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Coluna

Os defensores de bandidos

    Todos os pré-candidatos à Presidência da República recriminaram a execução de Marielle Franco. Menos um

    Acho que posso dizer, sem nenhum medo de estar cometendo uma injustiça, que Jair Bolsonaro é defensor de bandido.

    Outro dia mesmo saiu em defesa apaixonada de um criminoso condenado, acusado de matar mais de 60, de espancar mulher grávida, de eletrocutar adolescente, de levar criança para ver a mãe apanhar. Qualquer militar honrado sabe que Brilhante Ustra, a maior das excrescências da ditadura, é uma vergonha para as Forças Armadas – um mané que desrespeitou as regras mais básicas da conduta militar. Um bandido, sem tirar nem pôr. Mas um bandido inimigo dos inimigos de Bolsonaro. Por isso, ganhou dele o título de “herói brasileiro”.

    Este mês, bandidos mataram a tiros a vereadora Marielle Franco, num crime que chocou o país e estremeceu a democracia. Todos os pré-candidatos a presidente unanimemente condenaram o crime. Com uma exceção. Bolsonaro recusou-se a lamentar – disse que sua opinião sobre o crime seria “polêmica demais” e que preferia se calar. Deu a entender que, podendo escolher se se colocava ao lado da cidadã decente perfurada por balas ou do criminoso covarde que as disparou, preferia ficar do lado de trás da pistola com silenciador. Defendeu bandido, de novo.

    Surpresa nenhuma aí. Bolsonaro mesmo é suspeito de ter cometido crimes chocantes. Antes de começar a carreira política, meteu-se num rolo, exposto em detalhes pela revista Veja, e acabou investigado por planejar explodir bombas dentro de quartéis para conseguir aumento de salário – bandidagem da grossa, que, num país com leis mais rigorosas e mais respeito por elas, poderia terminar em condenação por terrorismo e traição, dois dos piores crimes imagináveis. Acabou largando o Exército e escapando da condenação, por falta de provas.

    Claro que Bolsonaro não defende qualquer bandido – para uns, ele deseja a execução, mesmo que por fora da lei. Ele deixa isso bem claro quando repete Brasil afora que “soldado meu que vai para o combate não senta no banco dos réus”, uma de suas frases preferidas. Significa dizer que ele acredita que qualquer policial, mesmo que ganhe dinheiro por fora, mesmo que se aproveite do distintivo para eliminar inimigos pessoais, mesmo que esteja a serviço de políticos corruptos ou de mafiosos infiltrados no Estado, mesmo que mate crianças sem justificativa alguma, jamais será sequer julgado. Que ele deve estar acima da lei. Enfim, que certos bandidos devem ser defendidos.

    Também é importante dizer que os defensores de bandido não estão de um lado só do espectro ideológico – há deles em quase todos os partidos, da direita à esquerda.

    A polícia brasileira tem problemas estruturais sérios. Policiais são mal pagos, mal treinados, a coordenação entre as várias polícias e a justiça é caótica, a capacidade de investigação é mínima, e até por isso quase nunca criminosos violentos são presos. Há também uma infiltração preocupante de bandidos: um número exageradamente grande de policiais corruptos, violentos e desrespeitosos da lei, cujos crimes são frequentemente acobertados.

    Claro que há também milhares e milhares de bons policiais que colocam suas vidas em risco todos os dias na crença de que estão ajudando a proteger os brasileiros. Tente imaginar o pesadelo que é para um policial honesto e bem intencionado trabalhar numa instituição com problemas tão sérios. Para eles, a existência de tanto bandido dentro da polícia significa um enorme risco de vida. O excesso de violência policial alimenta um ciclo infinito de vinganças que acaba matando mais policiais do que em qualquer outro lugar do mundo. Além disso, calcule o risco de ter que ir para a rua tendo às costas colegas que são assassinos armados (Marielle, aliás, trabalhando na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, defendeu a família e a memória de policiais assassinados por colegas).

    Seria ótimo se houvesse nos cargos políticos chave do país gente corajosa disposta a reformar a polícia, melhorando as condições de trabalho e tentando dar solução ao caos institucional, com transparência e respeito a lei. Alguém assim certamente seria uma ameaça para os bandidos. Não é o caso de Bolsonaro.

    É bom que se diga que defender bandido não é exclusividade de Bolsonaro – é um mal disseminado na classe política brasileira, tão displicente no respeito à lei. Um mal que vem lá do topo – o presidente Michel Temer, ele próprio suspeito de vários crimes, montou um gabinete com maioria de outros possíveis criminosos, com a intenção clara de usar o Estado como escudo da Justiça.

    Também é importante dizer que os defensores de bandido não estão de um lado só do espectro ideológico – há deles em quase todos os partidos, da direita à esquerda. Político que defende que a polícia mate, em desrespeito à lei, é tão comum por aqui quanto assassinato de policial.

    Mas isso não significa dizer que os políticos são todos iguais. Não são. Marielle, por exemplo, passou a vida defendendo a lei. É de uma ironia triste que justo nela tenham conseguido colar o rótulo de “defensora de bandido”, comumente atribuído a qualquer pessoa ou organização que se dedique à defesa dos direitos humanos, que são as regras básicas que vigoram em qualquer país decente.

    Defender os direitos humanos significa defender a lei. É exigir, por exemplo, que os políticos poderosos ou os agentes armados do Estado sigam um mínimo de regras. Não é trabalho fácil num país como o Brasil, onde crianças inocentes são baleadas dentro da escola por policiais justiceiros, carros cheios de trabalhadores são metralhados com mais de 100 balas sem motivo algum e policiais expulsam moradores de suas casas só porque podem. É um trabalho dos mais perigosos.

    E que está ficando cada vez mais perigoso, em parte por causa de incitadores como Bolsonaro, que propositalmente espalham a informação falsa de que ativistas pelos direitos humanos são defensores de bandidos. Há hoje no Brasil uma avalanche de fake news acusando esses ativistas de festejarem quando algum policial morre ou de trabalharem para atrapalhar a polícia. Parte dessas fake news são criadas propositalmente por grupos organizados e mal-intencionados, como o MBL, responsável por disseminar o boato criminoso de que Marielle era ligada ao crime organizado. Parte se espalha de maneira orgânica, através de grupos de Whatsapp, muitos ligados a policiais frustrados com a situação terrível da polícia brasileira.

    Ultimamente é comum nesses grupos que circulem fotos e endereços de ativistas de direitos humanos, acompanhados de todo tipo de informação falsa para gerar indignação. Gente que se dedica a que a lei seja cumprida está sentindo na pele o clima sombrio: recebem ameaças, encontram seus muros pixados, os pneus dos carros rasgados, são virtualmente atacados com ofensas pesadas e ameaças explícitas. E, o que é mais assustador, representantes da lei, da Justiça, ajudam a disseminar esses boatos, como é o caso da desembargadora Marília de Castro Neves Vieira, cujo trabalho devia ser julgar a partir dos fatos, mas que posta boatos em redes sociais incitando a violência.

    Com esse clima, a morte de Marielle não é surpresa alguma. É consequência da ação calculada desses defensores de bandido. E, se eles não começarem a ser punidos e a pagar pela consequência de seus atos criminosos, muitas outras tragédias virão.

     

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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