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Coluna

‘Conte a verdade’: #beyoncé

    A escrita de mulheres negras na primeira pessoa em jornais, universidades, nas artes revela o potencial que nossas personalidades possuem de transformar. Gerar curiosidade, persuadir, fazer florescer o que já existe.

    Nos últimos dias, vivi muitos momentos marcantes através das coisas simples da vida. Essa leveza, tão difícil de ser mantida diante do peso que viver no Brasil significa hoje, reforça a certeza de que “o pessoal é político” e que só temos a ganhar em termos de democracia e liberdade quando assumimos essa verdade.

    Assim, adorei tomar conhecimento da tradução brasileira do livro “The Black Feminist Thought”, de Patricia Hill Collins. Livraço para discutir o poder da autodefinição e da intelectualidade de mulheres negras ao longo da história. Fiquei também muito feliz com a notícia da estreia de Djamila Ribeiro como colunista da Folha de S.Paulo. Entre tantos retrocessos — extinção de direitos trabalhistas, cortes na educação, nas verbas de pesquisa, corrupção, criminalização da pobreza, patrulhamento de ideias — o protagonismo de mulheres negras no espaço público de debates segue se fortalecendo.

    Alegria maior ainda com a escolha da filósofa para sua estreia. Conversar sobre respeito e igualdade para mulheres negras, com base no conceito de “restituição de humanidades negadas”, preciosidade que tenho aprimorado na última década para visibilizar nossas experiências como pessoas. Seres humanas em vez de objetos e das extremas e problemáticas ideias de “deusa” e “super heroína”. Para quem quiser se aprofundar no tema, vale muito conferir o trabalho fenomenal de Michele Wallace: “Black Macho and The Myth of the SuperWoman”. Publicada em 1978, a obra revolucionou as discussões sobre padrões de masculinidade e feminilidade nas comunidades negras revelando a “cultura do patriarcado no movimento Black Power” .

    Voltando ao Brasil, o texto de Djamila, dedicado à brilhante cantora Whitney Houston, da qual sou uma fã assumida, reforça a perspectiva de que “falar no que der na telha” é um ato político revolucionário, que nos inspira a construir novas narrativas e epistemologias. E na tessitura de um Atlântico Negro feminino, o pensamento de Beyoncé, que tive a feliz oportunidade de conhecer melhor, também se mostra relevante.

    Ao protagonizar esse movimento, ainda que sejamos poucas, fazemos ecoar o óbvio: somos pessoas reais. Um real especial.

    Solicitada a dar um conselho às novas gerações afro-americanas, a artista, cantora e compositora que integra a lista dos 100 maiores artistas de todos os tempos, não titubeia: “Conte a verdade. Estude o passado e não abra mão de viver o presente”. Isso acontece em seu primoroso documentário “Homecoming”, um trabalho, segundo a autora, dedicado a “criar algo no qual as pessoas se sintam representadas e aceitas”. Haveria muito o que comentar sobre o fato de essa poderosa artista ser a primeira mulher negra a se apresentar como atração principal no festival musical e artístico Coachella, na Califórnia (#beychella). Sobre suas narrativas na primeira pessoa acerca de palavras como “trabalho”, “malabarismo” e “sacrifício”. Sobre a sensibilidade e a generosidade de reconhecer o “potencial ilimitado das juventudes negras”. Poder esse evidenciado no show que nomeia o documentário e que contou com orquestra e corpo de bailarinos “anônimos”. Jovens artistas afro-americanos, cuidadosamente selecionados pela estrela do pop.

    A escrita de mulheres negras na primeira pessoa em jornais, universidades, nas artes revela o potencial que nossas personalidades possuem de transformar. Gerar curiosidade, persuadir, fazer florescer o que já existe. Descortina também o poder que conquistamos (e precisamos expandir) de autorizar conhecimentos sobre nossas histórias, experiências e saberes. Chegar a esse patamar — de assumir responsabilidades individuais em nome da democracia global — só é possível porque com “trabalho” e “sacrifício” contrariamos as expectativas de “ficar no nosso cantinho”, como bem disse Bey.

    Seguimos ganhando o mundo, criando projetos inovadores que, de formas distintas, “forçam as pessoas a se identificarem com a cultura negra”. Ao protagonizar esse movimento, ainda que sejamos poucas, fazemos ecoar o óbvio: somos pessoas reais. Um real especial. De mulheres negras que, em todos os espaços, agarram com a alma as oportunidades que a vida apresenta. Deem bom dia para sol e chuva. Bebam água. Assistam a séries e documentários. Procurem fazer coisas que te façam sorrir. Tudo isso entra na conta da #resistência. Encerrando com Toni Morrison: “se você render-se ao ar poderá voar”. #permitase

    Giovana Xavier é professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Formada em história, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado, por UFRJ, UFF, Unicamp e New York University. É idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras. Em 2017, organizou o catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil.

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