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Coluna

Havia uma vírgula no meio do caminho

    Sobre a falta de eficácia simbólica do governo Temer e sua desastrada tentativa de citar Juscelino Kubitschek

    Político que é político não titubeia. Mesmo quando reconhece que está errado, que disse alguma sandice, sabe bem que o melhor é seguir em frente, contornar ou pretender não notar. Político é como ator no palco: se algo falhar, o mais importante é não perder o jogo de cena e improvisar. Essa é sua eficácia simbólica: acreditar (e fazer acreditar) na magia da sua mensagem e posição.

    Getúlio Vargas, que era famoso por sua prontidão e capacidade de “jogar para a plateia”, certa feita resolveu explicar por que a feijoada seria um prato “tipicamente brasileiro”. Quem conhece a história sabe que ela não é: as partes menos nobres do pobre porco costumavam serem jogadas fora – preteridas pelos senhores –, e recuperadas pelos escravizados e escravizadas que assim conseguiam cozinhar para si um prato menos ralo. Já Getúlio se saiu com uma das suas. Disse que o branco do arroz correspondia às populações europeias; o preto ou marrom do feijão seriam uma alegoria das nações africanas e de seus descendentes; o amarelo da laranja, uma homenagem aos orientais que entraram no país a partir do final do século 19; o vermelho da pimenta uma alusão aos indígenas que aqui estavam antes da chegada dos portugueses. Discurso pronto e encerrado perguntaram ao presidente qual a importância da couve? E ele, no bate-pronto, reagiu:  "ah, meu filho, são as nossas florestas!".

    Enfim, nessa passagem, que talvez não passe de peça do folclore político, fica evidente a capacidade do político de não tropeçar. É melhor falar forte, não mostrar oscilação, explicar até mesmo fogo em meio de cachoeira.     

    Esse tipo de atuação vale para descrever a atividade de políticos carismáticos, mas também para definir outros tipos de liderança: a religiosa por exemplo. Claude Lévi-Strauss, em artigo hoje clássico, chamado “A eficácia simbólica; o feiticeiro e sua magia” (1949), conta, entre outros, a história de Quesalid, um homem comum, que, a despeito de sempre negar, acabou se transformando num grande feiticeiro. A sua eficácia não estava, portanto, nas poções e cânticos que produzia (ou não produzia), mas, sobretudo, no fato da sociedade querer que ele “fosse um grande feiticeiro”. O etnólogo também relativiza, e coloca em paralelo, a figura de xamãs e médicos. Segundo ele, muito da eficácia simbólica desses “profissionais da cura” estaria na história que narram e como a narram. Não existe titubeio possível. 

    Marc Bloch perseguiu uma hipótese semelhante quando estudou os reis taumaturgos franceses e ingleses em 1924. O historiador analisou a capacidade que esses soberanos medievais tinham de, com apenas um toque, um toque real, curar as escrófulas, feridas pustulentas que matavam muitos dos seus súditos. Cético, o historiador francês procurou, a princípio, deslegitimar a magia. Como ter certeza que o rei, de fato, curava? Afinal, escreve ele, se o “paciente” falecesse não voltaria para reclamar. Por outro lado, se saísse curado também não teria por que retornar ao ritual régio, e correr o risco de ser novamente contaminado. Ao final do livro, porém, o estudioso entrega os pontos e conclui que os reis curavam, pois, no fundo, a comunidade que os circundava desejava acreditar na sua magia.  Pois somos todos, mais ou menos, assim: gostamos de acreditar nas fórmulas e rituais do Estado.

    O filme “Casanova e a Revolução”, de Ettore Scola (1982), protagonizado pelo filósofo Restif de la Bretonne (1734-1806), narra um momento dramático da história francesa, quando o monarca Luiz XVI tentava fugir de seu país. Ele é aprisionado na fronteira com a Áustria, e um comentário perspicaz dá o fecho à trama. “Quando um rei é pego fugindo, ele é a cada dia menos rei”, afirma La Boétie.

    Temer aludiu à estrutura da frase de JK, que ficou, no seu caso, assim: 'O Brasil voltou, 20 anos em dois'. A 'tradução' não tinha como dar certo; era como comparar vinho com água.

    Claro que esse dito serve mais aos monarcas do que para resumir a atividade de presidentes contemporâneos. Mas faz sentido, de toda maneira, quando se pensa no exercício da política. Aliás, boa parte dos políticos atuais não se parecem, em nada, com Quesalid ou reis taumaturgos. Não têm eficácia simbólica alguma, até porque só possuem um projeto na vida: manter-se no poder. Nesses casos, não há eficácia que dê conta.

    E esse me parece ser o caso do nosso presidente Michel Temer, que vive sereno em seu palácio, a despeito dos seus 7% de popularidade.  Mais ainda, deu de imitar o slogan da campanha de Juscelino Kubitschek, o qual, na década de 1950, quando iniciava seu governo, prometeu: “50 anos em 5”. 

    Temer aludiu à estrutura da frase de JK, que ficou, no seu caso, assim: “O Brasil voltou, 20 anos em dois”. A “tradução” não tinha como dar certo; era como comparar vinho com água. E mais: havia uma vírgula no meio do caminho.

    A frase pode ser considerada simplesmente infeliz. Também pode ser entendida como um ato falho, o qual, na definição de Sigmund Freud, nada tem de ingênuo; é antes a manifestação reprimida de um desejo ou de uma verdade, ambas ocultas. O certo é que, na propaganda de Temer, apenas uma vírgula impede que a leitura, ao invés de ser positiva e associada ao progressismo de Juscelino, se transforme numa mensagem de retrocesso. Ou seja, teríamos regredido 20 anos em apenas dois anos.

    Mas há também diferença de eficácia: JK cumpriu o que prometeu; Temer, não. Juscelino tinha um estilo de governo que fazia dele um vendedor de esperanças. Temer dialoga pouco e aparece o menos possível. JK era um presidente que sabia reconhecer a ocasião e a hora exata de tirar proveito de seus atos; o que não é bem uma qualidade de nosso atual presidente.

    Mais que uma vírgula: diferenças entre JK e Temer

    Para dar uma ideia do desequilíbrio entre as frases, vale a pena lembrar o que foi a imbatível alavanca estratégica de JK: o Plano de Metas ou Programa de Metas. Lançado em maio de 1956, ele foi o primeiro e o mais ambicioso programa de modernização já apresentado ao país. Com esse plano em mãos, Juscelino dava concretude a um projeto que propunha  realizar uma mudança estrutural na capacidade produtiva nacional. Aliás, o Plano de Metas fez do governo de Juscelino um sucesso. Atribuía ao Estado a tarefa de viabilizar uma agenda de crescimento econômico acelerado, aprofundava o processo de industrialização do país e privilegiava o setor industrial de bens de consumo duráveis, alterando substancialmente o cotidiano da população que, entre deslumbrada e espantada, passou a conviver com um grande número de novidades: um punhado de eletrodomésticos moderníssimos (máquina de lavar roupa, grill automático, rádio de pilha, ventilador portátil, enceradeira com três escovas, fogão com visor panorâmico, som estereofônico, TV com controle remoto preso ao aparelho por um fio) e outros produtos domésticos igualmente novos, como sabão em flocos, Detefon com pulverizador e pilhas Eveready. Introduziu-se ainda novos utensílios e peças de vestuário, fabricadas em massa com materiais sintéticos, baratos e coloridos, alguns de nomes inusitados: – polímeros, náilon, raion, banlon, curvim, acrílico, napa, fórmica, vinil e linóleo.

    O Plano de Metas definia 31 objetivos, com enfoque privilegiado em quatro pontos principais. Na primeira prioridade, o governo previa alocar investimentos para o setor de transportes, especialmente o rodoviário, e incentivar a indústria automobilística. Já as outras três canalizavam recursos em energia, indústria pesada e alimentos. Juscelino apostou na expansão da capacidade de fornecimento de eletricidade do país: ampliou a usina de Paulo Afonso, subiu a barragem de Três Marias, executou a primeira etapa da construção do reservatório de Furnas. E, a partir de 1958, os brasileiros viram materializar-se nas ruas duas novidades formidáveis: o DKW-Vemag, o primeiro automóvel a sair da fábrica com 50% de peças nacionais, e a Rural Willys, o primeiro carro também nacional com tração nas quatro rodas.

    A expansão da malha rodoviária foi provavelmente a melhor parte do momento do Plano de Metas. Juscelino pavimentou 6.000 km de novas rodovias entre 1956 e 1960, num país que até então contava com apenas 4.000 km de estradas. A prioridade na infraestrutura viária significava viabilizar uma rede de integração territorial capaz de garantir a circulação de mercadorias entre as áreas rurais e os principais centros industrializados do país.  O resultado da rede rodoviária Belém-Brasília foi interligar por estrada de rodagem os estados de Goiás, Maranhão e Pará, e inserir a Amazônia no mercado brasileiro.

    O estilo político fazia toda a diferença na hora de JK abordar problemas e conquistar amigos e inimigos, mas não explica tudo. A outra parte do segredo estava no fato de Juscelino conseguir transformar o Plano de Metas no projeto de um Brasil possível: uma utopia viável. Seu programa de governo dava voz a uma nova condição de ser brasileiro, que poderia contribuir para reparar as injustiças de uma herança histórica marcada por desigualdades profundas e serviria para abrir “as portas de nossa modernidade”. A chave chamava-se desenvolvimentismo: a superação da crença de que nossa sociedade, defasada e dependente dos países mais avançados, estava cindida em duas. Uma parte do Brasil ainda era atrasada e tradicional; a outra parte já seria moderna e em franco desenvolvimento. Segundo a percepção do Estado, ambas as partes, o centro e a periferia, conviveriam no mesmo país a partir da industrialização e da urbanização.

    As “coisas” não eram bem assim, e havia uma relação clara e perversa entre essas duas partes. Mas, nos idos de 1956, JK fez da construção de Brasília a meta síntese dessa dualidade: uma cidade inteiramente planejada que pretendia representar o esforço de afirmação da nacionalidade e o desejo de integração do interior ao centro, do país ao mundo, da tradição ao moderno. Brasília forneceu ao governo de JK um símbolo compreensível pela população. Os brasileiros ficaram fascinados com a ideia de uma cidade voltada para o futuro, totalmente diferente dos estilos arquitetônicos e urbanísticos existentes, ancorada em um platô no centro do Brasil e projetada sobre uma enorme extensão vazia – a densidade populacional média da região, à época, era inferior a uma pessoa por quilômetro quadrado.

    O problema é que a construção de Brasília carregava as mesmas ambivalências do Plano de Metas. Nunca foram abertas as contas da nova capital. Também não se sabe quantos operários morreram na pressa da construção, se é verdade que seus cadáveres foram enterrados junto às próprias edificações, se de fato existiu a prática de castigos corporais e se esses trabalhadores protestaram diante das condições de vida que enfrentaram. Sabe-se, sim, que os milhares de operários, vindos principalmente do Nordeste, de Goiás e do norte de Minas Gerais – os “candangos” –, só moraram em Brasília quando o terreno era ainda um canteiro de obras. Concluída a capital e instalado o governo, sobraram a eles poucas opções: ou voltavam a seus estados natais, ou passavam a viver segregados em acampamentos, na periferia da cidade. Essas edificações frágeis deram origem às “cidades-satélites”, tal como as conhecemos hoje: durante os dez primeiros anos que se seguiram à fundação, cerca de 100 mil migrantes tornaram-se “favelados da nova capital”. Brasília expulsou os pobres para a periferia, segregou funcionários públicos, burocratas e parlamentares em unidades residenciais idênticas – as “superquadras” –, de acordo com uma concepção hierárquica e segmentada da vida social, e acentuou a presença esmagadora do Estado empregador.

    Mais de 50 anos passados, a construção de Brasília ainda lembra sua vocação modernista. Ela integrou o país pela interiorização e manteve as marcas de sua ambivalência: conservou impecáveis seus palácios –“suspensos, leves e brancos, nas noites sem fim do Planalto” –, e sustentou as condições para que o poder na República se tornasse mais asséptico e isolado. 

    A nova capital federal foi inaugurada em 21 de abril de 1960. Nove meses depois, Juscelino deu posse ao novo presidente eleito, Jânio Quadros, sem saber que estava realizando uma façanha e tanto: somente em 2003, um presidente civil, eleito pelo voto popular, entregaria novamente a faixa presidencial ao seu sucessor.   

    É em Brasília que Michel Temer reside, isolado e enredado em seu desejo de poder. Se a frase de JK pegou, já a do nosso atual presidente parece com uma piada, e foi logo retirada de circulação. O episódio lembra de perto o livro de José Saramago, chamado “História do cerco de Lisboa”. O personagem principal, Raimundo Benvindo Silva, é um humilde revisor de textos que comete um erro proposital: introduz um “não” numa frase, e altera o próprio curso da história. Já Temer foi punido por uma vírgula, também proposital, mas que não deu conta de evitar uma leitura, à sua maneira, correta: o Brasil de fato “voltou” muito nesses últimos dois anos; para trás.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto informava que o filosófo que protaganiza "Casanova e a Revolução" era Etienne de la Boétie, quando na verdade é Restif de la Bretonne. A correção foi feita às 10h46 em 23 de maio de 2018.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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