Coluna

O que eu vivi no Renova BR e quero compartilhar com você

    Há projetos que nos animam mais do que café. Principalmente nos dias de hoje

    Não é preciso falar muito sobre o cenário político sombrio que vivemos. Não é preciso falar, novamente, sobre os riscos da polarização da política para sua vida pós-eleitoral. Não preciso descrever o sentimento de desânimo que acomete muitos brasileiros diante do atual cenário — porque você deve senti-lo também.

    Por isso, vou contar pra você um exemplo de iniciativa da sociedade civil que me ajuda a acreditar que o Brasil tem jeito: o Renova BR. Esse projeto se propõe a arregimentar doações de pessoas físicas e investi-los em bolsas de formação de cidadãos que queiram participar ativamente da desejável renovação — com qualidade, espero — da política brasileira. O objetivo último do projeto é retornar essa doação voluntária de pessoas, após uma capacitação dos bolsistas, em melhores políticas públicas para a própria sociedade. Não por acaso, seu lema é “da sociedade para a sociedade”.

    O doador, somente pessoas físicas, não conhece o bolsista; o bolsista não conhece o doador. Há uma muralha para impedir o conflito de interesses. A lista com todos os doadores será devidamente divulgada. O que os une são princípios pautados pela ética, combate às desigualdades de oportunidades, gestão econômica responsável e sustentabilidade. Ou seja, é, em linhas gerais, boa parte da receita de que o Brasil precisa para sair deste atoleiro que estamos metidos e os brasileiros voltarem a confiar na própria política.

    Fui selecionado como bolsista do Renova BR. Vivenciei o longo processo de seleção e a primeira fase do treinamento de duas semanas. Quero compartilhar com você o que vi.

    Os Brasis — sejam eles divididos pelo recorte geográfico, étnico ou de renda — podem conversar entre si e convergir em soluções que resolvam problemas de todo mundo. Basta disposição, ambiente de negociação e construção. Foi o que pude notar após passar dez horas por dia, durante duas semanas, com os outros 99 bolsistas.

    O primeiro exercício que fizemos foi debater e sugerir uma proposta de emenda parlamentar. Quando alguém sugeriu uma Reforma da Previdência, olhei para os lados e senti que poderia dividir o grupo. Eu tenho formação na área econômica, outras pessoas também tinham. Mas um colega bem vocal do grupo era professor de geografia no ensino médio da rede estadual do Rio Grande do Sul. Vagner Garcez é um dos membros da Frente Favela Brasil que fazem parte do Renova BR. Nossos argumentos se estranharam nos primeiros segundos. Logo concordarmos com um princípio e chegamos a uma proposta de Reforma da Previdência que agradava a todo grupo. Garcez foi quem a apresentou.

    Um grande acerto da seleção do Renova BR foi levar a diversidade a sério. Os bolsistas vieram de mais de 20 estados da federação, sendo que mais de um quinto é de afrodescendentes, um terço de mulheres. Metade não tem partido, mas há filiados da Rede ao DEM. Há neto de governador e pessoas que vivem em comunidades, atleta olímpico e militante pela descriminalização das drogas. Há ex-comandante da Polícia Militar e ativista LGBT, caipiras e fashionistas. Há pessoas diferentes que estão dispostas a trabalhar em conjunto.

    Nada explica melhor a diversidade do que exemplos. Conto apenas três deles que me emocionaram muito quando escutei o depoimento de cada um.

    Felipe Rigoni é deficiente visual desde os 15 anos. Natural de Linhares, Espírito Santo, aprendeu, então, que o que define a vida de uma pessoa são as escolhas. Ele escolheu tocar a vida. Cursou engenharia de produção em Ouro Preto, Minas Gerais, classificando-se como o melhor aluno da sala. Após alguns anos de experiência profissional e uma candidatura não vitoriosa para vereador de Linhares, Felipe está finalizando o mestrado em políticas públicas na Universidade Oxford, no Reino Unido. Seu compromisso é com que cada brasileiro tenha oportunidades para fazer escolhas. Ele terá que escolher um partido logo.

    Robson Borges tem 39 anos, é afrodescendente e foi criado no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Cumpriu uma pena de sete anos na prisão. Hoje é ativista do movimento popular de favelas e trabalha com tecnologias de reciclagem. Robson faz acreditar que é possível ressignificar uma vida, corrigir rumos para ajudar a mudar uma comunidade. Por que não mudar o Congresso Nacional?

    Karla Falcão é uma pernambucana praticante. Basta subir no palco para abrir a bandeira do seu estado. Nasceu em uma família de poucas posses no subúrbio de Recife. A luta de sua mãe lhe garantiu a possibilidade de estudar. Hoje é professora. Lidera um projeto que dá oportunidades para que crianças em situação de vulnerabilidade da periferia de Recife possam empreender. Ela acredita na princípio da liberdade e nas capacidades dos homens e mulheres de sonharem e realizarem. Por que não podemos mudar os rumos do Brasil?

    A solução dos problemas mais profundos do Brasil passa pela forma como as instituições públicas lidam com a própria diversidade da população. E, se há um lugar em que a diversidade sempre deve estar presente, é na Câmara dos Deputados ou nas Assembleias Legislativas. O sistema proporcional, que vigora para a eleição de deputados, reforça justamente essa ideia. Levar a sério a diversidade, bem como o diálogo respeitoso entre diferentes, é fazer valer a democracia. Mesmo assim, por que alguns insistem em querer representantes que sejam iguais aos moradores do bairro ou do prédio?

    Saindo do evento do lançamento oficial do Renova BR na semana passada, alguém perguntou se este projeto é realmente necessário. Minha resposta foi: não e sim. Não, porque os partidos políticos recebem praticamente R$ 900 milhões de fundo partidário. 20% desse montante (R$ 180 milhões) são destinados diretamente para as fundações partidárias, que deveriam formar os políticos do amanhã. Está funcionando? A segunda parte da resposta é: sim, o Renova BR é necessário para hackear as ineficiências de um sistema caro, falido e corrompido e potencializar pessoas que estejam comprometidas em atualizar o software que roda atualmente a política brasileira.

    No mesmo dia, um jornalista me ligou e perguntou se este projeto competia com outros que pretendem coisas semelhantes, mas operam de forma diferente. Pedi a ele para imaginar o tamanho do desafio que temos para melhorar a política brasileira. Fazer, também, o exercício de olhar para o lado e ver quantas pessoas qualificadas ele conhecia que querem desempenhar esse papel — e têm alguma chance de serem exitosos. Contar quantos movimentos ou iniciativas se propõem a contribuir para esse processo. Não precisou muito esforço para perceber que eram muito poucos. Será que precisamos de mais gente, mais movimentos, mais iniciativas da sociedade civil para inovar e renovar a política, ou menos?

    Cruzar os braços ou virar a cabeça para a política brasileira, neste momento de profunda crise, não me parece uma solução promissora. Nenhuma iniciativa da sociedade civil, sozinha, irá atacar todos os problemas que temos. Mas, cada projeto individualmente pode testar suas hipóteses e, quem sabe, inovar de alguma forma.  Na ausência de confiança na política institucional, são movimentos da sociedade civil, como o Renova BR, que estão despertando alguma esperança de que é possível um cidadão comum, conectado a outros, fazer a diferença para mudar a política e os rumos do Brasil.

    Humberto Laudares é especialista em políticas públicas e desenvolvimento. É Ph.D em Economia pelo Graduate Institute, em Genebra (Suíça), e mestre pela Universidade Columbia (Estados Unidos). Fez Ciências Sociais na USP e Administração na FGV de São Paulo. Trabalhou com políticas públicas em governos, no parlamento e em organismos internacionais. Para acompanhar sua página no Facebook: www.facebook.com/laudares

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