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Coluna

Reflexões do day after na ressaca eleitoral

5 de nov de 2018 (atualizado 05/11/18 às 19h29)

    Bolsonaro também soube assumir o tom dos novos populismos, que vêm se espalhando pela Europa e pela América

    Você já despertou um dia assustado, pensando que era tudo sonho e, quando o despertador tocou, pela segunda vez, se deu conta de que era tudo verdade? Pois aposto que teve muito brasileiro que acordou ressacado como eu depois do segundo turno das eleições, e assim continua.

    E não há aspirina que alivie a dor de cabeça ou Plasil que diminua o enjoo dos pensamentos contraditórios. De um lado, é preciso reconhecer que Jair Messias Bolsonaro foi eleito pelas urnas e pelo voto soberano do povo. Ganhar ou perder, afinal, faz parte do jogo democrático. De outro lado, e levando em conta a performance do presidente eleito durante seus 27 anos como deputado federal, é necessário refletir sobre a qualidade e a experiência de democracia que ele há de propor.

    E se “os inícios” costumam ser suaves, dessa vez o presidente eleito chegou chegando. Foram duas as mensagens que endereçou aos brasileiros; primeiro falou a seus aliados através das mídias sociais, e só depois para a nação. 

    No primeiro discurso, Jair Bolsonaro se mostrou mais relaxado e, com suas frases curtas, cortadas, e repletas de palavras de ordem (todas de imediata compreensão) falou de improviso e de forma muito categórica, mencionando seus temas de predileção: acusou a imprensa e a esquerda. Já no segundo caso, adiou sua manifestação para dar lugar a uma oração (a despeito do Brasil ser um Estado laico), colocou os óculos e pediu licença para ler um texto onde as três palavras mais repetidas foram liberdade, democracia e constituição.

    Nada mais simbólico do que esses dois discursos, como se correspondessem às duas faces de Jano, cada uma olhando para uma direção oposta: uma acena para o populismo autoritário, a outra para um projeto democrático. Em comum, as duas aparições guardaram o mesmo tom ligeiramente elevado que o presidente eleito costuma usar, e que lembra uma espécie de admoestação. Bolsonaro soava como um pai que falava à sua família, acariciando os filhos aliados e ameaçando aqueles mais revoltos. Além do mais, ao evocar Deus, tantas vezes, fazia sua preleção soar como uma dádiva; quase uma predestinação muito além dos homens e de seus valores mesquinhos.

    Mas as consequências não demoraram a surgir. Carros com militares (ou civis vestidos de militares) sendo aplaudidos nas avenidas de cidades, ameaças a professores considerados “doutrinadores”, fotos com simpatizantes do PSL mostrando, ostensivamente, todo tipo de armas, e fazendo provocações nas ruas e, sobretudo, nas redes sociais.

    Passando em revista esses cenários, foi impossível deixar de avaliar minha própria incapacidade, e de muitos brasileiros, que demoraram para levar a sério o fenômeno Jair Bolsonaro. Não é a primeira vez que ele pensa em se eleger para presidente; em 2014, quando ainda era filiado ao PP (Partido Progressista), anunciou que queria fazê-lo, mas avaliou melhor as chances, preferiu lançar-se novamente como deputado e se reelegeu. Depois disso, passou meteoricamente pelo PSC (Partido Social Cristão), onde permaneceu por apenas um ano, ingressando então, em 2018, no PSL. Sua trajetória partidária não é sólida, mas impressiona como, usando um partido de empréstimo, o então deputado federal fez de seu projeto uma realidade. A despeito do grande número de votos em branco (2,14%), nulos (7,43%) e abstenções a 21,3%, o candidato eleito ganhou com uma confortável margem de folga (55,13% dos votos válidos sobre os 44,87% de Haddad), tendo recebido 57,7 milhões de votos.

    Se é grande o número de eleitores que confirmou, no dia 28 de outubro de 2018, a grande rejeição que pairava sobre os dois candidatos a presidente no segundo turno – com os votos nulos, brancos e abstenções chegando a 30,87% –, é urgente entender o que aconteceu e o que explica a vitória de Bolsonaro. O que será que ocorreu para que o capital político dos partidos de centro esquerda e de esquerda, acumulado durante 30 anos, deixasse de ser majoritário nesses meses de campanha? Com certeza não se pode caricaturar a resposta e achar que existe só um tipo de eleitor do PSL (ou apenas um tipo de eleitor do PT), ainda mais no segundo turno e com tanto voto útil. Os motivos de um lado e de outro são com certeza variados. Mas um deles era comum a todos que encontraram no Partido dos Trabalhadores o maior inimigo do país.

    Não há cartilha que dê conta de explicar o presente, mas vou arriscar os meus pitacos para tentar entender essa virada. O primeiro deles talvez esteja ligado ao fato de que as duas maiores forças democráticas que surgiram depois da ditadura militar, e que quase monopolizaram o cargo máximo do Executivo durante 30 anos, o PSDB e o PT, optaram, mais uma vez, por não se unir ou trabalhar como uma frente suprapartidária. O mesmo ocorreu com a Rede de Marina Silva e com o PDT de Ciro Gomes. Ou seja, se existiam razões para não apoiar a política pregressa do PT, esses políticos preferiram não negociar, achando que era melhor se manterem fiéis a seus partidos e convicções, do que ao seu país.

    Vivemos mesmo em tempos de cólera e num contexto em que a democracia não vacina ou impede a convivência com governos reacionários

    Papel especial cumpriu a Operação Lava Jato, que em meio à justa atuação no sentido de punir corruptos e corruptores, acabou por jogar o bebê com a água do banho: desmoralizou os políticos e seus partidos, e as instituições também. Em meio a esse tsunami, toda a nossa vida pública pareceu descer ladeira abaixo.

    A vitória também pode ser explicada por causa de Jair Bolsonaro ter se definido, durante toda a sua campanha, como um antipetista radical, e a melhor pessoa para combatê-lo. O líder do PSL capturou o sentimento difuso de ódio que percorria a sociedade brasileira, desde as manifestações de 2013, e que se acirrou durante o processo de impeachment da presidente Dilma, cujo governo desorganizou, de vez, a economia brasileira e gerou uma forte recessão. Foi assim que o ex-deputado federal surfou no descrédito que recaiu sobre ela, e sobre toda a política brasileira.

    Bolsonaro também soube assumir o tom dos novos populismos, que vêm se espalhando pela Europa e pela América. A nova voga implica personalizar essas figuras públicas, que se apresentam como líderes fortes e decididos, que falam em nome do povo, desfazendo das minorias sociais, desconfiando da imprensa e das demais instituições. Foi assim que Bolsonaro construiu sua imagem de “mito” e de “líder supremo” – como é chamado por seus seguidores –; termos em tudo avessos ao contrato democrático que deve prevalecer nas relações entre o líder maior do Executivo e seus cidadãos. Na democracia nunca se “delega poder”, se luta sempre por ele.

    Além do mais, desde o casamento com Michelle Bolsonaro em 2007, Bolsonaro chamou para si os votos da igreja evangélica, a qual, segundo o último censo do IBGE, de 2010, mostra um notável crescimento: o número de cristãos evangélicos no país subiu 61% em 10 anos. Juntos, eles advogam os valores defendidos pelo presidente eleito, como a manutenção da “família tradicional”, caracterizada pelas relações heteronormativas, e o respeito aos valores da hierarquia, e da boa ordem. 

    E se havia quem esperasse que as falas de campanha seriam um pouco nuançadas no momento em que Bolsonaro estivesse tranquilo com sua vitória, já as primeiras entrevistas na TV mostraram o oposto. Ele manteve o tom de ameaça, e, sobretudo na entrevista à Globo, com um ar seco, fez todo tipo de bravata. Começou pisando fundo: "- Primeiro quero dizer a eles que chega de mentira chega de fake news". Fazendo uma lógica do “eles contra nós”, insistiu na polarização em vez de, como estadista, acenar para o consenso. Não contente, tornou a mencionar outro tema recorrente em sua campanha,  o “kit gay" que nunca foi produzido, muito menos distribuído por Haddad, enquanto ministro da Educação e que até mesmo o inseguro Tribunal Superior Eleitoral, na pessoa do ministro Luiz Felipe Salomão, em decisão de outubro desse ano, considerou como mentiroso e desautorizou sua veiculação. Na mesma entrevista, a despeito de afirmar que iria respeitar a imprensa livre, voltou a atacar o jornal Folha de São Paulo, chamando-o de criador de fake news:  "Não quero que ela [Folha de S.Paulo] acabe, mas, no que depender de mim na propaganda oficial do governo, empresa que se comportar dessa maneira, mentindo descaradamente não terá apoio do governo federal". E completou”: “Por si só esse jornal se acabou". A declaração deixa muito claro como Jair Bolsonaro pretende premiar os que seguem suas opiniões e punir aqueles que praticam um jornalismo mais autônomo, que apura os fatos e não tem medo de publicá-los. 

    Vivemos mesmo em tempos de cólera e num contexto em que a democracia não vacina ou impede a convivência com governos reacionários. Como afirmou o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, em entrevista recente, “é bom informar o público que um governo reacionário é uma possibilidade democrática”.  As democracias estão sendo corroídas pelas próprias leis democráticas, as quais, por causa de sua tolerância interpretativa, e da forma como são aplicadas, abrem espaço para se governar de forma autocrática. Ou seja, é possível usar das leis que estão no código penal e presentes na Constituição de 1988, mas lê-las de forma violenta e contrária a uma série de direitos que julgávamos, enganosamente, assegurados.

    Enfim, esses podem não ser todos os motivos que explicam a ascensão e vitória do novo presidente; aliás, tenho certeza que existem muitos outros. De toda maneira, feita a lição de casa, ainda não consigo explicar minha segunda inquietação. Por que será que os políticos que defendiam um projeto oposto ao do PSL mantiveram a velha e boa soberba, e não formaram uma frente suprapartidária a tempo de impedir um mal maior?

    Políticos têm razões que a própria razão desconhece, mas, nesse caso, o que me comoveu, pra valer, foi ver a sociedade civil se movimentar. Manifestos, cartas, declarações individuais de voto, o corpo a corpo com o eleitor ainda indeciso, um livro para levar na hora de votar, flores para os amigos (...) o certo é que uma série de movimentos independentes fizeram com que os cidadãos incrédulos e incautos se sentissem mais vivos e felizes.  Perderam os políticos, ganharam os amigos e colegas.

    Por isso, mesmo com o perigo de parecer Poliana, acredito que no período entre o primeiro e o segundo turno, a sociedade civil brasileira deu mostras de que sabe se organizar e lutar por seus direitos. As mulheres não vão voltar para detrás do fogão, os negros e negras que completaram o ensino superior e hoje se encontram em lugares de liderança não vão recuar de suas posições,  as populações LGBTS vão continuar a andar de braços dados pelas ruas. Afinal, direitos nunca vieram ou se mantiveram de graça. Eles fazem parte de um processo de luta que é não só contínua como constante. Foi Guimarães Rosa, em “Grande Sertão Veredas”, quem me contou que “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.

     

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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