Ir direto ao conteúdo
Coluna

‘Os Sertões’ de Euclides da Cunha: um livro vingador

    Obra clássica, publicada no início do século 20, desempenha papel expiatório na sociedade brasileira em meio ao seu processo de modernização conservadora e em nome da ‘razão de Estado’

    Neste ano de 2019, a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) homenageará Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha (1866-1909), esse intérprete do Brasil polêmico, contraditório, mas essencial.  Euclides da Cunha teve sua vida tão colada ao episódio que retratou, e às interpretações que a ele aplicou, que, muitas vezes, os limites entre reportagem e biografia tornam-se tênues e frágeis. Me refiro ao livro “Os Sertões: campanha de Canudos”, publicado em 1902, e que conheceu sucesso imediato.

    No entanto, nenhuma obra, por mais inovadora que seja, consegue fugir inteiramente às circunstâncias da sua produção, de seu contexto, e do momento que a viu nascer. É possível fazer paralelos, nesse sentido, com a infância problemática de Euclides – a morte prematura dos pais, as várias mudanças de endereço, a convivência forçada com parentes distantes, a inserção problemática na Escola Militar, a formação positivista, e a vida não só curta como cortada por um duelo com o amante de sua esposa, que ocasionou a sua morte. 

    Sem fazer um jogo de causalidade fácil, é inegável como essas primeiras experiências e a formação escolar ecoam em Euclides da Cunha pensador do Brasil; de vários Brasis dentro de um só país. É enganoso acreditar, porém, que todo livro participa de seu tempo da mesma forma. Tampouco vale a pena imaginar que uma obra seja apenas um “reflexo” imediato de seu tempo. Livros como esse são sempre mais, pois ajudam a criar o contexto que, teoricamente, apenas reproduzem.

    E o que faz de “Os Sertões” uma obra especial é o fato de seu autor viajar rumo ao arraial de Canudos cheio de certezas acerca da “barbárie” vigente no local – como jornalista enviado pelo jornal A Província de São Paulo (mais tarde, O Estado de São Paulo) –, e de ter voltado tomado por dúvidas e completamente desiludido com a, assim chamada, “civilização”.

    A comunidade de Canudos vivia no interior do estado da Bahia, num local pouco conhecido pelos ilustrados da capital carioca. A região, caracterizada por latifúndios improdutivos, secas cíclicas e desemprego crônico, passava por uma grave crise econômica e social. Desenganados, abandonados pelos políticos e grandes proprietários, milhares de sertanejos dirigiam-se para Canudos, uma sorte de cidadela liderada pelo peregrino Antônio Conselheiro (1830-1897). Unidos por uma crença na salvação milagrosa que pouparia os humildes habitantes do sertão dos flagelos do clima e da exclusão secular, tanto econômica como social, o arraial cresceu muito. Mas a própria organização comunitária de Canudos e o comércio que realizavam com a vizinhança tocaram fundo nos brios dos grandes senhores da região, os quais, unindo-se à Igreja, que se sentia igualmente ameaçada pelo milenarismo do líder de Canudos, deram início a uma forte pressão junto ao governo da República, no sentido de que fosse aniquilado o, assim chamado, “cancro monarquista”. 

    O certo é que Canudos foi virando uma grande desculpa pronta, suficiente para expiar as culpas da República. Criou-se-se, então, uma série de rumores, sendo que o mais estapafúrdio era aquele que afirmava que Canudos andava armando-se para atacar cidades vizinhas e que partiria em direção à capital. E mais: que os sertanejos pretendiam depor o governo republicano e reinstalar a Monarquia. A notícia não tinha pé nem cabeça, e não havia chance de um grupo de pessoas esquecidas pela República resolverem atacá-la. Mas a grita virou geral e o próprio Euclides, assinando como Proudhon (1809-1865), um filósofo anarquista francês, num primeiro momento atacou o movimento, considerando-o em tudo oposto ao novo regime. 

    Mas a viagem, definitivamente, mexeu com Euclides. Ele presenciou os massacres realizados pela República, que enviou três expedições militares contra Canudos, todas derrotadas, e depois conseguiu destruir o arraial, numa quarta expedição armada até os dentes, vitimando cerca de 20 mil sertanejos, além de 5.000 militares. A guerra terminou com a destruição total de Canudos, a degola de muitos prisioneiros de guerra e o incêndio de todas as casas. Já Euclides da Cunha perdeu a convicção que carregava consigo tal qual medalha no peito.

    Esse é, portanto, um livro em movimento, “on the road”: se é inegável a influência do pensamento evolucionista da época, incluídos os seus traços deterministas e mesmo preconceitos, tanto raciais como geográficos, não há também como negar que no terceiro e último capítulo o autor passa a denunciar um crime de Estado, uma chacina pública. Essa é, assim, uma obra do seu tempo, mas também contra o seu tempo; sobretudo em função do caráter traumático assumido pela Guerra de Canudos (1896-1897) na cultura brasileira e para Euclides da Cunha a partir de seu contato direto.

    O movimento complexo de pertencimento ao contexto intelectual e, simultaneamente, de distanciamento dele e de inovação, já se mostra decisivo na estrutura do livro. Formalmente, o autor segue o esquema positivista de Hypolite Taine (1828-1893), que propunha a trilogia “meio, raça e circunstâncias” para a interpretação da história. O esquema é transposto para o plano narrativo de “Os Sertões”, como uma espécie de roteiro a partir do qual Euclides desenvolve sua análise em três partes que dividem e interligam o livro: a terra, o homem e a luta.

    O livro continua a denunciar o crime – e o castigo – de uma sociedade eurocêntrica, violenta, autoritária, desigual e excludente como a nossa

    Em “A Terra” são examinados elementos gerais da natureza física americana, mas num crescente ajuste de foco para circunscrever não apenas a região de Canudos, como a flora, a fauna e o clima, tendo em vista, sobretudo, identificar as causas das secas que caracterizavam a região do conflito. Dizem que a leitura dessa primeira parte da obra em voz alta reproduz o som do sertão; na opinião de Euclides, essa terra árida é tão persistente como o próprio sertanejo.

    A formação antropológica do brasileiro, entendida como uma formação decorrente da confluência das três “raças” presentes de modo autóctone (indígenas), por imigração (europeias), ou em função da diáspora compulsória (africanas), constitui o tema central da segunda parte, chamada “O Homem”. Aí estão descritos “tipos”, costumes e a própria religiosidade messiânica dos sertanejos, elemento central da Guerra de Canudos. O sertanejo seria um “degenerado”, pois decorrente da mistura de raças “mui diferentes” entre si, mas também um “forte”: como a água que continua corrente no interior de um cactus. Todas essas dimensões convergem e se concretizam na análise, ao final da segunda parte, acerca da trajetória do líder carismático Antonio Conselheiro, que representaria ele próprio, com seu corpo, as ambiguidades dessas populações.

    Por fim, “A Luta”, que corresponde à parte mais longa do livro, tomando cerca de o dobro das duas primeiras juntas, trata da Guerra de Canudos em seis diferentes capítulos.

    Mas se em “Os Sertões” vemos a aplicação dos princípios naturalistas, a obra não se resume a eles; é tomada por tensões e contradições. A viagem a Canudos, como tem ressaltado a fortuna crítica, foi decisiva para acentuar as ambivalências do escritor face aos ideais de ciência e progresso, então dominantes, e para alterar profundamente sua visão sobre os sertanejos e o sertão.

    Não por acaso foi chamado de “livro vingador”, já dois anos após sua publicação, em 1904. Tal foi seu impacto, que a editora Laemmert, a mesma que publicou “Os Sertões”, criou um volume chamado “Juízos críticos”, recolhendo as críticas feitas à obra. Na imensa repercussão, grande até para os dias de hoje, encontramos pistas sobre o sentido de “Os Sertões” na cultura brasileira. O livro balançava convicções, denunciava um genocídio, reconhecia a existência de vários Brasis, e colocava em questão as bases da República no Brasil.  A Guerra de Canudos mobilizou cerca de 12 mil soldados e deixou um saldo de cerca de 25 mil mortos. Para uma sociedade que gosta de repetir para si e para os outros o mito da sua pacificidade, esse era um saldo que mostrava o oposto!

    Os debates sobre a Guerra de Canudos não desapareceram; parecem mesmo redivivos atualmente, quando a história militar brasileira passa por novas ondas de reinterpretação. Não vai faltar muito para que também “Os Sertões” integre o novo revisionismo historiográfico em curso na sociedade brasileira, no fim desta segunda década do século 21. Não por acaso, a Guerra é também chamada de “Campanha de Canudos”, quando, provavelmente, se aproxima ou se atualiza o ponto de vista do Estado, da modernização conservadora, das elites dirigentes e da opinião pública da então capital federal. Campanha no sentido de “missão”, “de mandato”; o que com certeza não era.

    O certo é que faz 117 anos que a narrativa polêmica do conflito de Canudos, realizada por Euclides da Cunha, desempenha um papel expiatório na sociedade brasileira em meio ao seu processo de modernização conservadora e em nome da “razão de Estado”. Já seu autor não encontrou palavras ou narrativas possíveis para resumir o evento que presenciou. Tudo lembra o relato de Walter Benjamin (1892-1940), no texto “Experiência e pobreza”, de 1933, quando o autor observa o retorno dos soldados da Primeira Guerra Mundial, feito em silêncio. Não havia o quê ou por que falar. O trauma de ver colegas morrerem, de presenciar batalhas sangrentas na base do corpo a corpo, calou os soldados que, em vez do júbilo da vitória chegavam a seus países carregando a tristeza do drama humano que experimentaram.

    Não por coincidência, na “Nota Preliminar” do livro, escrita ao final da feitura de “Os Sertões”, Euclides se dedica à tarefa de “denunciar”.

     “Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime.  Denunciemo-lo. E tanto quanto o permitir a firmeza do nosso espírito, façamos jus ao admirável conceito de Taine sobre o narrador sincero que encara a história como ela o merece: ... ela se irrita com as meias verdades que são as meias falsidades, contra os autores que não alteram nem uma data, nem uma genealogia, mas desnaturam os sentimentos e os costumes,que conservam o desenho dos acontecimentos mudando-lhes a cor, que copiam os fatos desfigurando a alma: quer sentir como bárbaro entre os bárbaros, e entre os antigos, como antigo.”

    No jogo entre memória, ensaio e poesia o trecho lembra, também, um poema da pena do próprio Euclides da Cunha:

    “Página vazia”

    Quem volta da região assustadora
De onde eu venho, revendo inda na mente
Muitas cenas do drama comovente
Da Guerra despiedada e aterradora,

Certo não pode ter uma sonora
Estrofe, ou canto ou ditirambo ardente,
Que possa figurar dignamente
Em vosso álbum gentil, minha senhora.

E quando, com fidalga gentileza,
Cedestes-me esta página, a nobreza
Da vossa alma iludiu-vos, não previstes

Que quem mais tarde nesta folha lesse
Perguntaria: "Que autor é esse
De uns versos tão mal feitos e tão tristes?”

    Coletado pelo historiador Francisco Foot Hardman e escrito em 1897, logo depois que Euclides voltou da expedição de Canudos, o poema revisita o conflito vivenciado por nosso autor. Se o poema, a rigor é um ditirambo – forma poética que implica a criação livre e canta a alegria –, já na pena de Euclides surge como economia de contrastes, num movimento semelhante ao que podemos acompanhar nas páginas vazias, tristes e revoltadas de “Os Sertões”.

    Denunciar é levar ao conhecimento, e Euclides da Cunha se valeu de sua posição como “testemunha” – daquele que experimenta a situação in loco, ou como define Hannah Arendt, daquele que “fica para contar” e para não deixar esquecer. Por outro lado, o escritor parece acreditar em uma outra história; uma história mais identificada com aqueles que foram calados e que restaram apenas como “ausência”. Ausência de lógica, de costumes, de realidade. Na verdade, o autor denuncia a invisibilidade que o governo da República dedicou a esses brasileiros, e anota não só o silêncio da imprensa com o silêncio de sua própria narrativa, denunciando o trauma do próprio jornalista. 

    Joseph Conrad (1857- 1924) em seu romance chamado “Coração das trevas” (1902) escreveu as mais duras páginas sobre o horror vigente no Congo Belga colonial. “The horror” repete o narrador, sem encontrar palavras para descrever a violência que seus olhos presenciam. Na narrativa do horror são, sobretudo, os silêncios que impactam; é o que não se diz que impede a tradução fácil.

    Aí está a pena forte desta que foi uma geração desconfiada. Desconfiada da modernidade e de quem, afinal, era “bárbaro” nessa nação. Em vez do determinismo da “terra”, da visão evolutiva de “o homem”, “a luta” revela um intérprete que não tem medo de rever a teoria e repensar o que parecia, até então, verdade assegurada. Talvez por isso ao final do livro Euclides acuse sentir “vertigem”, diante de tudo que pensava, até então, conhecer. Euclides descreve ainda o corpo e o crânio de Conselheiro, “tantas vezes maldito”. A sua cabeça surge, então, como “prêmio de consolação” para essa civilização que se “vinga” e impõe o progresso. “Estamos obrigados ao progresso”, confessa o autor. Afinal, conforme explica ele, com escárnio, o crânio de Conselheiro deveria confirmar a loucura, colocar um ponto final nessa história e cumprir uma espécie de função catártica para essas populações do Rio que deliravam diante da morte do líder.

    Dizem que quando há muito silêncio, sobra ruído e contradição. “Os Sertões” é um livro escrito há mais de um século, mas ainda muito atual. Ele continua a denunciar o crime - e o castigo - de uma sociedade eurocêntrica, violenta, autoritária, desigual e excludente como a nossa. Ao mesmo tempo, desafia as nossas certezas, as respostas simples e denuncia as dicotomias estanques, que produzem mais ódio do que compreensão. Mas atenção: o sertão, definitivamente, há de virar mar (e o mar de virar sertão).

    Ps: Esta coluna é baseada na introdução que escrevi, em coautoria, com André Botelho, para a edição da Penguin/ Companhia das Letras para “Os Sertões”, e que acaba de ser publicada agora em maio de 2019.

     

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

    Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!