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Coluna

Somos o outro do outro. Ou um desabafo a favor do relativismo

    O tempo tem passado ligeiro ultimamente, e o que há três anos julgávamos assegurado – uma democracia com instituições fortes e avanços consideráveis na nossa cartela de direitos – hoje soçobra feito navio sem rumo

    O antropólogo norte-americano Clifford Geertz, em artigo intitulado o “Anti anti-relativismo”, afirmou não existir melhor tarefa para um estudioso do que tratar de destruir medos (alheios e próprios). E ele mesmo selecionou um: o medo do “relativismo cultural”. Esperto, explicou que não pretendia defender “a coisa em si” — a atitude de “relativizar” ou de colocar em questão qualquer verdade ou teoria assentada. Queria mesmo era criticar “o pavor que existe em torno do conceito”. Não se tratava, portanto, de advogar por qualquer relativismo, mas de combater as categorias de acusação que têm rodeado o conceito: “o subjetivismo, o niilismo, a incoerência, o maquiavelismo na condução política, a ignorância ética”, e assim por diante.

    O artigo, publicado originalmente em 1984, continua absolutamente atual. Andamos precisando de uma boa dose de relativismo, para que consigamos novamente descobrir valor no que é diverso, sentido no que não nos diz diretamente respeito, e graça no jogo da democracia que sempre implicou conviver com a diferença.  Foi com o discurso dos relativismos que atacamos os racismos e encontramos espaço, força e lugar para idealizar vários ativismos: os feminismos e os movimentos de gênero e sexo. Também foi erguendo a bandeira dos relativismos que lutamos pela utopia de um mundo mais plural e variado.

     Pois bem. Se seguirmos a hipótese de Geertz, é possível dizer que temos visto tomar forma um mundo ferozmente antirrelativista. Um mundo que vê na diferença um adversário a ser, se possível, eliminado, e na igualdade (e na mesmice) um bom espelho para se reconhecer e admirar. Nessa era repleta de certezas e ódios consolidados, a dúvida, a vontade de ouvir, passa a ser sinal de fraqueza ou até mesmo de incoerência. É por isso que o antídoto do anti-antirrelativismo ainda funciona, mesmo que mais de 30 anos depois. Sem defender todo e qualquer relativismo (pois há limites para a nossa compreensão), vale a pena argumentar a favor de uma postura mais aberta e inclusiva de ser e estar nesta vida.   

    Posições políticas à parte, ninguém há de negar que habitamos tempos profundamente antirrelativistas e momentos de clara recessão da democracia. Se a democracia, nos últimos 30 anos, parecia uma realidade de longa duração — comprovada pelo final das ditaduras militares na América Latina, pelo desmantelamento dos regimes comunistas no Leste Europeu e pelos avanços nas  políticas de direitos no panorama internacional —, hoje temos certeza que nenhum regime “vive feliz para sempre”.

    Na verdade, o contexto global vem demonstrando como tudo neste mundo pode mudar. Depois da Grécia com seus valores democráticos veio uma Roma militarizada e imperialista, e, nos dias de hoje, a lente de comparação não é muito diferente. Se a Europa era até então considerada uma espécie “bastião dos valores democráticos”, hoje Polônia e Hungria têm à frente governos de extrema-direita, e países como Holanda, Áustria, Alemanha, Itália e Suécia possuem partidos fortes que professam uma cartilha xenofóbica, contrária à distribuição equânime de direitos e à entrada de imigrantes e refugiados políticos. Na Turquia, uma espécie de “autogolpe” inaugurou uma nova forma de ditadura que prendeu ou expulsou boa parte de sua intelectualidade. Na Venezuela, o populismo deu lugar a um governo com perfis claramente ditatoriais. Já nos EUA, Donald Trump elegeu-se presidente com uma pauta que consiste em instigar ódios e dividir a população. No Reino Unido, o Brexit mostrou quão dividida andava a terra da rainha Elizabeth e do parlamentarismo.  O cenário internacional vem comprovando, portanto, como a democracia vai se parecendo, nos dias de hoje, com uma espécie de relativismo ingênuo, que precisa ser evitado.

    No Brasil também desenvolvemos uma espécie de aversão aos relativismos e produzimos um período de claro declínio democrático. As manifestações de 2013 prometeram uma pauta ampla e plural, mas entregaram um país dividido e que usava as ruas (e só retrospectivamente nos demos conta disso) para lutas bastante distintas. Uma das avenidas foi tomada por aqueles que queriam um Brasil diferente e mais inclusivo; a outra por aqueles que também desejavam um país diferente, mas viram em Dilma Rousseff e no PT a origem exclusiva para todas as nossas mazelas. Se em outros países o impeachment é considerado um recurso extremo, por conta dos riscos que esse expediente parlamentar pode trazer para a democracia, já no Brasil, desde a Constituição de 1988, recorremos ao procedimento duas vezes. Em 1992, o presidente Collor de Mello sofreu um processo de impeachment, cuja lisura e a falta de oposição política acabou por fortalecer a democracia. Já no caso da presidente Dilma Rousseff o processo encontrou um país dividido e tratou de rachá-lo ainda mais.

    A temperatura elevada fez com que a indignação das ruas derretesse as instituições políticas, levasse a população a agir de maneira normativa, moralista e na base do linchamento (alheio). A voga é acusar e não propor soluções; encontrar um inimigo e depositar nele todo o fardo. Melhor ainda é encontrar um “outro” mais “outro” e atribuir a ele toda a “conta da crise”.

    Luiz Eduardo Soares, antropólogo e ex-subsecretário de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, escreveu um belo artigo bem no dia do anúncio da prisão do ex-presidente Lula. Segundo ele, “um antipetismo de grande escala” contagiou parte significativa da sociedade brasileira, tal qual veneno, intoxicando relações públicas e pessoais, criando ódios e dando “combustível à extrema direita”. Sem citar Geertz, Luiz Eduardo declarou, sem risco de coincidência, que, “mesmo não sendo petista”, era “anti-antipetista”.

    Novamente, a intenção não parece ser defender uma causa em si, ou até mesmo um partido, mas mostrar as falácias de uma cruzada moral que tem se direcionado, segundo ele, com grande exclusividade, em direção ao PT. Invertendo a norma democrática e usando de um dado viciado, o “outro” deixa de ser um adversário para se transformar num inimigo conflagrado.

    Hora de juntar a noção de anti-antirrelativismo de Geertz com a de anti-antipetismo de Luiz Eduardo Soares. Diálogo não é uma forma ingênua de fazer política; é antes uma maneira de mostrar que é possível discordar, considerar seu adversário incompetente, questionar suas práticas, mas não duvidar da legitimidade do oponente e assim desautorizar o direito que ele tem de tomar parte na disputa democrática.

    O mundo não tem por que continuar dividido entre esquerda ou direita, crédulos ou realistas, devotos ou supersticiosos, subjetivos ou objetivos.

    Um bom exemplo do uso pouco calibrado da nossa democracia pode ser retirado da comparação entre alguns processos políticos concomitantes. Enquanto o caso Lula correu em acelerados 8 meses, os demais, segundo reportagem da Folha, levam em média de 18 a 30 meses. Não sou contra a agilidade do sistema; muito pelo contrário. Proponho, apenas, que a Justiça seja “veloz” e “igual” para todos. Afinal, justiça não é jogo de picuinha pessoal ou braço de ferro de poder.

    Justiça também não é torcida organizada. Se Lula transformou seu mandado de prisão numa espécie de vendeta pessoal – do tipo, “só me entrego quando quiser” –, as cenas dos juízes de Curitiba fazendo greve de fome e deitando promessas a Deus, ou do empresário Oscar Maroni, dono da boate Bahamas Hotel Club, aparecendo para as câmaras mordendo os seios de uma moça nua da cintura para cima e oferecendo cerveja de graça por conta da prisão de Lula, também me parecem provas suficientes da profunda crise de valores que vivemos. 

    Não sou a favor de corrupção e nem penso que existe uma régua para medir onde ela começa e onde termina. Corrupção é corrupção. Mas também acredito que o processo que se iniciou com o impeachment de Dilma Rousseff tomou a forma de um “golpe dentro da regra”, acabou por destampar a tampa da democracia e acelerou a intolerância. Em vez de um “ministério de notáveis”, conforme prometeu Michel Temer, vimos surgir uma espécie de “confederação de deputados”, cujo único projeto é a manutenção própria no poder. Nesse estreito período vimos serem desmoralizados o Executivo, o Legislativo e agora o Judiciário, onde atuam 11 cabeças distintas e totalmente comprometidas com o processo político. Assistimos também à troca de 29 ministérios que balançaram ao sabor da dança e dos desejos privados do nosso chefe do Executivo, que hoje ostenta a orgulhosa taxa de 6% de popularidade e 70% de rejeição.

    O tempo tem passado ligeiro ultimamente, e o que há três anos julgávamos assegurado – uma democracia com instituições fortes e avanços consideráveis na nossa cartela de direitos – hoje soçobra feito navio sem rumo.   

    O novo esporte nacional parece ser assistir, de camarote, à prisão do político da vez, e acreditar que Justiça é mero exercício punitivo e de privação de liberdade. Além do mais, como no Brasil dos dias de hoje todos nos consideramos experts em “juridiquês”, passamos, numa atitude paradoxal, a desacreditar mas também a avalizar uma clara precedência ao Direito.

    No entanto, é esse mesmo Direito (e me refiro não só ao Judiciário, mas aos valores republicanos que pedem justiça e são de responsabilidade de todos) que tem lotado nossas prisões de negros e pobres. É também ele que vai fazendo do Brasil um país marcado por crimes domésticos, com um desfile de práticas violentas contra mulheres e crianças. Nós mesmo, que saímos em passeata por um país mais justo, temos assistido ao assassinato de uma geração de homens e mulheres negros, em boa parte moradores das periferias das grandes e infladas cidades brasileiras. É a mesma lógica que vai fazendo do país um grande campeão nos índices de estupros, e que prefere jogar para a vítima o ônus da culpa. É essa República que admite a violência contra homossexuais e trans, negando-lhes o direito à sua identidade de gênero e sexo.

    É da lógica da política democrática debater com os adversários. Já tratá-los como demônios, exorcizá-los ou transformá-los em culpados exclusivos é fazer da crise um destino que não nos compete. E, pior, é aliviar a responsabilidade na sombra dos “outros”.

    Momentos de crise são períodos difíceis de conviver e piores de ultrapassar. Mas talvez tenham algo a ensinar, também. Como dizia Geertz “examinar dragões, e não domesticá-los ou abominá-los” é tarefa de todo aquele que pretende não só acusar, mas de alguma maneira entender (e conviver) em sociedade. Falta descobrir como é possível manter os ativismos, mas baixar a guarda das certezas. O mundo não tem por que continuar dividido entre esquerda ou direita, crédulos ou realistas, devotos ou supersticiosos, subjetivos ou objetivos. Em vez de dar ao “outro” o lugar de categoria de acusação, o melhor é usar de um “relativismo controlado” que vai nos ajudar a recuperar as inúmeras vantagens do mundo do E frente àquele do OU.

    O filósofo francês Michel de Montaigne (1533-1592), em seu texto “Os Canibais”, ao comparar a maneira como os Tupinambás e os europeus faziam a guerra, pendeu para os primeiros, e deu um banho de relativismo avant la lettre ao concluir que “bárbaro é aquele que acredita na barbárie”.  Somos um pouco isso, os nossos próprios bárbaros. Ou então, como escreveu José Saramago: “Somos o outro do outro”.

     

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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