Ir direto ao conteúdo
Coluna

O som do meu silêncio

    Ninguém conseguia tirar aquilo que havia entrado no meu corpo, feito assombração.

    Tudo aconteceu numa noite fria de junho de 2017. Estava em casa com meu marido, quando ouvi um som forte de cachoeira nos meus dois ouvidos. Levei um susto e, meio confusa, lembro de ter perguntado ao Luiz se ele havia escutado alguma coisa. Nada...

    De toda maneira, assim como veio, silenciosamente, o ruído foi embora. Por isso mesmo, logo esqueci do episódio, que bem poderia ter ficado preso ao acaso ou ganhar a forma de uma contingência. O problema é que não era. Uma semana depois, o barulho invadiu novamente a minha audição e, a partir daquele dia, instalou-se como se tivesse direito a usucapião.

    Naqueles primeiros momentos "sofri por incompreensão". Era como se minha vida tivesse sido tomada por uma zoeira difusa, e que não me dava trégua. Acordava e ia dormir com aquele sonido dentro de mim; por vezes mais alto, por vezes mais tímido, mas sempre presente. Era preciso dar aula ouvindo o meu barulho interno, conversar com os amigos e ter o ruído por perto, ir ao cinema e escutar o meu som, disputar a audição que se travava entre, por exemplo, um concerto ou minha própria interioridade.

    Cética que sou, fui deixando passar e até me convenci de que, assim como havia chegado – do nada–, algum dia minha cachoeira íntima se despediria de mim e iria habitar algum outro lugar. Ledo engano.

    Após algum tempo resolvi encarar o danado do dia a dia. Dormir nunca foi um problema; até me habituei a pegar no sono embalada pelo meu próprio som. Mas o que me incomodava, mesmo, e por vezes me levava ao desespero, era não viver mais em silêncio. Sempre me dei bem com o meu silêncio: escrevo em silêncio, leio em silêncio, corro em silêncio. No entanto, e infelizmente, passado exatamente um ano, percebi que os tempos dos verbos tinham ficado obsoletos. O certo era concluir que escrevia, lia e corria em silêncio.

    Existe, porém, uma história dentro dessa história, que, penso, vale a pena contar. Passado um certo tempo – um mês, creio eu –, achei que era hora de recorrer a um especialista. De cética me transformei, repentinamente, em crente: uma crente na ciência. Passei a ter certeza de que a medicina me salvaria, e com relativa facilidade. Só precisava que uma pílula mágica desse a ordem correta e adeus, barulheira.

    A princípio a solução também pareceu simples: meu otorrno me disse que bastava tirar cera dos meus ouvidos, e tudo voltaria ao normal. Essa soou como uma bela utopia sonora e resolvi nela embarcar. Não obstante, apesar dos meus ouvidos ficarem limpos e desimpedidos, nada aconteceu. A cachoeira continuava jorrando na minha intimidade.

    O passo seguinte foi apostar no diagnóstico de “Mal de Ménière”. Tudo na vida há de ter nome, e eu me apeguei a essa saída com nome francês. No entanto, por mais que fizesse exames de audição, as conclusões não eram fáceis. Eu ouvia ruídos dos dois lados, não tinha tonturas, e não apresentava, praticamente, qualquer perda de audição; todos sinais opostos àqueles que confirmariam a doença.

    Começou então minha via crucis por entre outros otorrinos, fisioterapeutas, neurologistas que fazem estimulação magnética, psiquiatras, acupunturistas, massagistas e todo o tipo de procedimento que se possa imaginar. Mas ninguém conseguia tirar aquilo que havia entrado no meu corpo, feito assombração.

     Mesmo com todo alvoroço, minha audição continuava boa. Tão boa, que, segundo um dos médicos, teria começado a ouvir os sons do meu próprio corpo. De alguma maneira, eu havia dado uma ordem errada e me permiti escutar, a partir de então, o que não devia. A princípio desconfiei. Mas o certo é que, apesar de bizarra, essa acabou sendo uma boa pista. O corpo é meu, portanto, era evidente que algo, dentro de mim, provocava aquela algazarra toda.

    Com um certo amadurecimento que o tempo sempre traz, tomei coragem e passei a fazer as perguntas certas. Como se chama esse tipo de fenômeno? Ele teria cura ou viria para ficar? Cheguei então a quatro certezas. A primeira é que tenho uma moléstia (ou o que quer que seja, uma vez que ela é antes resultado do que causa) que se chama tinnitus (sim, ela tem nome). Tinnitus pode ser definido como a percepção de um som, quando, na verdade, nenhum barulho pode ser ouvido pelos demais. A segunda é que esse mal se converteu numa espécie de demônio dos otorrinos, que realmente não sabem muito o que fazer diante de um paciente com esse diagnóstico. A terceira é que não existe fórmula ou remédio que reverta esse problema; existem, sim, maneiras de minorá-lo, ou melhor, de cuidar para que a situação não piore. A quarta implicou entender que eu não estava só: de acordo com a American Tinnitus Association, 15% da população sofre desse mal, em maior ou menor grau.

    Os sons podem ser diferentes. Há quem se queixe de apitos, de ruídos finos, de chiados agudos, de ventanias ou de... cachoeiras. Também podem ser variadas as incidências do som: alguns escutam o barulho em apenas um dos ouvidos, enquanto outros (como eu) o notam nos dois. Existe quem conviva todo dia com o mesmo som e intensidade. Há aqueles (como esta que vos escreve) que apresentam variações de um dia para o outro.

    O certo é que se trata de uma moléstia crônica: que faz dos seus ouvidos propriedade privada,  e não minha. A má notícia que recebi foi que, aqueles que ouvem a cada dia uma intensidade diferente tendem a se acostumar menos com o “seu barulho”. Ou seja, os que escutam um tom contínuo, com o tempo, passam a deixar de notá-lo. Se habituam e naturalizam o barulho interno. Já no meu caso, como cada dia traz uma surpresa, não há mente que dê conta de “neutralizar” tanta novidade. Por isso, e como dizia minha avó italiana, niente da fare! Ou então, conforme o dito brasileiro: “o que não tem remédio, remediado está”.

    Não sou adepta de muitas das saídas clássicas para doenças crônicas, como essa. Não gosto de clube de confraternização, não acredito naqueles que dizem que acabaram se afeiçoando a seus males –e, acreditem, são muitos – e muito menos em placebo. Eles simplesmente não funcionam comigo. Por isso, ao mesmo tempo em que fui me enchendo de remédios – pois diante do desconhecido cada médico acrescentava uma nova medicação – agora tenho me livrado de boa parte deles.

    Isso não quer dizer que fiz as pazes com a minha cachoeira e que vivo, com ela, feliz para sempre. Tampouco ando apaixonada pelos meus sons. Ao contrário, quando acordo com o meu barulho zoando à toda, minha vontade é colocar um fone de ouvido e passar o dia sozinha, escutando uma sinfonia que ultrapasse o meu som interno.  

    Também aprendi que não há remédio ou terapia miraculosa. Um médico norte-americano me receitou um complexo de vitaminas chamado “Ear Ringing”, o qual, segundo ele, cuidará da “saúde dos meus ouvidos”. Mas resolver... isso não resolve. Existe também um aparelho muito caro que, colocado nos ouvidos de forma permanente, promete imitar o “sonido de cada um”, fazendo com que o paciente se habitue à serenata que produz. Marquei uma consulta e fui. Julguei, entretanto, que não queria pagar para viver com dois sons na minha vida: um interno e outro externo. Há ainda outros aparelhos que criam um ruído quase imperceptível, mais conhecido como "white noise" . Nos dias muito ruins reconheço que ter um som constante, que ultrapassa o meu, alivia um pouco. Só é preciso aguentar o ridículo de ver alguém te pegar enternecida por um som de vento, chuva ou algo assim.

    Muitos ruídos nos tomam na calada da noite e na vigília do dia: sons do silêncio e sons dos nossos próprios ruídos. Não há de ser coincidência eu ter utilizado, crescentemente, o termo “ruído” para nomear as contradições e ambiguidades que se avolumam no Brasil dos dias de hoje.

    Nesse meio tempo li alguns textos na internet (que vêm sempre acompanhados por imagens de mau gosto, que trazem homens e mulheres com expressão de desespero e as mãos nos ouvidos) e também livros sobre o tema. Na minha opinião, o melhor deles é “Rewiring Tinnitus; how I finally found relief from the ringing in my ears”, de autoria de Glenn Schweitzer, que, sem ser médico, fala do lugar daquele que sofre.  É preciso, porém, confiar desconfiando do meu colega, que é daqueles que acabaram descobrindo “vantagens” em ter tinnitus. Corro dessa conclusão como o diabo da cruz, mas confesso que aproveitei a leitura. De um lado, me dei conta de que são várias as histórias parecidas com a minha. De outro, que não adianta ficar achando que qualquer hora essa história faz as malas e parte de viagem. Por fim, que reside em cada um de nós a capacidade de, se não acabar com o problema, pelo menos saber lidar com ele. O uso de relaxamentos e meditações; o aprendizado de como controlar os muitos sons que te rodeiam; a capacidade de não entrar em desespero; a compra de tapa ouvidos sofisticados, como aqueles utilizados por músicos de orquestra, que abafam mas não impedem a audição em situações de “alto volume” (como restaurantes, bares, teatros, festas) são dicas óbvias, mas que fazem sentido para quem procura alguma saída para esses invasores.

    É preciso também saber o que não fazer; ou melhor, no que não exagerar: na cafeína, no açúcar, no sódio e sobretudo no som muito alto que nos rodeia. Cada um tem o seu “gatilho”, dizem os médicos, mas confesso que ainda não achei o meu, nem imagino que vá encontrar.

    Dizem que se conselho fosse bom, não vinha de graça. Por isso não pretendo dar dicas, muito menos passar lição de moral. Aliás, não sou do tipo que se conforma e difunde aulas de autoajuda e de autoconhecimento. No entanto, resolvi fazer o que não fizeram comigo. Falar de um tema que, em geral, é de uso privativo.

    Lima Barreto escreveu uma linda coluna chamada “sou crônico”. É certo que ele não tinha tinnitus; era um crônico na Faculdade de Engenharia. Aluno da Politécnica, ele jamais conseguia passar em cálculo e por isso virou “crônico”. Como sou leitora de carteirinha deste escritor carioca de inícios do século 20, percebi que ele nunca tratava de questões pontuais e pessoais sem deixar de transformá-las em metáforas políticas. Nesse exemplo, “crônico” era alguém que recusava adaptar-se às novidades do seu contexto: uma República que prometeu igualdade, mas entregou exclusão; um país do pós-abolição que nada fez para incluir as populações negras; uma sociedade dada a estrangeirismos e esnobismos de classe. Nisso Lima era crônico; um crônico social.

    Da minha parte, não pretendo dizer que tenho um “gatilho político” que explicaria o meu tinnitus. É certo que ele apareceu na mesma época em que o Brasil começou a degringolar, rolando morro abaixo. Mas penso que mudar de governo não vai resolver o meu barulho interno. Quem sabe a resposta possível seja real e simbólica. Eu “escuto demais”, e tenho me esforçado para ao menos suavizar e administrar minha audição. 

    Mas, como ninguém se cura com metáforas, sigo aqui ouvindo aos demais e a mim mesma.

    Não existe final para essa história, pois, no momento em que termino este texto, ouço alto a “minha cachoeira”. Talvez seja o silêncio do meu corpo que, ao fim e ao cabo, tenha resolvido fazer barulho. Quem sabe esses seriam, mesmo, sons do silêncio.

    Por falar nisso, enquanto escrevia esta coluna – um pouco rara para o meu estilo, em geral, pouco pessoal e íntimo – fiquei cantarolando uma música da dupla Simon and Garfunkel chamada, justamente, “The sound of silence” (1964).

     

    “Hello darkness, my old friend

    I've come to talk with you again

    Because a vision softly creeping

    Left its seeds while I was sleeping

    And the vision that was planted in my brain

    Still remains

    Within the sound of silence”

     

    (“Olá, escuridão, minha velha amiga

    Eu vim conversar com você de novo

    Porque uma visão doce e sorrateira

    Deixou suas sementes enquanto eu dormia

    E a visão que foi plantada no meu cérebro

    Ainda está comigo

    Dentro do som do silêncio”)

     

    Muitos ruídos nos tomam na calada da noite e na vigília do dia: sons do silêncio e sons dos nossos próprios ruídos. Não há de ser coincidência eu ter utilizado, crescentemente, o termo “ruído” para nomear as contradições e ambiguidades que se avolumam no Brasil dos dias de hoje. Quiçá são os meus sons internos que viraram linguagem. Sei lá.

    Na dúvida, me permito terminar evocando dois filmes magníficos: “O som ao redor”, de Kleber Mendonça Filho (2012) e “O enigma de Kaspar Hauser”, de Werner Herzog (1974). O primeiro mostra como a entrada de uma milícia em uma rua de classe média de Recife levou a todo tipo de “barulho social”. A segunda película trata de um caso verídico: uma criança abandonada e que ficou encarcerada, na Alemanha de inícios do século 19, até seus 16 anos, quando pela primeira vez teve contato com o mundo exterior. Mas o que sempre mexeu comigo não é tanto a trama em si, mas sobretudo o início do filme. Ao som de um lindo adágio de Albinoni, vemos uma plantação de feno dançar com o vento. Ao mesmo tempo surge uma frase intrigante, e que jamais saiu da minha cabeça: “- Que barulho é esse ao nosso redor? É o terrível som do silêncio”.

    ps:  Para o Leonardo Bertolossi, que chamou minha atenção para a quantidade de “ruídos” que vinham aparecendo nas minhas colunas do Nexo, e que também convive com seus próprios sons.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

    Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: