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Coluna

‘O amor como resistência política’

    Como tornar a luta por justiça social mais prazerosa? Eis aí mais um desafio no embate diário contra uma estrutura racista

    A repercussão de meu novo livro tem me levado, diante das indagações da imprensa e do público leitor, a pensar de forma mais sistemática sobre o seguinte desafio: como criar e apoiar projetos de vida para a população negra levando em conta o panorama assustador que as estatísticas apontam? Em 2017, 65.602 pessoas foram vítimas de homicídios, 23% dos jovens entre 15 e 19 anos encontravam-se fora da escola e sem oportunidades de trabalho. A predominância de pessoas negras nesses dados do Atlas da Violência 2019 confirma o que já sabemos: a morte e a desigualdade permanecem elementos fundamentais na constituição de nossa história como grupo racial. Para transcender essa realidade macabra, precisamos de muitos antídotos. Democracia e liberdade expressas na forma de políticas públicas em saúde, educação, lazer, segurança. Considerando estarmos em realidade distante desses propósitos, torna-se ainda mais importante que individual e coletivamente sejamos capazes de iluminar as coisas que estão funcionando (são muitas!). Para isso a aposta nas nossas capacidades individuais, entre elas a de resistir todos os dias a um sistema que está contra nós, em todas as esferas, é fundamental.

    Chego a essas conclusões na pele de alguém com uma trajetória de vida associada às realizações, ao reconhecimento. Ambas conquistas ainda raras de serem alcançadas por indivíduos negros na estrutura racista. Em coro com Conceição Evaristo, a pergunta deve permanecer: “Por que no Brasil tudo é tão difícil para pessoas negras?” Ajuda a responder tanto em termos de dificuldades quanto de caminhos de reinvenção a biografia de mulheres como Ruth de Souza (vale muito ler o lindo trabalho do historiador Julio Claudio da Silva). Dona de trajetória brilhante, a atriz, nascida em 12 de maio de 1921, fez sua passagem no domingo 28 de julho de 2019, no Rio de Janeiro. A triste notícia foi dada enquanto a praia de Copacabana encontrava-se tomada pela quinta edição da Marcha das Mulheres Negras em luta pelo bem-viver.

    De que formas tornamos as lutas por justiça social mais prazerosas? Para responder uma pessoa do tempo presente me vem à cabeça: Flavia Oliveira

    Entre as tentativas complexas de ser humana considerei mensagem política de esperança ser presenteada com “Activism of Pleasure: Politics of Feeling Good”. Escrito por Adrienne Maree Brown, o livro (alô, mercado editorial brasileiro!), chegou às minhas mãos através de gesto carinhoso da artista Bel Falleiros. Uma seguidora, que virou amiga pelo poder das redes sociais, apresentou-me a obra que lhe suscitou conexões com o meu trabalho. De fato são muitas. A principal é o esforço de ambas para, na condição de intelectuais negras, dar visibilidade ao “amor como resistência política”, título de um dos capítulos.

    “Ativismo do prazer” coloca em primeiro plano as “políticas do sentir-se bem” criadas por mulheres negras nos EUA. E embora eu esteja em movimento intelectual de transpassar o cânone feminista afro-americano como única referência, o livro de Adrienne, doula com trabalho reconhecido em políticas de humanização do parto e da maternidade, levou-me a pensar em histórias de mulheres negras no Brasil. Como construímos nossas políticas de “feeling good”? De que formas tornamos as lutas por justiça social mais prazerosas? Para responder uma pessoa do tempo presente me vem à cabeça: Flavia Oliveira.

    No dia 2 de agosto, sexta-feira de Oxalá, a jornalista completou 50 anos. Meio século de uma vida cheia de amor e realizações em meio aos percalços. Criada no subúrbio do Irajá, educada na escola pública e formada jornalista na Universidade Federal Fluminense, a filha de Dona Anna Lucia Oliveira da Fraga celebrou a humanidade de ser uma mulher negra no velho conhecido Brasil. Para isso, a mãe de Isabela Reis usou seu amor, capital e reconhecimento reunindo, de forma cuidadosa, criativa e competente, amigos de “todas as tribos”. Pessoas da imprensa, academia, candomblé, protestantismo. Movimento social, samba, música clássica. Zona sul, zona norte, Baixada Fluminense. Gente muito variada que em noite mágica aderiu ao “feeling good” da aniversariante.

    Existem muitas cenas que poderiam ornar este texto, mas escolho encerrar com o altar disposto na porta de entrada da festança. Nele, cabia a uma linda imagem de Iemanjá - negra - saudar os convidados que adentravam o clube. Esse cenário levou-me ao trabalho de historiadoras como Martha Abreu e Rachel Soihet, pioneiras em visibilizar as festas populares como atos políticos da classe trabalhadora na historiografia do Brasil Império e República.

    “A subversão pelo riso” e “O Império do divino” foram livros fundamentais em minha formação acadêmica. De forma distinta, #flavia50, uma festa de celebração das vidas negras, em suas potências e limites, também passa a ocupar este lugar. Movendo o sistema, seguimos criando novas histórias. Faz parte do amor como resistência política contá-las.

    Giovana Xavier é professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Formada em história, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado, por UFRJ, UFF, Unicamp e New York University. É idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras. Em 2017, organizou o catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil.

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