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Inté

    Com a derrocada do tipo de política hegemônica no Brasil, o tema que está à mesa é, não gratuitamente, o da renovação política

    Durante o último ano, uma pergunta sempre me rondava: qual será o tema do meu próximo texto para o Nexo? Admito que curtia essa preocupação constante. Mas, hoje, preciso deixar meu “inté” para você. Esta é minha última coluna.

    Como deve ter notado pelo que escrevo, eu sou uma pessoa que vive muito intensamente a política, mesmo na crise. Neste tão esperado ano de 2018, eu deverei voltar minhas energias para as eleições, o que poderia prejudicar minha função de colunista do Nexo. E você não merece isso.

    Confesso que gostei muito da experiência de ser um colunista deste jornal eletrônico super cool. O mundo estava caindo lá fora, mas precisava me concentrar quinzenalmente para continuar nosso bate-papo, tendo o cuidado de não misturar meus artigos com meu trabalho, questões pessoais ou outros projetos que desenvolvia paralelamente.  Era como se eu fosse para uma varanda e olhasse o que estava pegando lá fora. Aí escrevia e mandava para os meus editores preferidos, Marina e José.

    Quando comecei a escrever aqui, meu objetivo era dialogar com você sobre uma série de temas atuais que impactam o desenvolvimento de longo prazo do Brasil, com base na literatura acadêmica e nas evidências, sem ser careta. De certa forma, tentei fazer isso falando sobre desigualdade, sustentabilidade e tópicos relacionados à economia. Mas o tema que mais ocupou minhas colunas foi política. E por quê?

    No final das contas, renovação política é uma expressão que se insere num guarda-chuva maior que é o desenvolvimento institucional do país. Não é um evento marcado para 2018, mas um processo sujeito a intempéries, mesmo ao fracasso

    A resposta é simples: um dos maiores problemas que o Brasil vive hoje, que atrasa o avanço de muitas agendas setoriais e o progresso das futuras gerações, é a política. Há os que acham que política é apenas o jogo pelo poder. De fato, é poder também. Mas quando o fim último é o poder, os representantes se cegam sobre o potencial que ela tem para a melhoria do padrão de vida das pessoas por meio de políticas públicas, em outras palavras, para o desenvolvimento do país. Leu alguma coisa que lhe é familiar?

    Com a derrocada do tipo de política hegemônica no Brasil, o tema que está à mesa é, não gratuitamente, o da renovação política. Como este é um debate e um conceito em construção, achei que valesse jogar luz sobre visões e movimentos atrelados a ele, bem como seus desafios e oportunidades.

    No final das contas, renovação política é uma expressão que se insere num guarda-chuva maior que é o desenvolvimento institucional do país. Não é um evento marcado para 2018, mas um processo sujeito a intempéries, mesmo ao fracasso. Como sabemos, as instituições políticas importam para o desenvolvimento, como bem mostram Daron Acemoglu e James Robinson em “Por que as nações fracassam”. Para eles, as sociedades com instituições políticas mais inclusivas, transparentes, tendem a se desenvolver de forma mais sustentada do que aquelas em que a política é concentrada nas mãos de poucos por muito tempo. Não é disso que estamos falando aqui? 

    O Brasil tem uma longa agenda de mudanças de políticas públicas, mecanismos institucionais e práticas políticas a serem feitas para que qualquer processo seja configurado como uma “renovação política” de fato. Essas mudanças não podem ficar circunscritas à política, pois precisam inundar também o dia a dia do brasileiro. Essas mudanças não se restringem a slogans de campanha, pois devem ser implementadas para mudar a realidade. Nem sempre há soluções prontas e de fácil replicabilidade.

    Por isso, sigo em frente com mais dúvidas do que certezas, mas com vontade de buscar respostas para nossos problemas coletivos e muito agradecido de ter estabelecido este diálogo com você ao longo do último ano. Podemos continuá-lo na página no Facebook, no Instagram ou Twitter, mas prometo ser mais econômico na quantidade de palavras.

    À galera do Nexo, meu muito obrigado — vocês são feras. A você, meu muito obrigado.  Como se diz no interior, inté.

    Humberto Laudares é especialista em políticas públicas e desenvolvimento. É Ph.D em Economia pelo Graduate Institute, em Genebra (Suíça), e mestre pela Universidade Columbia (Estados Unidos). Fez Ciências Sociais na USP e Administração na FGV de São Paulo. Trabalhou com políticas públicas em governos, no parlamento e em organismos internacionais. Para acompanhar sua página no Facebook: www.facebook.com/laudares

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