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Coluna

O que causou o furacão da extrema direita nas eleições?

    Uma pista: a resposta para a pergunta do título pode estar menos no discurso contra minorias e na violência, e mais na renda e no desemprego

    A votação massiva no candidato Jair Bolsonaro e a alta renovação do Congresso Nacional mostraram um eleitor brasileiro cansado dos partidos políticos tradicionais e dos seus políticos. A renovação foi significativamente maior do que muitos analistas esperavam, principalmente num contexto em que as contribuições de campanha de empresas foram proibidas e os recursos públicos foram concentradas nas mãos de poucos congressistas incumbentes. Apesar da alta taxa de rejeição inicial, o candidato de extrema direita Jair Bolsonaro também surpreendeu muita gente e quase se elegeu no primeiro turno. Mas por que os eleitores brasileiros decidiram abraçar um candidato de extrema direita?

    Explicações baseadas na percepção de que há um fascismo entranhado no eleitorado brasileiro e que ele simplesmente aflorou com um candidato radical são ingênuas e simplistas demais. Como disse Fernando Gabeira numa entrevista recente, "não significa que todo o eleitorado que vota no Bolsonaro pensa como ele. É muito comum você ouvir: eu voto no Bolsonaro apesar das coisas que ele pensa”. Isso não quer dizer que não existam fascistas, misóginos, racistas e nazistas saindo do armário e aproveitando o momento para destilar o seu ódio. Mas muitos dos que votaram em Jair Bolsonaro votaram contra o PT, contra os políticos que dominaram o país nos últimos anos, contra a corrupção, contra a violência e contra o desemprego.

    A semente da insatisfação foi plantada durante os protestos de 2013, quando milhares de pessoas saíram às ruas contra a corrupção e a falta de serviços públicos. Apesar da efervescência da sociedade civil clamando por mudanças, a presidente e o Congresso Nacional pouco fizeram para responder ao clamor das ruas. Em sua dissertação de mestrado na PUC-Rio, Amanda Albuquerque estudou como os deputados reagiram aos protestos de junho de 2013. Ela compara o comportamento de deputados antes e depois daquele momento, em municípios onde houve e não houve protestos. E ela encontra que os protestos não mudaram de forma significativa o comportamento de deputados em relação à presença no plenário, tipos de emendas parlamentares ou projetos de leis encaminhados. Cinco anos se passaram desde os protestos e as notícias de corrupção só aumentaram, a violência não para de crescer e a crise econômica não foi resolvida.

    Com seu discurso de capitão lei e ordem, e com promessas de armar a população e acabar com a bandidagem, seria esperado que grande parte do apoio ao candidato Bolsonaro viesse de lugares onde a violência explodiu na última década. Mas isso não parece ser necessariamente o caso. Quando cruzamos a informação sobre o aumento de violência nos estados brasileiros nos últimos anos com a proporção de votos válidos obtidos por Bolsonaro no primeiro turno, podemos ver que lugares onde a violência mais aumentou votaram menos, e não mais, em Jair Bolsonaro. Mesmo quando a análise estatística é feita em nível de municípios, e olhando para regiões do Brasil separadamente, não parece que a violência foi um dos principais fatores que levaram as pessoas a votar em Bolsonaro.

     

    A outra hipótese ventilada por muitos analistas e políticos é de que a população está cansada da corrupção que veio à tona com a Lava Jato. Em 2017, a corrupção apareceu pela primeira vez na pesquisa do Latinobarômetro como a principal preocupação do brasileiro e diversas pesquisas indicam que para a maioria da população a operação lidearada pelo Ministério Público em Curitiba deve continuar.

    Bolsonaro se vendeu durante toda a campanha como o candidato da anticorrupção, apesar de não ter mostrado muita coisa em seus planos para combater o problema. De toda forma, caso os eleitores de Bolsonaro tenham votado contra a corrupção, seria de se esperar que, em municípios onde a corrupção está mais presente, o candidato do PSL tivesse mais votos, tudo mais constante.

    Testar essa hipótese é difícil porque a corrupção é de difícil mensuração, mas é possível explorar essa relação utilizando resultados de auditorias da CGU (Controladoria Geral da União), que monitora o uso de recursos nos municípios por meio do programa de fiscalização por sorteios públicos. Na figura abaixo, eu comparo a votação de Bolsonaro com a proporção de irregularidades encontradas pela CGU.

    Essa medida já foi utilizada em outros estudos que fiz para mostrar que eleitores punem prefeitos corruptos e que as auditorias ajudam a reduzir as irregularidades praticadas nos municípios. A figura abaixo apresenta a média de corrupção e votos em Bolsonaro para grupos de municípios e uma linha de regressão mostrando que, em lugares com mais irregularidades, a votação do candidato do PSL foi menor e não maior (mesmo controlando por renda e população). Isso vai contra a intuição de que o eleitor votou, em grande parte, motivado pela percepção de corrupção.

    Mais do que a violência e a corrupção, o eleitor brasileiro parece estar cansado da crise econômica que assola o país desde 2014 e que dobrou as taxas de desemprego em diversos estados, reduziu a renda e aumentou a pobreza. O fenômeno do populismo de direita derivado de fatores econômicos ocorre em diversos países.

    O economista David Autor e coautores usaram informações da votação de Donald Trump nos Estados Unidos para demonstrar isso.  Nos locais mais afetados pela concorrência de importações da China, que tiveram um maior choque econômico, Trump foi mais votado. O fenômeno também está presente na Suécia onde Ernesto Dal Bó e coautores mostram como os perdedores econômicos de reformas e da crise financeira ajudaram a transformar o partido de extrema direita Democratas Suecos num dos maiores da Suécia. Sasha Becker e coautores mostram que locais no Reino Unido onde diversos benefícios pagos pelo governo foram reduzidos após a crise de 2008 tiveram uma maior proporção de votos pela saída da Grã-Bretanha da União Europeia.

    Para examinar essa hipótese no Brasil, cruzei informações do crescimento na taxa de desemprego nos estados brasileiros durante os últimos anos com a votação de Jair Bolsonaro. Como podemos ver na figura abaixo, estados que tiveram o maior aumento na taxa de desemprego tiveram uma maior votação no candidato do PSL. Estes resultados demandam um estudo mais aprofundado, mas sugerem que parte significativa da votação do candidato de extrema direita parece ser uma resposta à crise econômica e ao desemprego. Ou seja: uma insatisfação coletiva com a economia e a incerteza trazida pelo desemprego persistente.

    Claro que há muitos apoiadores de Bolsonaro que glorificam o período da ditadura militar, que acham que se combate alta criminalidade armando a população, que não se importam que mulheres ganhem menos que homens ou que negros e homosexuais sejam discriminados pela sociedade. Mas será impossível entender o fenômeno político que varreu o Brasil nessas eleições sem fazer uma análise crítica e entender que muitos dos votos em Jair Bolsonaro não vieram somente dessas pessoas e que, talvez, elas não representem os 60% da população brasileira que pensam em votar nele de novo num segundo turno. Muitos dos eleitores de Bolsonaro são brasileiros indignados por ter perdido o emprego, ter perdido renda e ao mesmo tempo ter visto os políticos roubando loucamente seu dinheiro. Nenhum partido conseguirá derrotar o populismo extremista de Bolsonaro sem explicar para a população o que aconteceu de errado com o país nos últimos anos e que medidas serão tomadas para que isso não volte a acontecer. Varrer os erros para debaixo do tapete não engana mais o eleitor brasileiro.

    Claudio Ferraz é professor da Vancouver School of Economics, na University of British Columbia, Canadá, e do Departamento de Economia da PUC-Rio. Ele é diretor científico do JPAL (Poverty Action Lab) para a América Latina. É formado em economia pela Universidade da Costa Rica, tem mestrado pela Universidade de Boston, doutorado pela Universidade da Califórnia em Berkeley e foi professor visitante na Universidade de Stanford e no MIT.

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