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Coluna

‘Metade basta’: reflexões sobre a indicação de Elizabeth Bishop na Flip

    Durante a sua vida e no Brasil, a poeta americana apresentou uma postura de ‘estrangeira’, daquela que recusa a se integrar em qualquer sociedade

    "(...)

    Mas ele aceita sem problema

    a parcimônia do esquema.

    Se o espelho escorregar

    vai ser de amargar –

    só uma perna etc. Mas por ora

    está apoiado na escora,

    e ele anda e corre e pega a mão

    com a outra. A sensação

    de incerteza o deixa feliz,

    ele diz.

    Afirma também que gosta de estar sempre a se reajustar.

    No momento, eis o que tem a declarar:

    'Metade basta'."

    trecho de "O Cavalheiro de Shalott", poema de Elizabeth Bishop

    É assim que termina esse belo poema de Elizabeth Bishop, na sensível e apurada tradução de Paulo Henriques Britto. Bishop já é a autora homenageada pela Festa Literária Internacional de Paraty que mais causou comoção desde que a Flip foi criada em 2003. Os motivos que levaram os organizadores a escolher a poeta norte-americana me parecem claros, cristalinos: uma grande poeta, uma mulher com casamento estabelecido e aberto com outra mulher, uma estrangeira que adotou o Brasil como seu lar. Tenho certeza, também, que os organizadores da Flip avaliaram que existiria um “risco calculado” na eleição de Bishop: afinal, ela é, ou seria, a primeira estrangeira, ou mesmo estrangeiro, a receber esse tipo de reconhecimento no evento literário de Paraty.

    Mas, como o significado das coisas sempre se dá em contexto, como afirmou o antropólogo Clifford Geertz, “o inesperado fez uma surpresa”, e, no contexto atual, o nome da poeta pareceu lembrar muito mais o momento político em que ela viveu, e hoje vivemos, e as opções que efetivamente fez, do que sua arte.

    Estética e ativismo compõem um par difícil, um tema tradicional e da maior importância, e não me cabe aqui declinar, mais uma vez, os tantos autores que, na época do golpe militar de 1964, aderiram ao novo regime ou com ele simpatizaram. Poderia dizer que “as coisas só são previsíveis quando já aconteceram”, como gostava de se gabar o Conselheiro Aires, famoso personagem de Machado de Assis. Ou então que, “no calor da hora”, qualquer acontecimento vem embalado com o papel de embrulho da incerteza. Mas não me interessa reforçar o argumento, já tão explorado por uma série de artigos que me antecederam, pois acredito que nesse caso não importa o “fato” em si, mas como ele virou um “evento”, culturalmente significado, e mexeu com as subjetividades exaltadas de todos nós.

    Também não quero dar espaço para as fake news de plantão, que procuraram divulgar a sandice de que a Flip pretendia convidar Jair Bolsonaro para participar do evento de uma “aliada” da Ditadura Militar; o que Bishop, com certeza, nunca foi. A Flip tem uma história consolidada ao lado das pautas progressistas e democráticas, e não é o caso de esquecermos do papel fundamental que essa verdadeira festa literária ganhou nesses mais de 18 anos de maioridade.

    E se não há “inimigos” – ocultos ou declarados – nessa história, o certo é que, seja lá qual for o resultado desse embate, não teremos vencidos, mas tampouco vencedores. Na minha opinião, se o debate é bom, o impedimento dele – sua supressão – é péssima. E todos nós saímos perdendo. Quem perde ainda mais é a memória: a biografia de Bishop, que sempre foi uma espécie de “metade basta”; uma pessoa que não pertencia a qualquer lugar que estivesse.

    Não pretendo apelar para o “vitimismo”. Mas já que é a vida dela que parece estar em questão, e não a qualidade de sua arte, vamos a ela. O pai da poeta, William Thomas Bishop, morreu antes de ela completar um ano. Já sua mãe, Gertrude Bulmer Bishop, sofria de transtornos mentais e foi internada num hospital psiquiátrico quando a menina tinha cinco anos. Gertrude permaneceria na mesma instituição até seu falecimento, no ano de 1934, mas a filha nunca mais a veria. Anos depois, lá estava ela em Boston junto da família do pai. Se da primeira infância a futura poeta guardou uma imagem edulcorada, já desse período a representação é oposta. Em “The Country House”, ela dá pistas sobre seus problemas com os avós paternos, e como foi por lá que desenvolveu asma, eczema e outras alergias que a perseguiriam pela vida. “Metade basta”.

    A partir do final dos anos 1920, a vida daria um salto, com a poeta se mudando para a França. Foi por lá, e sobretudo sob influência de Marianne Moore – amizade que manteria até 1972, ano da morte da “mentora” –, que largou de vez a carreira de médica para se dedicar à poesia. Residiu em Nova York e na Flórida, e em 1946 saiu seu primeiro volume de poesias: o aclamado “North and South”.

    Desde a quebra da Bolsa de Valores de 1929, porém, sua família deixara de financiar seus estudos, e Elizabeth sustentava a carreira a partir de empréstimos, incentivos e outros prêmios. Foi inclusive por causa de um deles que a poeta resolveu conhecer a América do Sul, desembarcando em Santos em novembro de 1951. Ela, que pretendia ficar duas semanas no Brasil, acabou vivendo mais de 15 anos. Foi também por aqui que ganharia estabilidade afetiva e amorosa, por conta de sua relação com a paisagista e urbanista autodidata Lota de Macedo Soares. No entanto, essa era também uma espécie de autoexílio, já que a poeta jamais se desconectou, de fato, do movimento cultural norte-americano. Mesmo assim, se comoveu e traduziu para o inglês e, sendo assim, difundiu para o estrangeiro os principais nomes do modernismo brasileiro, tais como João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade.

    Bishop assistiu a uma parte importante da história do Brasil. Presenciou o último governo de Getúlio Vargas, documentou o suicídio do presidente, viu a ascensão de Juscelino Kubitschek e a construção de Brasília, a eleição do estridente Jânio Quadros e a deposição de João Goulart, o Jango, que marcou também o início da ditadura militar no Brasil. Optou, então, pelo lado errado; endossou a princípio as ideias de sua namorada Lota, que era amiga íntima de Carlos Lacerda, um dos artífices do golpe civil e militar de 1964. “Foi uma revolução rápida e bonita” – “nice quick revolution” – escreveu ela a um amigo, o que mostra como estava enganada quanto aos destinos do país que, nos 20 longos anos seguintes, veria seus cidadãos perderem direitos, serem cassados, exilados, assassinados.

    Com o tempo, o relacionamento entre Bishop e Lota se desgastou, em larga medida devido aos conflitos em que Lota se envolveu ao projetar e criar o grande parque do Flamengo, no Rio de Janeiro. O então governador Carlos Lacerda havia indicado Lota para realizar o projeto, e isso a fez entrar em confrontos com burocratas e outros, entre os quais o paisagista Roberto Burle Marx.

    Bishop, nesse meio tempo, havia se mudado para Ouro Preto, onde adquiriu uma pequena propriedade à qual batizou Mariana, em homenagem à poeta e mestra norte-americana. Começou a restaurar o edifício, não gostou do trabalho das pessoas que contratou, mas sua vida a essas alturas já estava muito afetada por depressões, alcoolismo e surtos de ira, dizem os biógrafos. Em setembro de 1967, Bishop voltou a Nova York e Lota a seguiu. Mas o retorno do casal duraria pouco: Lota morreu de overdose, possivelmente suicídio, aos 57 anos. Elizabeth vendeu, então, a casa de Ouro Preto e se desligou definitivamente do Brasil, ao mesmo tempo em que passou a dar aulas na Universidade de Harvard.

    Não se pode negar que a relação da poeta com o Brasil era ambígua e mediada por uma grande relação amorosa. Se seus poemas eram enxutos e de alguma forma distantes da realidade imediata, seus comentários expressos em cartas privadas com certeza não eram. Na sua “Antologia da poesia brasileira” (1972) há muito apreço pela literatura brasileira, mas também um certo distanciamento e até mesmo uma ponta de ironia para com os nacionais.

    Se ela criou vínculos emocionais com o Brasil e os brasileiros, também deixou claras suas diferenças culturais. Talvez tenha decidido ser sempre “estrangeira”, em qualquer lugar, tanto que nem ao menos aprendeu a falar com destreza a língua do país que adotou por tanto tempo. Contam que quando Bishop chegou ao Brasil, como tantos turistas que por aqui procuram o exótico e o mágico, logo provou uma fruta local: o caju. Teve uma alergia tão forte que precisou de socorro médico imediato. Ambivalente na vida e na metáfora fácil, sua relação com o Brasil não seria diferente; era marcada por identificação e distância. Uma “metade basta”.

    Falta refletirmos se um recuo [da Flip] não terá apenas jeito e gosto de derrota e de reconhecimento de que não sabemos lidar com as nossas diferenças

    A poeta não poderia imaginar que pagaria, nos dias de hoje, e tanto tempo depois, o preço da dificuldade de compreensão e de sua postura como “estranha”: aquela que recusa se integrar em qualquer sociedade, ao menos de forma integral.

    Freud foi buscar inspiração na maneira como essa figura aparece no “Homem de Areia”, de E. T. A. Hoffman (1776-1822), mas o “traduziu” de uma forma inusitada a partir do conceito de “estranho familiar”, aquilo que não deveria ter vindo à luz, mas nos surpreende: um retorno do recalcado. “O inquietante, a inquietante estranheza” (originalmente, em alemão, “Das Unheimliche”) são, assim, conceitos psicanalíticos utilizados por Freud para algo (ou uma pessoa, um fato, uma situação ou uma impressão) que não é de todo misterioso pois é, justamente, “estranhamente familiar”. Por isso suscita uma sensação de angústia e confusão que remonta àquilo que é desde há muito conhecido. Unheimlich vem de Heim, palavra que significa 'lar' e que introduz uma noção de familiaridade, intimidade. Mas Heimlich é também sinônimo de dissimulação. Forma ainda a raiz da palavra Geheimnis, que pode ser traduzida como 'segredo', no sentido de algo que é da família mas deve permanecer escondido. Não por acaso, o termo mudou tanto nas traduções que recebeu para diferentes línguas. "El sinistro", na tradução espanhola, "l'inquiétante étrangeté"; “l' inquiétante familiarité”, ou “l'étrange familier”, na tradução francesa, “il perturbante”, na tradução italiana. Para o português foi traduzido como “estranho”, "inquietante estranheza" ou "o estranhamente familiar".

    E talvez seja essa a melhor definição da poeta, que tem gerado tanto mal-estar desde que a Flip anunciou seu nome como homenageada na Festa de 2020. Ela é apenas “quase metade”, sendo a metade inteira. Faz parte pela metade. Este distanciamento crítico da poeta, o “estranhamento”, está presente na análise do também poeta e tradutor literário, Paulo Henriques Britto, que assim definiu as relações de Bishop com o nosso país: “o que realmente a fascinava no Brasil era a natureza; os costumes da gente simples despertavam nela uma curiosidade distanciada; e a high culture brasileira pouco a interessava, com exceção de um número muito reduzido de escritores”.

    Não sou crítica literária, psicanalista, muito menos especialista na obra, mas sei reconhecer como Bishop fez de sua vida, e aquela que imaginou, um poema, e não pretendo aqui “justificar” sua poesia a partir da biografia. Também não quero transformá-la em vítima. Aliás, se ela não admitia ter pena de si mesma, seus poemas pouco escondem as dificuldades que enfrentou com o fato de ser uma mulher, órfã, lésbica, turista sem raízes, asmática e por vezes deprimida.

    Mas no momento em que estamos; numa época em que a ditadura militar virou forma de ameaça – com um governo que ao se sentir ameaçado evoca sempre a volta do AI-5 –; em que muitas vezes é preciso ser a favor ou contra; em que a lógica binária é do ou e não do e, eu mesma, que não tenho poder de definir essa partida, prefiro apenas lamentar. Não há vencedores quando se cria um impasse como esse, até porque, como afirmei acima, o significado se cria “em contexto”.

    A Flip, como diz o nome, é uma Festa, e penso que é assim que deve continuar a ser. Se o nome de Bishop só evocar os equívocos nas avaliações políticas que ela fez e não conseguirmos afastar o fantasma, pois ele volta sempre a puxar nosso pé, será melhor não fazê-la morrer duas vezes. Ela, que faleceu em outubro de 1979, aos 68 anos, não merece morrer agora na nossa memória. Por outro lado, se a comoção servisse apenas para abrir o debate, sobre as relações, sempre tensas, entre arte e ativismo, quem sabe, já terá valido a pena. Torço para que seja ele – o bom debate – que vingue. Sem isso, na minha opinião, não há vitória possível. Muito menos um “viveram felizes para sempre”.

    “Metade bastaria”, mas, pelo jeito, nesse momento, “não basta”. A Flip poderia ter previsto mais essa recepção negativa no momento armado que vivemos. Não previu e história não volta atrás. Falta refletirmos se um recuo não terá apenas jeito e gosto de derrota e de reconhecimento de que não sabemos lidar com as nossas diferenças.

    Termino como comecei, com Elizabeth Bishop:

    "Afirma também que gosta de estar sempre a se reajustar.

    No momento, eis o que tem a declarar:

    'Metade basta'."

    P.S.: Agradeço a Noemi Moritz Kon por me ajudar a apurar o conceito de “estranho familiar” na obra de Freud.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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