Coluna

Sobre saudades e despedidas

    Há um desejo institucionalizado por tornar a população cada vez mais encarcerada de fato e simbolicamente. A epidemia do medo é uma realidade, a gente precisa se proteger e se afastar desse medo que tende a nos paralisar

    Dia desses fui ao cinema com um amigo assistir "Saudade", do Paulo Caldas. Apesar de preferir e gostar mais de filmes que experimentem a linguagem cinematográfica, o modo de filmar, de montar, de contar histórias, não me arrependo de ter visto “Saudade”, ainda que ele não seja  inovador nesse sentido. O filme me ganhou quando eu tive a oportunidade de ver Grada Kilomba e Nguxi dos Santos. Sempre fico com medo dessa saudade branca, desses "sentimentos humanos" sobre os quais somente pessoas brancas podem falar. E em boa parte das vezes é assim: negros, mulheres, indígenas, e outras populações de minoria social são convidados apenas para falarem da dor. Brancos falam do resto. E que bom que o filme de Paulo Caldas conseguiu costurar essa pesquisa de maneira que não mostrasse somente negros, porque não queria parecer racista. Ou mulheres, porque não queria parecer machista. Mas todas as pessoas que falam de saudade no documentário, em sua maioria artistas, têm seus trabalhos relacionados com a saudade. A fala de Grada Kilomba no filme recorta um pouco de uma certa "saudade colonial". Me lembrou a saudade que a elite brasileira tem da ditadura militar e até mesmo da escravidão negra. E é essa saudade que a gente precisa despertar, pois se para alguns isso é uma premissa de algo que está por vir; para outros, isso nunca deixou de existir.

    Dormi na sexta com a notícia de uma intervenção militar. Acordei no sábado, andei pelas ruas do Rio, e esbarrei por diversos tanques de guerra. A repressão é algo rápido, ela não pede licença para existir. Não precisa de decreto nenhum, ela está aí, acontecendo. Antes e depois de qualquer presidente, prefeito, vereador, governador, deputado, senador que passaram ou estão exercendo cargos públicos neste momento. Há um um possível candidato aí que defende execuções, armamentos e outras violências institucionalizadas como forma de resolver o problema da "marginalidade". Esse candidato deixa cada vez mais esclarecido que essa "marginalidade" somos nós: negros, mulheres, quilombolas, indígenas, etc. E há uma população grande que apoia isso, que não é a que sente medo dessa tal saudade, mas é a que vive a realidade da repressão, das execuções, das "balas perdidas", desde sempre, que acredita que só o Exército pode dar fim nesse estado de violência pelo qual o Brasil passa. O Brasil mesmo, porque o Rio de Janeiro parece ser o estado mais violento por conta de uma cobertura midiática imbatível. Mas a realidade é que vivemos num país violento em tantos sentidos que é quase impossível catalogar todos os seus modos.

    No sábado, fui assistir ao desfile das campeãs, no Sambódromo da Marquês de Sapucaí. Na entrada dos portões pares, há uma comunidade popular. O que separa o sambódromo da comunidade é uma viela. De um lado, os portões que dão acesso, nessa época, ao maior espetáculo da terra, como chamam. Do outro, vemos salas, quartos, casas de diversas famílias. Enquanto aguardava a hora para assistir ao desfile, parei no comércio de um dos moradores para tomar um caldo. Havia um pessoal de um partido político de extrema esquerda distribuindo um jornal com um título destacado contra a intervenção militar. Uma senhora negra discutia dizendo que essa era a melhor opção. Seus olhos estavam marejados de saudades daqueles que foram. Dizia ela que havia perdido entes queridos para a Polícia Militar. E que sua última esperança era o Exército. Um rapaz e uma moça que distribuíam o jornal tentavam explicar seu ponto de vista. Aquela foi a primeira vez que aquele pessoal, que não era dali, conversava com a moradora.

    O país é outro e acredito com força que as coisas vão melhorar, com a força das populações brasileiras, com a criatividade e a inovação de quem está na base da pirâmide social

    Ali, assistindo àquela história, da qual depois acabei fazendo parte diretamente, senti uma saudade. Quando eu era pequena, minha avó fazia café para "receber as pessoas da política", como ela chamava. Em Nova Iguaçu, no final dos anos 1990 e início dos 2000, as pessoas que queriam se candidatar iam nas casas das pessoas para conversar, antes de panfletar, antes de estampar verdades absolutas. É urgente que se entenda, de uma vez por todas, que a favela, que comunidades populares não são espaços públicos onde a gente pode fazer o que quiser, panfletando textos que só servirão para entupir os bueiros e gerarem enchentes. É preciso pedir permissão para entrar na casa das pessoas, como em qualquer outro lugar do asfalto. A regra precisa ser a mesma. Isso é básico.

    Dia desses, assisti a uma série de um candidato eleito na Colômbia que ia às ruas conversar com as pessoas, dizer o que ele estava fazendo, que as pessoas sabiam onde ele morava, que o viam de bicicleta pelas ruas. E isso era mostrado como algo inovador, que poderia inspirar o Brasil. Que louco! Isso faz parte da minha infância. Quem fazia a política ia à minha casa falar de suas propostas. Para 2018, é importante que a gente resgate essa tradição se a gente defende a liberdade, se a gente defende uma proposta baseada no respeito. Vivemos num lugar em que não se acredita em mais nada que gire em torno de eleições e gestão pública. Penso que esse trabalho de formiguinha e de ação verdadeira pode contribuir para uma crença maior de que todos nós fazemos política, numa gestão pública em que as pessoas possam participar desde sempre até o final, em projetos essenciais, vitais, que não durem gestões, e sim que sejam encarados e implementados na lógica de direitos fundamentais de qualquer cidadã e cidadão brasileiro. Acho que isso que vai fazer diferença para uma população desacreditada: implementação de direitos, e não propostas com prazo de validade.

    O desfile das escolas de samba mostrou isso. Parte considerável das escolas do Grupo Especial do Rio, as que pude acompanhar, falou de questões que envolvem o país inteiro. Problemas de violência, do boicote ao Carnaval, dos privilégios de uma elite e suas consequências, da geração de mães que enterram seus filhos, da escravidão ainda presente no Brasil, entre tantos outros textos. Há um grito na garganta que tem se libertado aos poucos. O país é outro e acredito com força que as coisas vão melhorar, com a força das populações brasileiras, com a criatividade e a inovação de quem está na base da pirâmide social. Sentiremos saudades deste Carnaval e, com o tempo, saberemos ainda mais profundamente o que ele representou pro nosso país. Acho que o verso "não deixe o samba morrer" ficou ainda mais forte esse ano.

    Fui assistir à apuração na quadra da Paraíso da Tuiuti. Fiquei arrepiada do momento em que cheguei até ir embora. A quadra, muito pequena, sem ostentação de marcas, estava lotada de pessoas da comunidade do Tuiuti, as que não só desfilam durante 1h15 na avenida uma vez por ano, mas as que constroem o Carnaval e não deixam o samba morrer desde que nasceram. A Tuiuti ficou em segundo lugar na classificação final, o que é uma vitória muito simbólica e importante na atual conjuntura política. Demonstra uma força popular gigante e uma consciência política de uma população que é frequentemente subestimada. O desfile da Tuiuti e todo o movimento de uma população que se empretece cada vez mais me parece ser a prática da música de Caetano: a grandeza épica de um povo em formação.

    Ali naquele desfile, vi uma possibilidade de mudança, de outras narrativas e, mais que isso, outras realidades. E melhores para esse povo que segue na luta. Assim, cheia de saudades, aproveito para me despedir de vocês. Esta é a minha última coluna neste espaço. Pensei em escrever sobre muitas das coisas, mas a que fluiu mesmo feito um rio, está aqui, essa levada das saudades e dos perigos que certas saudades podem resultar. E, de tudo, queria fazer uma despedida que nos fortalecesse, a começar de mim. Há um desejo institucionalizado por tornar a população cada vez mais encarcerada de fato e simbolicamente. A epidemia do medo é uma realidade, a gente precisa se proteger e se afastar desse medo que tende a nos paralisar. Não temeremos! A gente já foi capaz de chegar até aqui e podemos avançar com mais força.

    Acho que agora sim entendi o porquê da despedida nos trazer um sentimento de angústia. A despedida escancara os portões da saudade.  

    Foi uma honra ter sido lida durante esse tempo por quem acompanha este jornal que nos mostra que ainda é possível fazer jornalismo, de verdade, no Brasil, que é o que o Nexo faz. Obrigada por vocês terem lido as linhas que escrevi, pelos emails que recebi de carinho e discordâncias. Sinto que me tornei uma pessoa maior com vocês.

    Obrigada, se cuidem e até uma próxima.

     

    Yasmin Thayná é cineasta, diretora e fundadora da Afroflix, curadora da Flupp (Festa Literária das Periferias) e pesquisadora de audiovisual no ITS-Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro). Dirigiu, nos últimos meses, “Kbela, o filme”, uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra, “Batalhas”, sobre a primeira vez que teve um espetáculo de funk no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a série Afrotranscendence. Para segui-la no Twitter: @yasmin_thayna

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