Coluna

Pensar a tecnologia além das universalidades

    Eu achava que para falar de coisas como programação e dados precisaria de um decodificador. Que tecnologia era algo assustador e inacessível. Silvana Bahia e Hugo Lima me mostraram que eu estava enganada.

    A tecnologia hoje atravessa as nossas vidas de maneiras distintas. A relação que estabelecemos com os meios de comunicação, desde a criação da imprensa, mudou nossos hábitos culturais. Se antes uma receita de família era passada oralmente, hoje criam-se canais no YouTube para facilitar os preparos. Sabíamos de notícias do mundo sempre com um dia de atraso. Agora, tudo nos chega no mesmo instante em que acontece. Talvez esse seja o lugar mais comum para se pensar tecnologia. Mas aí eu, que sou uma pessoa que não falo desse lugar de quem pensa a tecnologia de maneira sistêmica e constante, fui laçada por duas grandes pessoas que conseguem articular ideias nesse campo de maneira brilhante: Silvana Bahia e Hugo Lima.

    Neste momento estou fora do país e todas as vezes que falo que sou do Brasil, as pessoas comemoram: todo mundo sabe onde fica o Brasil, boa parte das pessoas expressam alegria e amor quando dizemos “I’m from Brazil”, ainda que elas nunca tenham estado por lá. E quando digo  ser do Rio de Janeiro, isso se intensifica ainda mais: o carnaval, o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor, as praias, os Arcos da Lapa são celebrados de forma icônica. Ainda que tenhamos muitas questões políticas, vivemos num território querido por muita gente. Talvez essa seja uma discussão interessante para uma próxima coluna.

    Silvana e Hugo são nascidos e criados nesse Rio de Janeiro querido e adorado. E bem mais profundo, se posso assim referenciar. Silvana Bahia sempre viveu no bairro mais boêmio da cidade, a Lapa. Hoje ela é alvo da especulação imobiliária, gourmetização dos bares, é  um point de encontro de vários grupos sociais. Mas Silvana é cria de uma Lapa periférica, sem condomínios de luxo e que, no passado, não era  um point de encontro de alguns grupos da classe média da cidade, como é hoje.

    Em 2017, a Silvana lançou o projeto Preta Lab por meio do Olabi, uma instituição focada em pensar a tecnologia dentro de outras lógicas sociais e econômicas, onde ela é diretora. E foi em 2016 que Silvana identificou a importância de se ter um espaço de tecnologia onde mulheres negras pudessem experimentar seus fazeres. Depois de ter circulado dentro dos espaços em que se discutia tecnologia, ela percebeu que quase não encontrava mulheres negras. E assim, ela sistematizou o criou o Preta, que acredita que no momento em que meninas e mulheres negras e indígenas puderem protagonizar os campos de inovação e tecnologia, as desigualdades sociais podem ser reduzidas consideravelmente. Como ação, no primeiro momento, o projeto está fazendo um levantamento para coletar dados e histórias de mulheres negras que pensam tecnologia.

     No segundo semestre de 2017, a série Preta Lab, que tive o prazer de dirigir e roteirizar, foi lançada. Nela, dez mulheres negras de diversas origens, realidades sociais e atuações no campo das tecnologias contam suas experiências e trazem inúmeras noções completamente diferentes daquilo que estamos acostumados a pensar. Vitória Lourenço pensa dados e maternidade, Glória Celeste faz uma conexão entre as linguagens de programação e a poesia, Viviane Rodrigues identifica as relações ancestrais presentes nas lógicas tecnológicas, Maria Rita pensa que mulheres negras precisam construir a internet, Fernanda Lira Monteiro traz outras noções do conceito de hacking. No canal do Olabi no YouTube é possível assistir a todos os episódios.

    Para além de todas as mentes que Preta Lab consegue mobilizar, o que mais me agrada e me faz ver que esse é um trabalho que de fato dialoga com qualquer pessoa é a forma como se pensa a tecnologia. Durante as entrevistas, ouvi delas exemplos que iam da feitura do fogo até a receita de mel com limão e gengibre para curar resfriado. É assim que elas pensam a tecnologia. Lembro que na pesquisa antes de realizar as entrevistas, achei que em algumas partes eu precisaria de um decodificador para entender certas coisas que elas criam com programação e outros conhecimentos avançados. E durante as gravações, elas subverteram a ideia de conhecimento avançado e programação, trazendo tudo para a vida, para a experiência da periferia e do próprio modo como um país da América Latina, como o Brasil, cria soluções na “gambiarra” que podem ajudar o mundo inteiro a lidar com certos desafios.

    E eu, que antes achava que tecnologia era aquilo que a série “Black Mirror” mostrava, e me assustava profundamente a cada episódio, pude entender ao mergulhar na ideia que o projeto Preta Lab traz de que tecnologia é muito mais pensamento e soluções para resolver problemas coletivos do que o software em si. E entre todos os perigos que ela envolve, de todo o impacto positivo ou negativo que ela pode causar no futuro, tudo isso parte da nossa própria experiência humana e de como a gente pensa e aplica nossos repertórios para um monte de gente. E é claro que isso tem limitação.

    O Hugo Lima, que é de um Rio de Janeiro ainda mais periférico, e mais longe ainda dos clássicos cartões postais, logo ali na zona oeste do Rio, em Vila Valqueire, pensa seus produtos a partir de uma limitação imposta pela indústria. Hugo estudou eletrônica, atua no campo desde novo e hoje estuda engenharia. Em 2013, ele e sua companheira foram atuantes nas manifestações. Com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça, eles foram às ruas registrar as passeatas. Antes de sair de casa, Hugo, que já flertava com cinema, queria filmar com uma qualidade melhor, captando som direto em um microfone externo de sua câmera. E isso o levou a pensar que precisaria de alguns suportes: um para colocar o microfone em cima da câmera, outro para estabilizar a câmera, já que manifestação normalmente é um acontecimento que envolve bastante adrenalina, e também algo que pudesse sustentar o gravador de áudio perto de seu campo de visão. Além desses suportes, pensou também em reduzir ruídos e equalizar o som. Assim, Hugo criou uma pequena peça para sustentar o microfone em cima da câmera, um rig de cano PVC para estabilizar as imagens, um cinto para prender o gravador de áudio de modo que ele pudesse ver o que estava acontecendo e um regulador de áudio feito com pote de tintura de cabelo.

    E foi a partir desse episódio em que ele identificou necessidades próprias que poderiam servir para mais gente que ele decidiu criar, vender e ensinar a construção de equipamentos para cinema/audiovisual, feitos de cano PVC e impressão 3D.

    Dia desses, desci para a Vila Valqueire e fui até a casa de Hugo conhecer o espaço em que ele constrói os equipamentos, que é dentro da sua própria casa num quarto que se divide entre a quentura da máquina de impressão 3D, fios pendurados por todo lado, multímetros e livros de cinema. Com muito pouco, Hugo constrói equipamentos da indústria cinematográfica que são caríssimos, como rig com follow focus automático, steady cam, slider, entre outras coisas.

    Lembro que conheci o Hugo  vendo seu filme, o “Siyanda”, que funda um coletivo de audiovisual para pensar corpos e histórias negras no cinema. E esse foi o primeiro filme gravado com uso dos equipamentos que o próprio Hugo criou.

     

    Muito além do barateamento desses equipamentos e da capacidade que Hugo teve de construir e ensinar a fazê-los, o que mais me fascinou foi ter ouvido suas motivações, que partem da limitação que essas tecnologias impõem. Na conversa, perguntei a ele o porquê de os equipamentos serem todos coloridos, parecendo brinquedo. E ele respondeu que um rig preto e fosco na mão de um garoto negro pode ser confundido com uma arma, podendo levar a sua morte. Para reduzir esse risco, ele começou a personalizar os equipamentos de modo que eles ficassem cada vez mais parecidos com brinquedo. E no Brasil temos vários exemplos de objetos como guarda-chuva, furadeira e macaco hidráulico que, ao serem confundidos com armas, levaram pessoas à morte.

    Há uma tendência da indústria, e do próprio modo como nós em sociedade pensamos as coisas, de entender que é mais importante pensar as máquinas do que pensar as especificidades diversas do indivíduo.  O que quero dizer é que esse pensamento de igualdade e de quem pensa seu público alvo dificilmente consegue questionar as relações raciais existentes e as especificidades que esse consumidor final pode vir a ter. Ou seja: pensar um equipamento  rotulando-o como “universal”, ou seja, para todo mundo, como a furadeira, por exemplo, é muito mais importante e viável do que pensar que essa furadeira coloca a vida de algumas pessoas em risco.

     E esses questionamentos no momento em que se constrói tecnologia não acontecem porque a indústria é branca, masculina e com base econômica completamente distanciada de algumas realidades. Antes da construção desses equipamentos, existe uma pesquisa e uma definição de público alvo, ou seja, na própria projeção de qualquer coisa em escala industrial, já se supõe que aquilo é para determinadas pessoas. Então um rig, por exemplo, quando é projetado, ele é para operadores de câmera e ponto. E nesse projeto, dificilmente há um questionamento se esse operador de câmera, se esse diretor de fotografia, se esse cineasta, pode ser um homem negro vivendo numa realidade racista onde os fuzis estão prontos para atirarem em sua direção a qualquer momento.

    Penso mesmo que, muito além da gente se espantar com os episódios de “Black Mirror”, se ofender com todo e qualquer debate que traga a discussão de raça e gênero para toda a estrutura da nossa sociedade, e achar que essa é uma discussão apenas de grupos específicos, devemos estar atentos cada vez mais ao modo como colocamos as coisas no mundo. A universalidade é inexistente. O que nos resta é pensar em outros corpos, outras realidades que possam operar no pensamento, no uso daquilo que empreendemos e do que conseguimos influenciar. Ou então ficaremos todos na praia sem qualquer chance de resgate.

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    Dicas da Yasmin

    Para participar: Apresentação Dados Inéditos sobre Diversidade de Gênero e Raça, dia 25 de janeiro, no Rio.

    Para conversar: roda com fotógrafos negros, dia 27 de janeiro, na Gamboa.

    Para manifestar: piscinaço na porta da redação do Jornal Meia Hora, dia 28, no Centro do Rio.

    Maracujá com gengibre e mel é bonzão.

     

     

    Yasmin Thayná é cineasta, diretora e fundadora da Afroflix, curadora da Flupp (Festa Literária das Periferias) e pesquisadora de audiovisual no ITS-Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro). Dirigiu, nos últimos meses, “Kbela, o filme”, uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra, “Batalhas”, sobre a primeira vez que teve um espetáculo de funk no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a série Afrotranscendence. Para segui-la no Twitter: @yasmin_thayna

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