Ir direto ao conteúdo
Coluna

Não use a palavra ‘fascismo’ em vão

10 de out de 2018 (atualizado 10/10/18 às 21h59)

    O risco é faltar vocabulário quando realmente precisar dela. E você pode precisar dela logo

    Numa cidadezinha do Recôncavo Baiano, uma carreata passou, um cachorro latiu, bam bam bam. Três tiros, o cachorro se arrastando em agonia, gritos dos donos, implorando por piedade. Bam bam, mais dois, e o vira-latas foi morrer em casa, cercado do choro de uma família inteira. Era uma carreata pró-Bolsonaro.

    Em Curitiba, um senhor homossexual sumiu, ninguém sabia dele. O porteiro lhe mandou uma mensagem para descobrir se estava em casa. A resposta veio pelo aplicativo: “viva Bolsonaro”. O homem foi encontrado dentro de seu armário, mãos e pés amarrados, a cabeça esmagada a pauladas – foi o assassino que havia respondido ao porteiro.

    Em Salvador, um mestre famoso de capoeira foi assassinado com 12 facadas depois de declarar num bar o voto contra Bolsonaro.

    Numa estação de metrô do centro de São Paulo, uma menina lésbica é empurrada e por pouco não cai no vão (foi na mesma estação onde dias antes uma torcida de futebol gritava a altos brados “ô bicharada, tome cuidado, o Bolsonaro vai matar viado”).

    Em várias cidades do Rio, homenagens póstumas a uma vereadora negra assassinada foram despedaçadas, diante de uma multidão sedenta de sangue. Um dos autores da dessacração elegeu-se o deputado mais votado do Rio. A irmã da vereadora morta foi agredida com a filha de 2 anos no colo.

    Em todo o Brasil, em resposta à ameaça do candidato de que vai pôr “ponto final” em todos os ativismos do país, ambientalistas, defensores dos direitos humanos e da democracia e muito mais gente que se importa com alguma causa estão sendo atacados, ofendidos, agredidos, desestabilizados, ameaçados de morte. Em Altamira, no Pará, há listas de jurados de morte coladas no poste.

    Há uma onda varrendo o Brasil na esteira da validação eleitoral do ódio do último domingo. A questão que se impõe é: como chamar essa onda?

    Violência semelhante está sendo imposta a mulheres, a negros, a indígenas. Segundo um estudo do grupo de monitoramento de redes da Fundação Getúlio Vargas, o ódio ao Nordeste virou o tema dominante das redes sociais.

    No Brasil inteiro, adolescentes homossexuais que andam de mãos dadas na calçada estão ouvindo gritos assustadores dos carros e pedestres que passam. Gays vêm sendo espancados. Numa manifestação, uma urna incendiada. Numa escola, um livro de história sobre a Ditadura foi censurado. Nas redes sociais, vários vídeos e fotos de votos sendo digitados com o cano de um revólver. Um motorista gay de Uber contou para um amigo meu que já mudou seu jeito de se vestir.

    Histórias como essas vêm sendo registradas aos montes no Brasil inteiro nos últimos dias – algumas saem no jornal, outras escuto cochichadas aos prantos por gente assustada demais para denunciar. Há uma onda varrendo o Brasil na esteira da validação eleitoral do ódio do último domingo. A questão que se impõe é: como chamar essa onda?

    Escuto de amigos o conselho de evitar a palavra “fascismo”. Afinal, ela é carregada demais das tragédias do passado – “o fascismo matou milhões, quem o Bolsonaro matou?”, um amigo me perguntou. Há quem faça distinções acadêmicas. O filósofo Pablo Ortellado, professor da USP, argumentou que não é fascismo porque lhe falta nacionalismo – “o presidenciável não tem pautas nacionalistas concretas e não defende nem a indústria, nem os empregos, nem a cultura brasileira”, disse, num artigo na Folha.

    O argumento mais repetido para evitar atribuir a palavra cunhada na Itália do início do século 20 ao que está acontecendo no Brasil de hoje é o perigo de gastá-la. Se chamamos de fascista qualquer inimigo por qualquer motivo, o que vamos gritar quando o fascismo de verdade surgir? É um risco real nestes tempos inflamados de redes sociais descontroladas, em que raramente um político de qualquer orientação escapa de receber o adjetivo de seus adversários. Exemplo é Geraldo Alckmin. A esquerda passou tantos anos tratando aquele moço polido e tranquilo de fascista que ficou difícil encontrar adjetivo à altura de Bolsonaro.

    Talvez então seja útil começar por deixar de lado o adjetivo gasto. Falemos do substantivo: o fascismo. Por mais que não chamemos as pessoas envolvidas de fascistas, é evidente que a onda que descrevi nos primeiros parágrafos deste texto é fascismo – esse clima de terror, com brucutus sentindo-se liberados para mostrar o pior de si. Não estou falando de ideologia aqui. Não me interessa muito o quanto de nacionalismo há no movimento (apesar de que, discordando de Ortellado, acho que há muito). Estou falando do fenômeno: desse imenso tsunami de ódio que de uma hora para outra arrasta até mesmo aquele tio querido, aquele amigo da escola, aquele médico preferido, o namorado, o pai, o filho. Gente boa, pacífica, que sofre para chinelar uma barata, de repente apoiando um projeto de morte, liderado por um tirano que se faz de digital influencer mórbido e grava vídeos na internet, aparentemente pagos pela indústria nacional de armas, nos quais sugere que se metralhe inimigos (a Taurus, beneficiária do merchan, faz armas horríveis, segundo os policiais que são obrigados a usá-las, mas suas ações valorizaram 160% este ano, na esteira do sucesso do garoto-propaganda).

    Isso que está acontecendo no Brasil é fascismo, não tem outro nome, se você folhear a imprensa do mundo todo vai perceber que é o único jeito de olhar para a coisa (embora a revista conservadora americana “Foreign Policy” prefira um outro substantivo: nazismo). “Um fascista é um fascista”, publicou um articulista do jornal português Público, enquanto explicava por que nem o movimento liderado por Marine Le Pen na França nem o comandado por Donald Trump nos Estados Unidos merecem o nome, mas o de Bolsonaro, sim.

    O fato de que o Brasil está à beira do fascismo não quer dizer que 46% dos eleitores brasileiros que validaram seus votos sejam fascistas. Como eu disse, é uma onda. E, como provam vários estudos de comportamento humano, praticamente toda pessoa está sujeita a ser levada por uma onda de ódio como essa, dadas as condições certas (ou erradas). É o que mostram, por exemplo, os experimentos com desumanização conduzidos pelo psicólogo Philip Zimbardo, da Universidade Stanford.

    Não abandone seus amigos e familiares que foram arrastados. Segure firme na mão deles, escute-os, abrace-os, tenha compaixão. Tente com todo coração trazê-los de volta: ondas passam e o próprio Zimbardo escreve também sobre a enorme influência que um único “herói” pode ter, ajudando centenas de pessoas a enxergarem uma atrocidade que, quando eles estão na onda, nem notam. Verdade, sim, que tem gente que já morreu ou ficou marcada para sempre pelo que já aconteceu. Mas não é hora de apontar o dedo e atribuir culpa pela tragédia – não é hora de ter raiva das pessoas amadas que se deixaram levar. É hora de ajudá-los a enxergar o tamanho do banho de sangue que vai começar se deixarmos a onda estourar na praia do país todo. Antes que seja tarde demais para a salvação – a das vítimas e a dos cúmplices.

    Não use a palavra “fascismo” em vão. Use-a agora.

     

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

    Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!