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Coluna

Por que temos poucos memoriais de abolição da escravidão?

    Lembrar é uma forma de não deixar esquecer. O Brasil foi destino de mais de 40% de africanos e africanas por aqui escravizados, e precisa cuidar, de maneira crítica, da sua memória

    Bem no meio da pacata cidade de Nantes, na França, uma calçada reluz estranhamente ao sol. São centenas de pequenas placas retangulares, feitas de um vidro translúcido e de cor azul celeste, espalhadas por uma via onde passam mães levando seus carrinhos de bebê, rapazes andando de bicicleta, moços e moças fazendo jogging, senhores e senhoras apressados a caminho do trabalho.

     

    Somente apurando bem os olhos é possível notar que há sempre um título gravado por debaixo desses delicados sinais brilhantes, dispostos simetricamente ao chão. Le Saint Jean Baptiste, Le Juste, L’Union, La Valeur, La Felicité, Le Bien Aimée e Brésil, são alguns dos muitos nomes de navios negreiros que, desde o século 16 e até o final do 19, partiram do porto de Nantes ou lá aportaram. Os apelidos dados aos barcos parecem denotar uma certa culpa, tamanha a desproporção entre eles e a tarefa que buscavam descrever.

     

    Essas eram embarcações que transportavam de tudo um pouco: tecidos, produtos agrícolas, azulejos, minérios, especiarias, mas, acima de tudo, pessoas. Eles eram tumbeiros, navios negreiros que faziam o comércio de almas no contexto moderno, quando o mundo ocidental reinventou uma nova escravidão; uma escravidão mercantil. Os navios vinham e voltavam cheios de “mercadorias”. Não havia espaço ocioso ou lugar nas embarcações que deixassem de auferir lucro: de uma ponta saíam produtos agrícolas, de outra, metais preciosos, de outra, ainda, africanos e africanas transformados em valiosos objetos de comércio.

    Foram recenseadas mais de 27.233 expedições marítimas que partiram de portos europeus durante esses quatro longos séculos em que perdurou o sistema escravocrata. No total, mais de 12 milhões e meio de mulheres, homens e crianças foram arrancadas à força da África e deportados para as Américas e para o Caribe. Mais de um milhão e meio dessas pessoas morreram durante a travessia. Só de Nantes saíram em torno de 1.800 expedições negreiras, tendo elas apresado mais 550 mil africanos e africanas. 

    Os números são fortes, definitivos, e explicam o motivo da criação, em Nantes, de um impressionante “Memorial da abolição da escravidão”, inaugurado no dia 25 de março de 2012. A edificação é discreta e ao mesmo tempo tocante. Na verdade, é preciso conhecer o lugar, ou ser previamente informado, para saber que na cidade existe um memorial e, ademais, um museu basicamente dedicado ao tema.

     

    Andar por aquela estranha calçada, agachar para ler os nomes dos navios, observar as datas em que cada uma destas embarcações circulou, olhar para o mesmo mar, acaba sendo um exercício muito doloroso. Difícil sair de lá da mesma maneira como se chegou. É impossível deixar de anotar a inacreditável quantidade de naus dedicadas a esse comércio de almas, que gerou a maior diáspora desde a época romana. Mais difícil ainda é tentar visualizar a maneira como se “armazenavam” os bens importados, sem discriminação de pessoas ou produtos. Esse talvez seja o motivo do memorial continuar numa espécie de subsolo, onde se encontra uma cronologia da escravidão e uma série de frases retiradas de textos de ativistas, literatos e filósofos que lutaram pela abolição desse sistema.

    Não por coincidência, descendo-se as escadas, a impressão que se tem é de adentrar o porão de um desses navios, ao nível e com o som do mar.

     

    Nas paredes, algumas palavras gravadas no concreto e na madeira aparecem distribuídas aqui e acolá, como se tivessem sido lá deixadas pelos próprios cativos e cativas. “Libertad” é uma delas. Afinal, ninguém nasce escravo ou é escravo para sempre. A utopia da liberdade fez sempre parte do vocabulário desses homens e mulheres, que nem ao menos sabiam para onde iam, ou se suas almas sobreviveriam à travessia numa terra desconhecida.

     

    Além dos termos isolados, uma série de escritos, soltos e impressos nas paredes, lembram os tantos rabiscos, desenhos e frases que foram encontrados nos locais onde antes existiam mercados de escravizados: no Brasil, no Sul dos EUA, em Cuba, na Jamaica, no Haiti e assim por diante. Ou seja, em todos os portos deste amplo eixo afro-atlântico, criado por causa da escravidão mercantil da era que se quis chamar e ficou conhecida como “moderna”.

    O cenário me recordou uma famosa gravura de Johan Moritz Rugendas (1802-1858), artista que esteve por aqui entre 1822 a 1825, pintando a flora e a fauna brasileiras, mas também as populações que encontrou.

     

    Formado na arte do desenho pela Academia de Belas Artes de Munique, este artista viajante retratou com muita frequência as populações escravizadas que conheceu no Brasil. Mostrou práticas como o batuque e a capoeira, descreveu ofícios, adereços e roupas, e por duas vezes se dedicou a representar os locais em que se vendiam escravos. Nesta gravura, em especial, ele caracteriza um mercado negreiro, e procura “naturalizar”, ou passar um ar ordeiro e leve, a uma circunstância que era comumente descrita pelas testemunhas como dantesca. Até a imagem de uma santa é colocada ao alto e bem no centro da gravura, conferindo um ar de elevação a uma atividade por demais terrena.

    Em contraposição a essa representação visual que emana tranquilidade, sabemos que o que imperava nestes locais era o oposto: a carência total e a violência extrema. Tanto que ao lado desses empreendimentos não raro havia um cemitério, para aqueles que não sobrevivessem tamanha carência. Faltava de tudo: água, comida, roupa e sobretudo respeito. A “mercadoria” era por lá maquiada (para que se escondessem as marcas da longa e extenuante viagem), tinha seu corpo encerado e limpo, os dentes tratados.  Segundo Maria Graham, que esteve no Valongo – o maior entreposto de escravizados das Américas e que ficava próximo do Paço Imperial –o cenário era feito do mais profundo horror: ouviam-se gritos, sussurros e lamentos constantes.

    Fico me perguntando, no entanto, se esquecer ou descuidar não são maneiras de dar espaço à incredulidade e de construir o pouco caso diante de uma realidade tão brutal e tão presente em nossa história nacional contemporânea

    Já Rugendas buscou dar ao local um ar de calmaria, com os africanos e africanas deitados, descansando, ou conversando livremente em torno da comida. Chama atenção, porém, um pequeno detalhe. Do lado esquerdo da gravura, um escravizado é representado desenhando nas paredes do local e sendo observado pelos demais, que o circundam. Não há como saber o que ele escrevia ou pintava. Todavia, como “Deus mora nos detalhes”, é possível intuir que esse era seu pequeno (e imenso) momento de liberdade; de uso da imaginação e do exercício da própria subjetividade criativa, sempre presente até mesmo em situações extremas.

    Pois bem, cenas como essas; palavras, desenhos e mensagens deixadas nas paredes de prisões ou destes verdadeiros mercados de almas, comprovam como só se pode definir situações de cativeiro humano se não se esquecer da boa utopia da liberdade. Aliás, em nenhum momento, e enquanto durou esse sistema de trabalhos forçados, escravizados e escravizadas deixaram de lutar por sua emancipação.

    Saí do memorial refletindo sobre o nosso desconhecimento acerca dessa longa e larga história afro-atlântica, que separou e uniu a África, as Américas e o Caribe. É como se o silêncio que pairou por sobre esse período, durante tanto tempo, não nos permitisse entender como circularam pelo Atlântico, pessoas, mas também ideias, saberes, culinárias, indumentárias, filosofias, religiões, desenhos e tramas. Impressiona, ainda mais, lembrar de como são poucos os monumentos desse tipo. Isto é, memoriais feitos não para celebrar, mas para impedir o esquecimento. Nós, brasileiros, por exemplo, que fomos a última nação a abolir a escravidão mercantil, que recebemos mais de 40% dos africanos que deixaram compulsoriamente suas nações, que tivemos escravizados de Norte a Sul do país, não temos nada parecido.

    Susan Sontag, em seu livro chamado “Diante da dor dos outros”, se pergunta sobre o que a representação da crueldade provoca em nós. Estamos insensíveis diante do bombardeio de imagens que recebemos cotidianamente? A memória visual deve guardar a representação da dor e da catástrofe? 

    Memória e história nem sempre andam juntas. Afinal, muitas vezes, quando é difícil lembrar, o melhor caminho parece ser ignorar. Fico me perguntando, no entanto, se esquecer ou descuidar não são maneiras de dar espaço à incredulidade e de construir o pouco caso diante de uma realidade tão brutal e tão presente em nossa história nacional contemporânea.

    Em maio de 2018 faremos 130 anos de abolição da escravidão mercantil no Brasil. Que a data vire cicatriz. Como escreveu Caio Fernando Abreu: “Menos pela cicatriz deixada, uma ferida antiga mede-se mais exatamente pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer, embora lateje louca nos dias de chuva”.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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