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Coluna

Às vezes uma mulher precisa mais da prancha

    Esse poder passa por se apropriar das identidades de ‘única’ e ‘excepcional’ não como fardo ou martírio, mas como uma posição estratégica que oportuniza falar das experiências distintas de mulheres negras

    Iniciada a temporada de férias acadêmicas, o mergulho no mundo do surf permanece. Uma das coisas que mais fascina nesse esporte é a cultura de incentivo aos grupos e viagens. Da junção desses estímulos, surgem movimentos inspiradores. É este o caso das “barcas”: viagens em grupo, organizadas por surfistas profissionais, com o objetivo de buscar as melhores ondas em picos de todo o mundo. Para além do intuito mais direto, esse formato tem sido apropriado para visibilizar pautas importantes — entre elas a afirmação das mulheres no esporte.

    Assim, cá estou eu, em El Salvador, visitando, pela primeira vez, um país da América Latina como uma das oito participantes da Barca da Bruna Queiroz. Moradora de Maresias, Bruna é uma mulher inspiradora. Em três anos à frente do projeto #bbqonlygirls, a empreendedora já organizou 31 barcas. Com destinos variados como Costa Rica, Havaí, Nicarágua, suas viagens são exclusivas para mulheres. Sua ação afirmativa, cuidadosamente registrada pelas sensíveis lentes da filmmaker Lorena Montenegro, da Moana Filmes, além de contribuir para a valorização da autoestima e do protagonismo femininos, também se torna um grande encontro entre mulheres com formas de ser e posicionamentos diversos.

    Em três dias de barca, além de Bruna e Lorena, na companhia de quatro cariocas e três paulistas, todas brancas, fico pensando o quão improvável seria que nossos caminhos se cruzassem em outros contextos. Essa improbabilidade me leva, inevitavelmente, a refletir sobre as desigualdades raciais e de gênero do Brasil. São elas que explicam Bruna ter me respondido que eu sou a primeira surfista negra a participar de uma das suas barcas. Aqui vale lembrar de Erica Prado, Yanca Costa e Suelen Naraisa, surfistas negras inspiradoras, que dedicam suas vidas ao esporte.

    Escrever sobre tudo isso requer desprendimento e habilidade porque para muitas pessoas a insistência da colunista em narrar sua profunda relação com as ondas associa-se à “falta de seriedade”, ao “absurdo” e às “besteiras”, para citar alguns dos adjetivos presentes em comentários de leitoras e leitores das minhas colunas.

    O fato desse tipo de opinião e cobrança ser inexistente no caso de colegas brancos revela o problema de considerarmos a palavra “mulher” como um conceito universal. Essa generalização liga-se ao racismo e ao machismo, naturalizando a expectativa de que mulheres negras tenham sempre de narrar histórias a partir das feridas, do sofrimento e da subalternidade.

    Em vez de nos permitirmos olhar as pessoas nos seus traços de humanidade, fazendo novas perguntas, tapamos os olhos para as transformações democráticas que nosso país viveu nos últimos anos. Retomando o passado colonial, ficamos indignados com a audácia de objetos assumirem o lugar de sujeitos. De mulheres negras lançarem mão de suas experiências como mãe, acadêmica, turista, torcedora, surfista para interpretar a história do Brasil. Tal qual as cotas raciais, o Bolsa Família, a titulação de terras quilombolas, a solução é tratada como problema a ser combatido.

    Desse lugar de intérprete, enquanto me recomponho de mais um dia de surf, curiosamente escolho sentar na área de lazer do hotel para trabalhar. Começo a escrita da coluna. O primeiro sentimento é de preocupação: “mais um texto sobre surf. Qual estratégia utilizar para que todo o meu trabalho intelectual não seja desqualificado como uma ‘piada’?” Ao mesmo tempo que reflito sobre o peso de sempre ter de criar estratégias, observo minhas amigas. Na piscina, dedilhando o violão ou batendo papo, de pernas para o ar, reflito: seus movimentos de leveza e descontração em outro tempo me levariam a pensar “como o mundo é injusto, eu a única negra da barca trabalhando, em pleno domingo, enquanto todas curtem”. Mais uma vez percebo que essa narrativa me incomoda. Ela não me representa.

    No paraíso de Las Flores, eu saúdo o sol às 6 da manhã. Compartilho histórias de amor, violência e preocupações com o futuro do Brasil

    Essa compreensão relaciona-se ao que Patricia Collins nomeia o “poder da autodefinição”. Esse poder passa por se apropriar das identidades de “única” e “excepcional” não como fardo ou martírio, mas como uma posição estratégica que oportuniza falar das experiências distintas de mulheres negras na história do Brasil. Narrar de igual para igual é um passo importante para a mudança.

    Esse encadeamento de ideias me leva de volta ao Brasil, mais precisamente às cerimônias de posse de deputadas estaduais e federais como Dani Monteiro, Renata Souza e Talíria Petrone. Foi com admiração, respeito e entusiasmo que acompanhei essas políticas erguerem com suas mãos, na Assembleia e na Câmara, a memória de Marielle Franco. Fizeram isso reafirmando o compromisso de colocar seus gabinetes e mandatos a serviço do enfrentamento a todas as formas de opressão.

    No paraíso de Las Flores, eu saúdo o sol às 6 da manhã. Compartilho histórias de amor, violência e preocupações com o futuro do Brasil. Ofereço e recebo gestos de apoio e cuidado para lidar com as alegrias e as frustrações que entrar no mar com uma prancha nos trazem. Na semana de Iemanjá, eu me movimento além da dor, entendendo um pouco mais a grandiosidade do que estar em uma viagem dessas representa para a escrita de novas histórias.

    (Entre meus rituais favoritos está o da escolha do livro da viagem. Aqui vai um trecho:“Quando eu era uma aluna pobre de pós-graduação na escola de cinema, geralmente não tinha dinheiro. E muito frequentemente precisava escolher entre vinho e coisas como papel higiênico. Bife nem mesmo entrava na lista. Era vinho ou papel higiênico. Vinho. Ou. Papel higiênico. O papel higiênico nem sempre ganhava (…). Às vezes o papel higiênico vence a disputa. Às vezes uma mulher pobre precisa mais do vinho tinto”. Shonda Rhimes em “O ano em que disse sim: como dançar, ficar ao sol e ser sua própria pessoa”) .

    Giovana Xavier é professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Formada em história, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado, por UFRJ, UFF, Unicamp e New York University. É idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras. Em 2017, organizou o catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil.

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