Coluna

É fundamental ter mais diversidade em posições de destaque

    Evidências experimentais de pesquisas feitas nos EUA mostram efeitos positivos diretos e indiretos da ampliação de perfis raciais e étnicos em posições de liderança

    A edição mais recente do periódico American Economic Review, um dos mais prestigiosos na área de economia, traz um estudo fascinante da economista e médica Marcela Alsan com os coautores Owen Garrick e Grant Graziani. No trabalho "Does Diversity Matter for Health? Experimental Evidence from Oakland", eles estudam o efeito da identidade comum entre pacientes e médicos nos EUA. O trabalho tem como motivação o excesso de mortalidade de negros comparados com brancos nos EUA e a falta de confiança de pacientes negros em médicos brancos.

    Aproximadamente 1.300 homens negros foram recrutados num experimento de campo em Oakland, na Califórnia, para fazer um exame preventivo de graça. Eles participaram do exame em uma clínica montada especialmente para o estudo, com 14 médicos brancos e negros. Os pacientes foram alocados de forma aleatória para os diferentes médicos.

    Pacientes negros que foram aleatoriamente pareados com médicos também negros têm 47% mais chance de fazer um exame para detectar diabetes, 72% maior chance de aceitar fazer um exame de colesterol e 56% a mais de aceitação para tomar uma vacina contra a gripe. Quanto mais invasivo o teste, maior a chance de o paciente aceitar fazê-lo se o médico tem a mesma identidade que a sua. E por que, neste caso, pacientes negros têm maior aderência a sugestões de exames ou vacinas feitas por médicos negros? Os autores mostram que a comunicação entre médicos e pacientes é melhor quando eles têm a mesma identidade. Eles também interpretam os resultados como uma mudança nas crenças dos pacientes sobre a saúde preventiva, coisa que pode ser feita de forma mais eficaz quando a distância social entre médico e paciente (medida pela cor da pele nesse estudo) é menor. Apesar de ser um estudo especial por seu formato, resultados similares foram encontrados por Andrew Hill e coautores no trabalho "A Doctor Like Me: Physician-Patient Race-Match and Patient Outcomes". Eles analisam dados administrativos de internações hospitalares na Flórida e mostram que pacientes alocados a médicos da mesma cor de pele têm uma redução de 13% na taxa de mortalidade.

    A interação com pessoas de identidade similar não afeta somente relações de confiança, mas também a autoestima, o universo de possibilidades e escolhas. O vídeo que viralizou nesta semana, de uma menina vendo a jornalista Maju Coutinho na televisão e dizendo que seu cabelo era igual ao dela, é um bom exemplo de como pessoas negras em posições de destaque podem servir de exemplo para novas gerações. Mais importante do que o cabelo igual é a normalização de uma jornalista em posição altamente prestigiosa sendo negra e mostrando as possibilidades de sucesso numa sociedade extremamente desigual e racista como a brasileira. Um efeito similar foi amplamente discutido com o lançamento do filme Pantera Negra e a presença na telona de cientistas negros.

    Quando pensamos [em políticas de ações afirmativas], temos que calcular seus benefícios não só levando em consideração a renda e oportunidades geradas para os beneficiários, mas também os efeitos positivos indiretos para a sociedade

    Diversos estudos mostram que crianças negras que têm professores ou professoras com a mesma identidade na escola primária tiram notas mais altas e têm maior probabilidade de terminar o ensino médio e entrar na universidade. O estudo do economista Seth Gershenson e coautores "The Long-Run Impacts of Same-Race Teachers" explora variação de um experimento feito no Tennessee, EUA, chamado projeto STAR, que distribuiu alunos de forma aleatória entre turmas maiores e menores e também distribuiu de forma aleatória os professores. Alunos negros do primeiro ao terceiro ano que tiveram a sorte de ter uma professora ou professor negro têm 7% mais chance de terminar o ensino médio e 13% mais chance de entrar na universidade quando comparados com outras crianças negras que cursaram a mesma escola, mas que não tiveram uma professora com a mesma identidade. Os autores argumentam que o papel de um líder que sirva de modelo com uma mesma identidade é uma das principais explicações para o resultado de longo-prazo.

    Esses efeitos não acontecem somente com crianças pequenas. Robert W. Fairlie e coautores mostram que alunos de minorias em universidades americanas têm um melhor desempenho quando seus professores têm a mesma identidade que eles. No trabalho "A Community College Instructor Like Me: Race and Ethnicity Interactions in the Classroom", eles mostram que a diferença de desempenho entre alunos brancos e minorias cai pela metade quando o professor é de uma minoria não branca, e que esse pareamento com professores de identidade similar afeta a seleção de cursos, a permanência e a finalização do curso universitário.

    Os estudos citados acima, nos EUA, parecem longe da realidade brasileira, já que o buraco aqui é ainda mais embaixo. Professores e médicos negros ainda são raridade. Atores e atrizes negros em posições de destaque são algo recente e contados nos dedos. Quando me perguntam sobre um economista negro, tenho que fazer um grande esforço para me lembrar dos poucos que conheço, e, se você entrar em grandes bancos ou empresas, provavelmente só encontrará brancos nas diretorias.

    Mas políticas de ações afirmativas estão mudando a cara das universidades e de algumas profissões, apesar de faltar muito para que o aumento da diversidade chegue a carreiras altamente competitivas, como a medicina, o direito ou a engenharia. Quando pensamos nessas políticas, temos que calcular seus benefícios não só levando em consideração a renda e oportunidades geradas para os beneficiários, mas também os efeitos positivos indiretos para a sociedade, de uma maior diversidade em posições de destaque e seus possíveis efeitos de transbordamento. Diversidade em posições de destaque é fundamental para inspirar as próximas gerações a sonharem com a mobilidade social. Políticas públicas que permitam essa mobilidade são fundamentais para concretizar esses sonhos.

    Claudio Ferraz é professor da Vancouver School of Economics, na University of British Columbia, Canadá, e do Departamento de Economia da PUC-Rio. Ele é diretor científico do JPAL (Poverty Action Lab) para a América Latina. É formado em economia pela Universidade da Costa Rica, tem mestrado pela Universidade de Boston, doutorado pela Universidade da Califórnia em Berkeley e foi professor visitante na Universidade de Stanford e no MIT.

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