Coluna

Uma multidão observa a câmera

    Filme de Fabiano Mixo com realidade virtual tensiona a linguagem cinematográfica. E nos faz construir, ou desconstruir, outras realidades

    Me lembro como se fosse hoje. Era agosto de 2017. E o encontro se chamava “Territórios digitais em ciberculturas plurais”, uma conversa guiada pelo Fabiano Mixo e Eliane Costa. Foi numa sala vazia, do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio, o ITS Rio, após essa conversa, que tive a experiência mais transbordante com a realidade virtual. A primeira e, certamente, a mais marcante. Não por ter sido a primeira, necessariamente, mas por ter provocado um espelho entre a virtualidade e a realidade dos meus dias.

     Coloquei um óculos cujo visor era um celular acoplado que passava um filme-experiência. As imagens me eram tão suficientes que não lembro de som algum. Tudo era silêncio. Um silêncio barulhento. A performance se chama “cartas a Lumière”, do artista Fabiano Mixo. A obra consiste, basicamente, na chegada de um trem à estação mais famosa e povoada do Rio de Janeiro, a Central do Brasil, lugar por onde passam milhões de trabalhadores por dia. E dessa experiência de se fazer um filme em realidade virtual, duas coisas me tocaram: a primeira foi a constatação de que, ali, eu não era uma espectadora. E, sim, uma experimentadora de uma obra no formato de audiovisual, que se utiliza de uma linguagem, de certo modo, cinematográfica. A segunda foi ter experimentado conscientemente aquilo que me parece ter sido normalizado, a hostilidade que a rua impõe sobre nossos corpos negros.

    Lembro que, assim que o filme acabou, me senti como quem sai de um ringue de MMA, quebrada, aos pedaços. Sentindo todos os músculos latentes no corpo. Fiquei alguns minutos parada, com lágrimas nos olhos, tentando dar conta sobre o que tinha sido aquilo que acabara de ver. É que o filme começa numa leveza, num plano sequência em que se pode ver um trem chegando na estação. Assim que chega, as portas se abrem, as pessoas desembarcam. Há algumas imagens no pátio da Central do Brasil e uma cena em que as pessoas vão “encurralando a câmera”, com um olhar fixo na lente. Um olhar sério, em sua maioria. E alguns braços cruzados.

    Fabiano me contou, numa conversa de fim de tarde em Santa Teresa, no Rio, que ele e sua equipe levaram três dias para filmar: um dia inteiro para o trem, praticamente, de 11h às 16h, todos os dias de filmagem. E a montagem foi feita no Première, um software de edição de vídeo, com óculos de realidade virtual. Segundo ele, não faz o menor sentido montar um filme em realidade virtual sem o óculos. Me parece ser uma experiência transcendental essa de montar um filme com um óculos que amplia tudo, os sentidos e as realidades. Ele me contou, também, que a câmera era feito um disco voador, com várias GoPros num suporte redondo, captando imagens em 360 graus.

     

    Quando as pessoas passavam por aquilo, ao desembarcar do trem, o objeto  chamava atenção. E o olhar que aquele objeto recebia dos passantes era um olhar muito parecido com os que recebo na rua. Ali, a realidade virtual aconteceu para mim, e senti o estalo de que aquela tecnologia, que aquele filme, ampliava uma realidade muito próxima da minha. Tive um olhar alertado ali. Era como se aquele dispositivo, materializado numa obra artística, me lembrasse sobre como eu sou percebida na rua. Às vezes, de tanto castigado um corpo, ele já não se percebe presentificado: ele se ausenta para não morrer.  E de tudo que “Cartas a Lumière”, pode, ainda, despertar em mim, essa foi a experiência mais marcante, de ter percebido essa violência no olhar. Ali, era um objeto. E eu, uma pessoa. Mas o olhar coisificado era o mesmo.

    O trabalho de Fabiano Mixo, enquanto narrativa, foi construído para a gente ir descendo, ir imergindo e no final ter essa experiência de realidade virtual. “A gente pode ver um filme em 360 graus e ele não necessariamente é uma realidade virtual. Quando a gente tem uma experiência de realidade virtual mesmo a gente sabe, a gente reconhece”, disse ele.

     O trabalho partiu de uma mistura de coisas: de uma pesquisa de histórias pessoais de trabalhadores que frequentam a Central do Brasil diariamente, documentos históricos da estação e do seu contato com a obra do cineasta alemão Harun Farocki. “Nos últimos tempos, isso se estabeleceu um pouco pra mim como aquele filme, a mulher sem bandolim, que é um filme muito pictórico, muito visual, mas é um filme muito conceitual também. E eu sempre me interessei por isso e nesse filme isso acaba se estabelecendo, de trabalhar com a história, ou seja, como o Farocki faz também com o arquivo, com o momento, com dados, com coisas, como material de trabalho. Então é isso, esse quadro que eu recontextualizo, que eu transformo, que eu coloco uma mídia, reescrevo, o que eu quiser. E o ‘Cartas a Lumière’ é isso, a mesma coisa: estou trabalhando com a história.”

     

     Fabiano também fez um comentário interessante sobre o filme do Farocki e as relações que o cinema, ao longo do tempo, estabeleceu com o trabalhador. “O Harun Farocki é uma biblioteca de cinema... Ele fez um filme sobre os Irmãos Lumière... Nesse filme, o Harun pega essa imagem das pessoas saindo da fábrica, e passa 100 anos de pessoas saindo de fábricas no cinema. O que foi determinante no Cartas foi perceber que a primeira personagem do cinema é o trabalhador. Eu acho que eu busco no Cartas isso como referência, a gente está falando do trabalhador, dessa Baixada Fluminense (Rio de Janeiro) periférica que, de todas as formas, é o que sustenta o estado inteiro. A gente de alguma forma ultrapassa um pouco a fronteira. O que incomoda é um pouco isso, a gente ultrapassa essa fronteira.”

     O filme também faz uma referência direta a “A chegada do trem na estação”, de Louis Lumière e Auguste Lumière, considerado o primeiro filme da história do cinema mundial. “O 'Cartas’  faz uma referência a uma espécie de  nascimento, que, de alguma forma, faz esse paralelo: o nascimento de uma nova linguagem, uma nova mídia. A gente está dialogando não necessariamente com os Irmãos Lumière, não necessariamente só com a realidade virtual, como mídia, mas, de uma forma geral, com esse tempo, o final do século 19, que é muito interessante para a  gente pensar o nosso momento hoje.”

     

    Há quem diga que no dia em que o filme dos Lumière foi projetado, numa sala escura, as pessoas, ao verem o trem se aproximando, saíram correndo da sala, com medo de serem atropeladas. E essa foi a primeira experiência registrada pelo cinema: por meio de filmes, as pessoas poderiam imergir em outras ou em suas próprias realidades. De alguma forma, a obra de Fabiano Mixo tenta tensionar esse papel das imagens em movimento, que parecem tão comuns a nós: será que elas ainda são capazes de nos causar tanto medo a ponto de gerar um desejo ou um real deslocamento físico? Será que as imagens se tornaram tão banais a ponto de não serem mais capazes de gerar nenhum tipo de incômodo?

    O ‘Cartas’, em mim, gerou. Além desse relato do olhar objetificado, que marca a obra, outro momento que me parece ser uma experiência claustrofóbica, e que provoca a aproximação do olhar, é a cena final em que pessoas das mais diversas cores, traços, idades, fazem uma roda próximo da câmera e fitam um “olhar sustentado” durante segundos, que parece uma eternidade. Conversando sobre essa cena, Fabiano me disse que não escolheu provocar incômodos, romantizar nem demonizar a estação da Central do Brasil, mas sim performar o lugar de um ponto de vista. “O último frame é uma foto. De alguma forma, volta para esse ciclo histórico. O roteiro, na verdade, é basicamente o que está no filme, cabo a rabo. Eu não consegui desenvolver mais esses offs, essas histórias. Na montagem, isso se estabeleceu justamente esse embate, essa provocação, ela se estabeleceu de uma forma muito mais forte do que a gente saber as histórias, exatamente. A gente cria uma unidade...  Eu acho que isso se estabelece muito no olhar, o olhar de cada um conta as suas histórias. Mas assim, eu acho que a gente já tem a imagem romântica sobre a Central do Brasil. Com certeza a gente já tem diariamente a imagem demonizada pelos jornais. Eu passei pela Central do Brasil milhares de vezes, faz parte da minha realidade e eu tentei aproximar isso. Eu não quis provocar, não foi essa a intenção, eu sabia que, escrevendo o roteiro, que essa era uma cena de realidade virtual, eu sabia que ela ia causar incômodo, ou que ela ia causar... Não é a câmera que observa a multidão. É a multidão que observa a câmera.”

     

    Gosto de saber as histórias das coisas. Não consigo acreditar muito que a criação parte de um espaço vazio. Acredito mais na junção de coisas, ainda que não totalmente consciente. As experiências que marcam a nossa vida podem servir, também, como objetos, traços, textos, para as cenas que criamos.

    “A primeira vez que eu vi uma coisa que me bombardeou na realidade virtual foi uma troca de olhar. Eu estava na Índia, numa periferia, e de repente eu estou lá, parado olhando as pessoas. De repente eu olho para trás e tem uma pessoa próxima de mim olhando para a câmera. e isso que me arrebatou na realidade virtual e que eu falei ‘nossa, eu quero trabalhar com isso’. Essa troca de olhar, ela me revelou e me disse muito mais coisa... As palavras podem descrever, e eu acho que eu fiz nada mais do que tentar continuar construindo esses olhares. Essa troca de olhar. essa coisa não verbal, essa coisa mais sensorial. de alguma forma compartilhar essa experiência dessas pessoas. Representando personagens, mas representando a si mesmo. As vezes eu acho que mais do que confronto, essa coisa provocadora, eu acho que esse olhar, essa troca de olhar, cada um vai ter uma experiência disso. De fato, o que as pessoas falam dessa cena é muito diverso.”

    A cena final, que a imagem acima mostra, é a única cena com direção de atores, de fato. E Fabiano s�� disse uma frase, que se tornou um mantra. “A gente fez uma pesquisa de histórias variadas, material de arquivo, depoimentos sobre a Central, material de arquivo sobre a central. O roteiro foi feito a partir do recorte de memórias, trajetórias e subjetividades das pessoas que estão ali. E cada personagem, de alguma forma, tem a sua. Elas se atravessam, mas são bem variadas. E aí a gente ensaiou, ensaiei isso com um grupo de atores, meio que determinando esses personagens e construindo junto com eles. O olhar está dirigindo. A única coisa que eu disse foi: sustentem o olhar. Foi um mantra. E as pessoas sustentaram o olhar.”

    Uma das coisas que percebi ao ver o filme em realidade virtual, foi a imagem, a qualidade da imagem e as camadas que a resolução imprime sobre aquilo que foi filmado. A imagem projetada no óculos está muito distante do que é a realidade da “imagem padrão” do cinema hoje. Mas, ao mesmo tempo, essa imagem questiona esse padrão, essa imagem que guia e legitima a experiência cinematográfica. “A gente está mal acostumado com a imagem. A imagem contemporânea é a mesma sempre. Reaprender a olhar através dessas limitações tecnológicas é muito interessante também. Falo como artista, e pensando imagem: que imagem é essa que a gente está produzindo agora? Por que isso causa tanto incômodo, quando uma imagem não tem esse padrão, sabe? O 3D por exemplo na realidade virtual...

    Funciona muito bem. Essa cena final, por exemplo, ela tem um impacto ainda maior porque ela é em 3D e você consegue perceber a profundidade das coisas, não é chapado.”

     

    Em realidade virtual, além da mídia confrontar os limites entre quem assiste o que se passa na tela, também muda o modo de filmar. Em “Cartas a Lumière”, Fabiano não estava perto da câmera porque não tinha como: ela filmava em 360 graus e revelaria que havia ali um corpo manipulando a câmera. E isso muda tudo, o modo de filmar e o modo de elencar as autorias. “Em realidade virtual, é pensar que tudo muda: a forma de fotografar, os atores mudam também. Cinema tem uma linguagem ou várias, mas uma forma cinema de atuar, seja establishment ou superindependente, tem um caráter cinema de filmar, o teatro, por si só, e a realidade virtual é um outro. Por isso me interesso pela mistura de documentário e ficção na realidade virtual. No ‘Cartas’, foi o que discuti com os atores: eu estava ali dividindo um pouco a autoria com eles. Se eu não posso estar ali, como que vou dirigir sozinho? Claro, a gente ensaiou, eu dirigi essa chegada, essa saída, mas eu não estou ali naquele momento, eu não posso avaliar a formação que essa roda vai ter.”

    Outro ponto importante que Fabiano contou, sobre mudar o modo de filmar, é que o diretor muda a sua estratégia. Agora não é ele e uma câmera. Agora, ele se coloca no lugar da câmera. “Quando a gente está fazendo um filme em cinema, você pensa o frame. Na realidade virtual é ser. É se colocar no lugar daquela câmera. É uma coisa mais empírica, você tem que sempre, de alguma forma, pensar quem é ou quem pode ser aquele personagem. A câmera é quase sempre um personagem. De alguma forma o experimentador vai entrando na Central do Brasil passando por essa viagem do trem, chegando, etc. Ele está ali, observando. você tem alguns olhares, das pessoas, dos transeuntes, onde você se percebe, onde você aparentemente está ali como um fantasma. Você está ali só passivamente observando. E a gente tem alguns sinais disso no final, quando o experimentador percebe que ele é o personagem. Ele se reconhece dentro desse espaço. Quem é ele? Essa pergunta, talvez, ao longo do filme, você se pergunte: o que eu estou fazendo aqui? Quem sou eu? Quem estou? Nesse momento final você se descobre ali. Na verdade, era tudo sobre: você também é personagem dessa história, não um mero observador”.

    A história de Fabiano com as imagens começa com esse desejo de experimentar e com a possibilidade de inventar novas linguagens. Isso é o que mais o deixa fascinado em pensar e criar para cinema. Em realidade virtual, o seu interesse é desenvolver uma “cinematic VR”, ou seja, um modo de executar uma linguagem cinematográfica na realidade virtual. E o “Cartas” foi a sua primeira experiência nesse sentido, com mais de 80 pessoas envolvidas, de forma independente. No ano passado, ele ganhou um edital da Oi e fez uma instalação no Oi Futuro do Flamengo, em que visitantes experimentavam a chegada de um trem à estação.

     

    Para o artista, poder trabalhar com realidade virtual é poder criar uma realidade, ou desconstruir realidades. “Quando a gente assiste um filme, a gente armazena essa memória de ter assistido um filme, num determinado lugar do cérebro. Quando a gente assiste a uma obra de realidade virtual, quando ela te toca, quando ela é, de fato, realidade virtual, ela vai para um outro lugar. Que é, de fato, o campo da experiência, de quem realmente vivenciou aquilo. E isso é extraordinário, eu diria. Porque, por exemplo, a esquizofrenia é basicamente não conseguir perceber o que foi vivido e o que não foi... É importante pensar em quais impactos essa mídia pode proporcionar, positivos e negativos. Que memórias a gente vai estar construindo, que tipo de memória vai estar sendo construída. A gente só vai saber a representatividade ou não de algumas coisas daqui alguns anos. Olhar para trás e ver no que as coisas se transformaram... As pessoas tem a sensação de que o filme tem esse caráter, até mesmo por fazer referências históricas.

     

    Yasmin Thayná é cineasta, diretora e fundadora da Afroflix, curadora da Flupp (Festa Literária das Periferias) e pesquisadora de audiovisual no ITS-Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro). Dirigiu, nos últimos meses, “Kbela, o filme”, uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra, “Batalhas”, sobre a primeira vez que teve um espetáculo de funk no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a série Afrotranscendence. Para segui-la no Twitter: @yasmin_thayna

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