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Coluna

Macunaíma faz 90 anos

    “O herói sem nenhum caráter” de Mário de Andrade continua atualíssimo, sem caber em nenhuma caixinha, iluminando nossa imaginação sobre a utopia de um Brasil mais plural e diverso

    “Macunaíma, o herói sem nenhum caráter”, um dos livros mais emblemáticos do modernismo brasileiro, acaba de completar 90 anos, com corpo e jeitinho de 30. A obra não perdeu atualidade. Basta notar a quantidade de críticas literárias, de peso, que o livro mereceu e ainda merece, a imensa recepção da época e a atual, ou então o número de adaptações que o texto ganhou (e em várias mídias): cinema, teatro, televisão e até quadrinhos.

    Ainda hoje, uma espécie de folclore ronda a obra. Costuma-se dizer que seu autor — o conhecido escritor, crítico e pesquisador Mário de Andrade (1893-1945) — andava quase que “grávido” da obra. As primeiras anotações, que datam de 1926, restaram, porém, soltas e em fichas avulsas.

    Foi apenas no final daquele ano, quando o futuro autor de “Macunaíma” passava férias na chácara de seu primo Pio Lourenço Correa, em Araraquara, que, depois de  alguns dias, o escritor deu por terminada uma primeira versão manuscrita, distribuída em sete cadernos. Logo na sequência escreveria outros dois; todos radicalmente condensados em dois cadernos finais. Ansioso, em janeiro de 1927, o escritor entregou os originais para impressão. No entanto, preciosista do jeito que era, fez tantas alterações que a primeira edição só seria publicada em 26 de julho de 1928.

    Verdade ou não, o fato é que o livro guarda uma forma urgente, multifacetada, que lembra, segundo a crítica literária Gilda de Mello e Souza (1919-2005), o gênero da rapsódia. Sua forma é fragmentada e a narrativa recortada por  fontes diversas. A principal, e pela qual Mário se apaixonou, foi a obra de Theodor Koch-Grumber, “Vom Roraima zum Orinoco”, datada de 1924. Na verdade, apaixonou-se pela figura de Macunaíma; um personagem irrequieto que transitava pela fronteira ao Norte do país, sem respeitar traçado oficial ou mapa delimitado. Segundo documento publicado por Telê Porto Ancona Lopes, na edição crítica da obra, Mário teria confessado que: "no geral meus atos e trabalhos são muito conscientes por demais para serem artísticos. ‘Macunaíma’ não. Resolvi escrever porque fiquei desesperado de comoção lírica quando lendo o Koch-Grünberg percebi que Macunaíma era um herói sem nenhum caráter nem moral nem psicológico, achei isso enormemente comovente nem sei por que, de certo modo pelo ineditismo do fato, ou por ele concordar um bocado com a nossa época, não sei...".

    Não ter nenhum caráter era uma forma de ter todos. Aliás, Macunaíma não respeita tempo e tampouco espaço, viajando como cavaleiro andante — sem ser muito cavaleiro —, por todos os lugares e épocas, para jamais pousar em local algum. Esse perfil atípico do personagem até podia estar nas passagens retiradas do livro de Koch-Grünberg, mas Mário de Andrade tratou de agregar outras histórias, recontos, heróis e anti-heróis, achando inspiração nas páginas da literatura indígena, africana, ibérica, portuguesa, brasileira e europeia. Além do mais, acrescentou suas experiências pessoais, seus estudos etnográficos, suas próprias viagens, e a leitura particular da história brasileira e dos folcloristas que realizou.

    Leitor confesso de um de nossos primeiros historiadores, Capistrano de Abreu (1853-1927), Mário se dizia igualmente seguidor do militar, político e folclorista Couto Magalhães (1837-1898), do contista, romancista e também do folclorista Gustavo Barroso (1888-1959) e das obras de Sílvio Romero (1851-1914) que retratavam práticas e costumes dos brasileiros.  Por isso bordou seu original, recolhendo expressões, ditados, quadras, frases feitas, contos, lendas e outros textos das várias regiões do país. 

    A esse material, o escritor paulista juntou termos que foi buscar nas suas andanças pelo país, e ainda inventou muitos outros mais. E com tantas camadas justapostas e paralelas, “Macunaíma”, de Mário de Andrade, saiu bem complexo e avesso a definição óbvias.

    No mesmo ano em que seu colega da Semana de Arte Moderna de 1922 Oswald de Andrade (1890-1954) lia seu “Manifesto antropófago” na própria casa de Mário, que reunia por lá um conjunto de amigos, o autor de “Macunaíma” também não mostrava escrúpulos — preferia escancará-los — em se apropriar de uma série de textos e devolvê-los traduzidos, alterados e devidamente deglutidos.

    Parece que Mário de Andrade também oscilou no subtítulo. Originalmente, pensou em defini-lo como “herói de nossa raça”. Depois, pensou mais uma vez, e acabou optando por “herói de nossa gente”. De toda maneira, o livro nada tinha de ufanismo ou de celebração barata. Um herói que sempre dizia ter muita preguiça e que praticava todo tipo de falcatrua — sem poupar irmãos, burgueses ou deuses (e o quê ou quem aparecesse pela frente) —, não poderia encarnar uma espécie de identidade nacional orgulhosa, como, aliás, vários de seus críticos procuraram definir a obra.  O personagem era múltiplo e plural pois tinha um pouco, e muito, de tudo, sem equilíbrio ou harmonia. Não cabia, assim, em qualquer caixinha, retirando um tantinho de cada um dos grupos que fizeram parte da formação do Brasil e dos brasileiros.

    “Macunaíma” guardava, assim, o ar de novidade do seu momento. Parecia representar o resultado de um período fecundo de estudos, dúvidas e curiosidades que Mário de Andrade acumulava acerca da cultura brasileira e de suas manifestações

    Num momento importante da narrativa, quando Macunaíma andava pelo mundo, juntamente com seus dois irmãos, mas sempre cansado, eles se depararam com uma poça e resolveram se “abicar”. Me perdoem os leitores, mas o trecho é tão memorável que prefiro parar de descrever, para deixar a própria narrativa de Mário ganhar volume:

    “Uma feita o Sol cobrira os três manos de uma escaminha de suor e Macunaíma se lembrou de tomar banho. Porém no rio era impossível por causa das piranhas vorazes que de quando em quando na luta pra pegar um naco da irmã espedaçada pulavam aos cachos para fora d’água metro e mais. Então Macunaíma enxergou numa lapa bem no meio do rio uma cova cheia d’água. E a cova era que nem a marca dum pé de gigante. Abicaram. O herói depois de muitos gritos por causa do frio da água entrou na cova e se lavou inteirinho. Mas a água era encantada porque aquele buraco na lapa era marca do pezão de Sumé, do tempo que andava pregando o Evangelho de Jesus pra indiada brasileira. Quando o herói saiu do banho estava branco louro de olhos azuizinhos, água lavara o pretume dele [...] Nem bem Jiguê percebeu o milagre, se atirou na marca do pezão de Sumé. Porém a água já estava muito suja do pretume do herói e por mais que Jigué esfregasse feito maluco atirando água para todos os lados só conseguia ficar da cor do bronze novo [...] Maanape então é que foi se lavar, mas Jiguê esborrifara toda a água encantada para fora da cova. Tinha só um bocado lá no fundo e Maanape conseguiu molhar só a palma dos pés e das mãos. Por isso ficou negro bem filho dos Tapanhumas. Só que as palmas das mãos e dos pés dele são vermelhas por terem se limpado na água santa [...] E estava lindíssimo no Sol da lapa os três manos um louro, um vermelho, outro negro, de pé bem erguidos e nus ...”

    Com a linguagem em trava solta, aquela que os novos tempos modernistas permitiam e pediam, Mário de Andrade recupera o velho mito das três raças formadoras da nação - o indígena, o negro e o branco -, mas dá a ela uma interpretação diferente pois menos enaltecedora. Desta vez, e de forma metafórica, o herói de nossa gente, um “preto retinto”, vira branco, um de seus irmãos transforma-se em índio e o outro em negro (mas branco na palma das mãos e na sola dos pés). Mais ainda, se antes todos eram igualmente “índios pretos”, depois da entrada na água encantada, consolidou-se na família uma nova hierarquia interna. Até então Macunaíma era o caçula chato, e negro como os demais. Depois de tomar banho, ficou “branco, loiro e lindo”. O outro irmão acabou da cor do bronze e o último bem negro. Iguais, mas diferentes. Misturados, mas também separados.

    Ninguém me tira da cabeça que Mário, com essa passagem do livro, espicaçava com o surrado mito das três raças criado por Karl F. P. Von Martius (1794-1868). Escrito para o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, nos idos de 1843, o modelo do naturalista previa, igualmente, uma metáfora fluvial, mas carregava um tom elevatório, nacionalista e triunfante. Na tese do viajante bávaro, o Brasil seria composto por três rios – um branco, um indígena e um negro – mas todos convergiam para o primeiro. Já o autor de “Macunaíma” transformava o caudaloso rio em uma mera poça e ainda mostrava como os resultados da fusão fluvial não poderiam ser mais distintos não só na cor, mas, sobretudo, nas decorrências sociais da cor.

    “Macunaíma” guardava, assim, o ar de novidade do seu momento. Parecia representar o resultado de um período fecundo de estudos, dúvidas e curiosidades que Mário de Andrade acumulava acerca da cultura brasileira e de suas manifestações. Tanto que o escritor incorporou em sua obra toda uma cultura não letrada, em que tomavam parte indígenas, caipiras, sertanejos, negros, mulatos, cafuzos e brancos.

    O resultado era menos uma síntese e mais uma sinfonia, onde, a despeito do tema central ser comum, os vários instrumentos guardam pequenos solos distintos. Em meio a esse espaço lendário e sem lugar delimitado, nesse tempo primordial e destituído de datação, circula esse personagem em tudo impreciso e descaracterizado. E é justamente essa indeterminação que acaba por animar o leitor a seguir viagem, e dar conta de se virar diante de tantos cenários, e da falta de sentidos imediatos.  

    Se não há como dizer que existiria, embutido no livro, um projeto identitário e nacional, também não há como julgar os “defeitos” do herói, e assim fazer uma análise moral do seu comportamento ou analisar e “maldizer” os brasileiros, a partir de uma pretensa perspectiva negativa de Mário de Andrade. Boas obras são aquelas que continuam abertas e não oferecem soluções rápidas. Na verdade, a própria estrutura do texto opera a partir de contradições, contrastes, antíteses, paradoxos e até despistamentos. Nada parece fixo, estável ou permanente. Conforme provocou Manuel Bandeira, em carta endereçada a Mário em 1927: “é justo nisso que está a lógica de Macunaíma: em não ter lógica”. 

    O “herói sem nenhum caráter” permanece sempre deslocado dos locais onde se encontra: na cidade sente falta da mata; na mata não acha lugar na sua tribo ou família. Foi buscar sua consciência em São Paulo, mas não a encontrou. No final do romance (e juro que não é spoiler), ele termina solitário, sem saber exatamente que caminho tomar. Só sabe que “não veio ao mundo para ser pedra”. Por isso, sua identidade é a falta dela; são todas elas. Na verdade, o herói representa um mosaico, híbrido, e de formato inacabado, sem grandes conclusões.

    Apesar disso tudo, Macunaíma não morre desamparado. Vira estrela e continua iluminando a utopia de um país mais inclusivo, diferente e plural; menos dado a saídas prontas, manifestações de ódio diante do que é diferente, ou projetos que imaginam apenas uma forma de ser e estar no Brasil. De tão desencantado, Macunaíma, que anda por esse Brasil todo, reencanta.

    PS: Esta coluna é dedicada a André Botelho que, sem ter responsabilidade alguma por ele, me ensina muito sobre Mário de Andrade. Por sinal, sugiro a leitura de um pequeno/grande livro, de autoria dele: “De olho em Mário de Andrade: uma descoberta intelectual e sentimental do Brasil”.

     

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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