Desmontar a educação, queimar a floresta, corroer a democracia, distribuir revólveres. Será que o Brasil desistiu de ter um futuro?

A imensa maioria dos eleitores do Bolsonaro sabe que é melhor do que ele.

Ele diz que seria incapaz de amar um filho gay. Que, a esse desgosto, preferia a morte do filho num acidente de carro.

Então é evidente que ninguém que está votando em Bolsonaro o faz porque ele seja um homem bom.

É ok que ele não seja, aliás.

Quem disse que só homens bons podem ser presidentes?

Sei lá, pode ser que homens maus eventualmente tornem-se bons líderes, quando eles sabem o que fazem, têm boas ideias e estão bem preparados.

Só que não parece ser esse o caso, tampouco.

Uma leitura do programa de governo dele é uma experiência apavorante: um interminável powerpoint cheio de teorias da conspiração, com ideias sem pé nem cabeça e muitos pontos de exclamação.

As propostas são primárias. Para resolver o problema complexo da falta de aprendizagem na educação, ele sugere a solução simples de exterminar a doutrinação comunista. Para resolver o problema complexo do aumento da mortalidade infantil, ele oferece a solução simples de fazer consultas odontológicas com as mães que não escovam os dentes. Para resolver o problema complexo da ruptura do tecido social e da violência que decorre disso, ele propõe a solução simples de armar todo mundo e deixar que cada um resolva como quiser as suas desavenças.

Sem falar que Bolsonaro nunca administrou um boteco. Só o que ele administra é dinheiro, já que sempre foi muitíssimo bem pago, em cargos estatais cheios de benefícios, sempre desempenhando mal seu trabalho, e articulando para arrumar boquinhas parecidas para qualquer um que tenha ou adote o sobrenome “Bolsonaro”.

Bem preparado ele não é.

Mas espera então.

Se Bolsonaro não é bom, nem tem boas ideias para o país, nem é bem preparado, por que será então que três a cada cinco brasileiros dispostos a validar seus votos pretendem digitar o número dele?

Ah, sim, o PT. Claro, o PT.

Ninguém está votando no Bolsonaro, é só contra o PT. É isso?

O PT não é fácil mesmo. Mas, por pior que seja, tem que haver um limite do quanto se aceita para evitar um mal. Não dá para aceitar tudo.

Não existe voto contra o PT, nem contra partido nenhum. Uma eleição serve para escolher um projeto: e o que o Brasil parece disposto a escolher é o projeto de Bolsonaro.

E não dá para dizer que os Bolsonaros estejam fazendo muito segredo sobre qual projeto é esse.

O projeto de Bolsonaro é transformar sua rede de desinformação pelo WhatsApp em comunicação de Estado, exercendo controle ideológico à distância, via memes e vídeos falsos, ridicularizando a imprensa e comandando linchamentos virtuais.

O projeto de Bolsonaro é abandonar a educação, abrindo mão de aumentar os recursos dedicados a desenvolver gente, desistindo de um dia sermos um país produtivo e incentivando economias porcas como a educação a distância, de maneira a plugar desde cedo as crianças pequenas nas redes sociais que o governo irá usar para controlar as pessoas.

O projeto de Bolsonaro é queimar Amazônia e o Cerrado, o que provavelmente empurrará o clima do mundo precipício abaixo. Já na próxima década, o centro e o sul do Brasil devem secar, provocando o colapso do agronegócio. Seremos um dos países do mundo mais afetados por mortes causadas pela mudança no clima.

O projeto de Bolsonaro é apostar no ressentimento social, colocando milícias que já controlam territórios no poder em Brasília, e iniciando uma lógica de assassinatos estatais, que darão origem a ciclos de vinganças e provavelmente deixarão o Brasil ainda mais perigoso.

Não tentem se vingar com o voto. Ressentimento é o caldo onde as grandes tragédias brotam

O projeto de Bolsonaro é concentrar o poder na mão do Estado, exterminando a sociedade civil independente, que empreende para resolver problemas. É invadir a privacidade da população, dando à polícia o direito de julgar, condenar e executar sumariamente, enchendo o país de instâncias de aprovação, regras morais e critérios ideológicos.

O projeto de Bolsonaro é se eternizar no poder, destruindo a oposição e capturando as instituições, controlando a narrativa e usando a força quando necessário.

É este projeto que o Brasil está prestes a escolher.

E aí me pergunto: por que um país escolheria o projeto de abrir mão do seu futuro?

E a única resposta que me ocorre é: estamos deprimidos.

Este mês o Datafolha divulgou uma pesquisa que mostra que 80% dos brasileiros estão tristes com o país. Será que o projeto que o Brasil está prestes a abraçar não é mesmo uma desistência? Um tipo de suicídio: destruir tudo, para acabar com tudo.

E aí olho para as imagens na imprensa de Bolsonaro, reparo nos seus olhos tristes, e fico me perguntando: será que é nisso que as pessoas estão votando? Na sua tristeza? No seu ressentimento? Será que o apoio a Bolsonaro não é uma identificação com a dor do outro? Te entendo, Jair, também estou triste, também estou furioso, também estou com um ódio imenso deles todos.

E, nessa hora, quase tenho piedade dele. Coitado, um escravo do ressentimento: um homem não muito bom, sem ideias muito boas, que não se preparou muito bem, mas que está disposto a qualquer trapaça e qualquer violência para conseguir o poder. E se vingar.

Entendo esse impulso. Entendo o apelo que ele tem para quem está triste, com medo ou com raiva, sentimentos que vêm prosperando no Brasil.

É compreensível, mas é errado. É errado desistir do país dos nossos filhos, netos e bisnetos por causa de uma raiva que estamos sentindo hoje. É errado decidir em quem votar por ressentimento.

Estou terminando de ler o livro novo de Madeleine Albright, a octogenária que sobreviveu ao nazismo e ao comunismo na Tchecoslováquia, e que se tornou secretária de Estado dos EUA. O livro chama “Fascismo: Um Alerta” e conta sobre o surgimento dos regimes de Mussolini, Hitler e Franco quase um século atrás, e também sobre o surgimento de novos regimes autoritários turbinados com ferramentas tecnológicas mais recentemente em países como Rússia e Turquia.

É esse o alerta dela: não tentem se vingar com o voto. Ressentimento é o caldo onde as grandes tragédias brotam.

Antes de entrar na cabine, repita consigo mesmo, várias vezes: “eu sou melhor do que o Bolsonaro”. Ainda dá tempo de nos salvarmos.

Denis R. Burgierman  é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. Foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, comandou a curadoria do TEDxAmazônia, e fez parte do time que criou o Greg News, primeiro comedy news da TV brasileira.
Escreve quinzenalmente, às quintas-feiras.

 

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