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Coluna

Uma história de mosquitos: febre amarela ontem e hoje

    Desde o começo do século 20 até os tempos atuais, além da doença em si, um outro problema persiste: a incapacidade do governo de informar a população

    Professor que é professor tem sempre um bom exemplo guardado debaixo da manga. Quando queria provar a importância da vontade política, usava com frequência o mesmo episódio: o combate à febre amarela. Meu argumento, hoje falível, era o seguinte: como todo mundo queria acabar com a epidemia, ela foi debelada, e em tempo recorde, no Brasil de inícios do século 20.

    Mal sabia que minha retórica tinha seus dias contados. A febre amarela voltou a ser uma realidade nacional, e vem causando a mesma sensação de medo e desamparo que assolou os cariocas nos idos de 1904. Naquela época, a cidade do Rio de Janeiro, então capital do país, contava com 800 mil habitantes e já era considerada perigosa. Mas não pelas mesmas razões atuais; o maior problema se concentrava nas epidemias que chegavam no cargueiro dos navios ou desenvolviam-se de maneira endêmica. Peste bubônica, tuberculose, varíola, tifo, cólera, malária e febre amarela faziam parte do cardápio de enfermidades que mais matavam no começo da Primeira República. De tão presentes, elas acabaram manchando a fama desta terra tropical, constituindo-se numa sorte de vergonha nacional.

    Rodrigues Alves, mais conhecido pelo revelador apelido de Soneca, era, então, o presidente do país. Para tentar desmentir sua alcunha, e tratar de melhorar a imagem pública da capital, ele decidiu atuar, então, em duas frentes: tratou de embelezar a cidade e de combater as epidemias que grassavam como erva daninha no solo carioca.

    Com o objetivo de dar um jeito na cidade, e de transformá-la num cartão postal, Alves chamou Pereira Passos, que, dentre outras medidas, tratou de expulsar a pobreza para os arredores da cidade. O engenheiro arquitetou e executou um projeto urbano de grandes proporções, que ficou popularmente conhecido como “o bota-abaixo”: destruiu casas populares e em seu lugar criou avenidas largas, onde a elite passeava e praticava a arte do ver e de ser visto.

    Já Oswaldo Cruz selecionou três das doenças que mais acometiam os brasileiros – a peste bubônica, a varíola e a febre amarela – e passou a idealizar uma espécie de missão saneadora, que implicava, entre outras medidas, uma campanha de vacinação. O cientista se esqueceu, porém, de um “pequeno” detalhe: avisar e instruir a população!

    Segundo o médico e sua equipe não havia outro jeito de lidar com a situação. Para combater as doenças, e sobretudo a febre amarela, era preciso invadir o cotidiano dos brasileiros. Foram então formadas “brigadas de mata-mosquitos”, que entravam nas casas com seus borrifadores em punho e procuravam insetos onde quer que estivessem. Tais “soldados da saúde”, como eram chamados, desinfetavam, limpavam, demandavam reformas e muitas vezes interditavam moradias. Para se ter uma ideia do tamanho da operação, só no segundo semestre de 1904 foram realizadas 110 mil “visitas”.

    Mas apenas invadir as casas não era suficiente, e Oswaldo Cruz conhecia bem a história de uma outra campanha de vacinação, empreendida alguns anos antes, sem êxito algum. Desta vez, asseverava ele, era preciso tratar do problema como uma questão mandatória. Um novo projeto foi, assim, elaborado visando tornar a medida obrigatória e sem exceções. No entanto, como a boataria era maior do que a informação, o povo, carente de qualquer referência ou dado, começou a chamar a medida de “ditadura da vacina”.

    E a pressão começou a brotar de todos os lados: da parte dos jornais, dos políticos aproveitadores e da população – um abaixo-assinado de 110 mil pessoas foi entregue ao “Soneca”, que hesitou, mas aprovou o projeto no dia 31 de outubro de 1904. A partir de novembro, Oswaldo Cruz teve carta branca para atuar (e borrifar). Ninguém escapava: só era possível casar com atestado de vacina; matrícula em escola agora demandava o mesmo tipo de documento, e até quem queria viajar ou se hospedar em hotéis precisava mostrar comprovação médica.

    Mas o grupo de Oswaldo Cruz não contava com outro inesperado. Antes mesmo de o plano ser implementado, uma revolta estourou nas ruas do Rio de Janeiro. No dia 10 de novembro, uma quinta-feira, a agitação tomou conta da capital. Tudo começou com uma passeata de estudantes, que, diante da cavalaria, bradavam valentes: “Morra a polícia”, “Abaixo a vacina”. A partir do dia 12, o movimento se generalizou, com os jornais contabilizando cerca de 4.000 pessoas, de todas as classes, aderindo a uma passeata que tinha como direção o palácio do Catete, então a sede da Presidência da República. No dia 13, bondes foram queimados, barricadas erguidas e uma série de delegacias e quartéis assaltados.

    As notícias vinham como enxurrada: comentava-se que as prostitutas da rua São Jorge haviam aderido à organização; que as colunas de lampiões a gás do Largo de São Joaquim tinham sido quebradas produzindo grandes labaredas. Até mesmo a escola preparatória do Realengo, comandada pelo general, e futuro presidente, Hermes da Fonseca, se atiçou.

    Quando chegou o dia 15 de novembro, data do 15º aniversário da República, ninguém se atreveu a fazer desfile, soltar foguete ou comemorar a ocasião cívica. A revolta popular estava pegando fogo e, esperto, “Soneca” esperou o dia seguinte para acabar com a festa e começar a repressão. Não teve dúvidas: decretou o Estado de Sítio.

    A Revolta da Vacina foi debelada no próprio dia 16 de novembro e deixou um saldo muito negativo para um país que sempre gostou de alardear seu alto grau de “passividade”. Foram 30 mortos, 110 feridos, 945 presos e 461 pessoas deportadas. O quadro é forte e revela as perigosas consequências quando se instala uma imensa distância entre o Estado e sua população.

    É possível dizer que a Revolta da Vacina representou uma espécie de trombada entre várias boas intenções, mas que corriam em direções distintas. Ninguém há de negar que debelar uma doença como esta é tarefa da maior importância. No entanto, também não vale apenas acusar a população de “ignorante” e ponto final. Essa é sempre uma saída fácil, quando se quer desconhecer a relevância de uma obrigação cívica: informar os cidadãos é medida não só necessária, como atitude democrática.

    O tamanho da reação foi, portanto, compatível com a força da indignação dos cariocas que se sentiram atingidos na sua dignidade pessoal. Entrar nos lares, levantar as saias das moças e arribar as calças dos rapazes era afronta grave contra valores enraizados na população local. A revolta significou também uma espécie de desforra. Se a maioria dos moradores não tinha direito a voto e pouco participava politicamente, era chegada a hora de usar o pretexto da vacina obrigatória para arregaçar as mangas e reclamar do elitismo da República que sistematicamente desconhecia seu povo. Num depoimento para o jornal A Tribuna, um negro capoeira definiu bem o sentimento geral. Segundo ele a força da reação servia para o governo “não andar dizendo que o povo é carneiro”.

    Uma nova Revolta da Vacina

    No momento em que escrevo esta coluna, o Ministério da Saúde acaba de divulgar um novo balanço dos casos e mortes por febre amarela no Brasil. São 353 casos confirmados da doença, sendo que 98 pessoas infectadas morreram no período de 1º de julho de 2017 a 6 de fevereiro de 2018. Além do mais, foram notificados 1.286 casos suspeitos até o mesmo dia do ano.

    Os dados não são epidêmicos e não lembram, nem de longe, a alta mortalidade do início do século passado. Se o Rio de Janeiro não escapou da doença, está longe de ser dos estados mais afetados; até hoje 34 infecções foram lá detectadas. Já São Paulo e Minas Gerais lideram o ranking da doença no país, com 161 e 157 reportes, respectivamente.

    O último caso de febre amarela urbana foi descrito em 1942. Todavia, em 2017 o alarme começou a soar forte e ganhou volume no ano de 2018. Um dos maiores temores dos cientistas que estudam a febre amarela é que o vírus comece a ser transmitido nas grandes cidades pelo “mosquito bandido”: o conhecido Aedes aegypti, que é também transmissor da dengue, da chikungunya e da zika. Portanto, controlar o aumento da população do inseto é medida essencial e urgente.

    O problema é que, num governo que derruba ministros e secretários como quem desce de um tobogã, é natural que a população esteja novamente alarmada e insegura. Além do mais, a falta de informação que afligia a população em inícios do século 20 parece cercar a história desta doença até mesmo nos dias de hoje. Diante da carência de comunicações claras acerca das prioridades e da forma como será desenvolvida a vacinação pública, um outro tipo de revolta tem se manifestado entre nós. Há uma histeria solta no ar, com muita gente correndo, desta vez, para tomar a vacina. Mudar o endereço, trapacear na fila, imaginar sintomas não é atitude ética e cidadã.

    No entanto, não é só a população que deve dar exemplo de civilidade. A tentativa de tornar invisível e empurrar com a barriga um problema que já vinha se anunciando há um bom tempo e o descaso persistente com o nosso direito à saúde fazem parte da atitude de uma série de políticos, cujo único projeto consistente tem a ver com a sua própria manutenção no poder.

    Hoje sabemos que faltou vigilância e combate às endemias rurais, não se estocou a quantidade necessária de vacinas e tampouco acompanhou-se o movimento de macacos infectados que são da maior importância para sinalizar a presença da doença em certas regiões. Tudo isso junto fez com que uma doença que parecia sonolenta novamente se impusesse na nossa castigada agenda nacional. Haja paciência (e mosquitos)!

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto afirmava que macacos transmitem febre amarela. A transmissão se dá por mosquitos. A informação foi corrigida às 14h de 13 de fevereiro de 2018.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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