Ir direto ao conteúdo
Coluna

Qual é a sua pergunta para 2018?

    Este ano é decisivo para o futuro do Brasil. E sobram dúvidas em meio à implosão das velhas práticas políticas que vigoram há, pelo menos, três décadas

    Réveillon é uma daquelas festas para as quais o brasileiro se programa, poupa dinheiro — gasta muito — e festeja como poucos. Cada ano é recebido com promessas e planos, muitas vezes diferentes dos anos anteriores, e dos que virão.

    O brasileiro é um povo que vive do curto-prazo. A festança no Réveillon combina bem com tudo isso.

    Mas o final de cada ano é também um momento de olhar pra trás, reavaliar o que passou, ajustar as expectativas e os planos e tomar fôlego para o ano que se inicia.

    Este fim de ano passei com minha esposa e minha filha meio reclusos. Fiquei o dia todo cozinhando, coisa que gosto de fazer. Na casa em que estávamos, que é bem antiga, havia uma lareira na cozinha. Em vez do fogão, aproveitei a brasa da lareira para cozinhar.

    Cozinhar com fogo direto, natural, é primoroso. A madeira seca queimada deixa um gosto inigualável na comida. Talvez seja um viés de quem foi criado comendo feijão feito no fogão à lenha, mas acho que não estou forçando a barra. Além disso, o fogo direto, como na churrasqueira, queima a gordura e dá crocância ao alimento.

    Ao final, cozinhei nove pequenos pratos para minha esposa e para mim. Cada um com um tipo de gosto, feitos com ingredientes da estação e locais. Cada um, cuidadosamente montado, remetia-me a alguma pessoa especial ou história da vida. Aprendi na cozinha que uma refeição pode ser um longo depoimento.

    Esse foi o melhor jeito que encontramos para encerrar 2017, mais um ano marcado por cenas surreais na política brasileira, além dos problemas cotidianos que enfrentamos e precisamos criar soluções para resolvê-los. 

    O segredo da cozinha é aproveitar da melhor forma possível os meios e os ingredientes disponíveis. Testar combinações e temperos. Abusar da criatividade, mas ter a capacidade de planejar e operacionalizar bem aquilo que você se dispõe a fazer, mesmo as coisas mais simples.

    Quando você coloca uma berinjela diretamente na brasa, deixa-a por quase uma hora, é possível pensar que está tudo perdido. Ao abri-la, verá que dentro dela há um cozimento perfeito e sabor único.

    Cozinhar dá esperanças, pois há muitas formas de potencializar os sabores, os odores, o tato e construir pratos para uma refeição. Talvez seja por isso que tenha me embrenhado na cozinha no dia da passagem de ano.

    Não acho que esse tipo de programa — um pouco introspectivo ou contemplativo para o Ano Novo, talvez — seja muito estranho para quem está entrando em 2018, um ano eleitoral seguido de três anos de profunda crise política, econômica e social.

    2018 será um ano decisivo para o futuro do Brasil. No meio da implosão das velhas práticas políticas que vigoram há, pelo menos, três décadas, quem será o próximo presidente da República? Quem ocupará as cadeiras do Congresso Nacional? Haverá renovação na política de fato? Debateremos uma agenda para desenvolver o Brasil ou nos renderemos ao populismo de esquerda ou de direita? Haverá espaço para algum pretenso salvador da Pátria? Ou um estadista será forjado na crise?

    Como muitos brasileiros, entro em 2018 com muito mais perguntas e angústias do que com certezas. Inevitavelmente, teremos que viver as perguntas para saber o cheiro de qualquer resposta.

    Tenho a sensação que estamos todos num desses programas de chefs de cozinha que passam na TV. Todos os ingredientes estão dados, os problemas e as ferramentas também. Resta usarmos a criatividade para fazer o trabalho logo e bem feito, pois o tempo já está contando, e passa rápido. A grande diferença aqui é que o resultado não depende de um chef, mas de todos os cidadãos.

    O Brasil será capaz de construir uma alternativa promissora e democrática à atual crise até o próximo Réveillon?

    Se tiver que escolher uma, essa é a pergunta que viverei ao longo de 2018. Qual é a sua?

    Humberto Laudares é especialista em políticas públicas e desenvolvimento. É Ph.D em Economia pelo Graduate Institute, em Genebra (Suíça), e mestre pela Universidade Columbia (Estados Unidos). Fez Ciências Sociais na USP e Administração na FGV de São Paulo. Trabalhou com políticas públicas em governos, no parlamento e em organismos internacionais. Para acompanhar sua página no Facebook: www.facebook.com/laudares

    Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!