mágico o sentimento de reunir três gerações da família Xavier exclusivamente para compartilhar amor, cuidado e lazer em Itacaré, um lugar que me diz tanto sobre afetos. Considerando o somatório da minha idade (39), do meu filho (6) e de minha tia (76), estamos falando de pelo menos cento e vinte e um anos de histórias ancestrais. Parte delas enterradas no fundo do mar, de praias como a da Concha, do Resende e da Engenhoca, que, com muita honra e trabalho duro, posso nesses últimos dias de férias apresentar para os meus. Dadas as condições precárias que possuímos de preservar os registros de nossas histórias, narrá-las de trás para frente é um excelente recurso.

    Tia Lena caminha na areia, com a mesma agilidade de sempre, porém com passos mais lentos. Enquanto olho isso acontecer, volto à minha infância, tempo em que fui apresentada à sua autonarrativa. De uma mulher negra que começou a trabalhar “quando era criança”. “Com catorze anos, eu já era cabeleireira e tinha meu salãozinho no quintal de casa.”

    Por meio dessa minha aposta nas narrativas passado-presente, chego à reforma da Previdência. Conduzida exclusivamente por homens, destaca-se na proposta apresentada ao Senado a pouquíssima atenção dedicada às desigualdades de gênero, ainda que, devido à pressão partidária e de movimentos sociais, a idade mínima para aposentadoria das mulheres tenha diminuído de 65 para 62 anos. Ao estilo “travessia”, que explica a dor que cada pessoa negra carrega, mas também a alegria da existência de tantas famílias como a minha, fico feliz e esperançosa de ver Lena, cuidada pelas mãozinhas do neto “escolhido”. Um menino, filho de professores universitários, estudante da escola pública, que nos enche de beijos e tanto nos ensina sobre o amor.

    “Nossos ancestrais trabalharam na terra de antes do nascer do sol até depois do pôr do sol.” Parabéns, Spike Lee! Uma linda folia para quem é de confete e serpentina. Lembremos sempre: nossa história é de brilho e “chegou a vez” de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, Malês! #façaacoisacerta

    Giovana Xavier é professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Formada em história, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado, por UFRJ, UFF, Unicamp e New York University. É idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras. Em 2017, organizou o catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil.

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