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Coluna

Está provado: um outro mundo é possível

    Tenho certeza absoluta disso: estou nele, enquanto lhes escrevo

    Nos últimos dias, sempre que converso com alguém, a pessoa me diz que paga imposto altíssimo, mas que está plenamente satisfeita. Paga com gosto e, quando faz as contas de tudo o que recebe em troca, percebe que no fundo é barato. Vale a pena. Outra coisa que tenho percebido é que as pessoas confiam umas nas outras, e que a tensão social é baixíssima. E esse clima gera uma disposição de ajudar, que acaba beneficiando todo mundo. As pessoas são felizes e tranquilas, e me parece que essa sensação de justiça e de confiança tem muito a ver com isso.

    Bom, você talvez já tenha notado que eu não estou no Brasil, né? Estou no paraíso.

    Ou no mais próximo disso que uma sociedade humana real já conseguiu construir sobre a Terra: Copenhague, Dinamarca. Estou aqui pesquisando para escrever matéria – encontrando gente, perguntando, observando. Aos poucos, vou entendendo como as coisas por aqui são bem pensadas.

    Por exemplo, a delícia que é se locomover pela cidade. Nem sempre foi assim. No começo dos anos 1970, Copenhague estava cheia de carros, como qualquer outra capital importante do mundo. Poluição aumentava, trânsito piorava, acidentes aconteciam. Aí bateu na cabeça a crise do petróleo, uma disputa econômica que virou confusão geopolítica entre os países islâmicos do Oriente Médio, com seus xeques e aiatolás, e o Ocidente queimador de gasolina, com seus exércitos e empresas monopolistas de petróleo. No mundo inteiro a gasolina ficou cara e isso machucou economias em toda parte.

    Mas, aqui em Copenhague, a crise foi ótima.

    O governo, obcecado pelo interesse público, aproveitou para pensar estrategicamente. Viu que poderia mudar a matriz de mobilidade daqui, com um investimento pequeno, e que isso iria acabar tendo efeito positivo em muitas áreas – na saúde, inclusive mental, no turismo, nos índices de felicidade, no trânsito, na economia, até na educação (ciclistas estatisticamente tiram notas mais altas). Como essa mudança foi muito bem conduzida por gente talentosa, ela acabou fazendo com que a cidade ficasse mais rica, mais saudável e mais feliz. Hoje, mais de 40 anos depois, há mais gente pedalando do que dirigindo na cidade. Não peguei nenhum engarrafamento em uma semana aqui. Não vi nenhuma briga de trânsito – nem sequer um xingamento. Não vi quase ninguém muito acima do peso.

    Tenho conversado com muita gente que trabalha aqui: dinamarqueses, brasileiros, gente de toda parte. Eles me contam que deixam 45% da grana que fazem na mão do governo. Em troca, o governo, onde há uma cultura de excelência tão grande quanto no setor privado, faz tudo funcionar impecavelmente e pensa de maneira estratégica para que o futuro seja melhor que o presente. Um dos meus entrevistados me disse que sua namorada quebrou o tornozelo um dia desses. Vieram buscá-la de ambulância, a fratura era chatinha, então ela passou uma semana no hospital, bons médicos, bons enfermeiros, boa comida, boas instalações, licença remunerada no trabalho. Na hora de ir embora, não teve conta: tudo na faixa. Ele não troca isso por menos impostos de maneira alguma.

    Já vejo até sua cara de tédio me ouvindo contar essas coisas. Estou acostumado com esse olhar de chacota, como que dizendo “em Copenhague é fácil, quero ver em Bangu”. Uma vez num trabalho que tive me proibiram de ficar buscando exemplo na Escandinávia para as coisas que eu escrevia – que nos fixássemos no mundo real.

    No mundo real, como sabemos muito bem e tanto a esquerda como a direita não cansam de nos relembrar, “não dá para ter tudo”. É uma coisa ou outra: ou é um Estado fracote e incapaz, deixando ao deus mercado a tarefa de fazer a economia girar e produzir prosperidade, ou é um Estado tentacular, infiltrado em tudo, sem nenhuma liberdade para o empreendedorismo ou para a invenção.

    As sociedades que mais deram certo no mundo – como esta aqui de onde vos escrevo – são justamente aquelas que se propuseram a ter tudo, liberdade e justiça, riqueza e felicidade.

    E, no entanto, aqui é real. É, certeza. Estou vendo pela janela. Copenhague decidiu ter tudo, contrariando o que qualquer esquerdista ou direitista dogmático pontifica. Aqui tem um governo forte, de espírito empreendedor. E tem também capitalistas com alma, que fazem dinheiro enquanto criam empreendimentos projetados para ter impacto positivo. Todo mundo ganha bem e ninguém ganha muito mais que ninguém – professores recebem quase tanto quanto políticos.

    Não quero ofender ninguém com a pergunta, mas será que eles conseguem e nós não porque o país deles está tomado por dinamarqueses, enquanto o nosso deu o azar de ser habitado por milhões e milhões de... brasileiros?

    Pois então, não. Claramente, não é isso. Prova de que não é que tenho encontrado um monte de brasileiros talentosos e competentes que vivem aqui porque foram importados pelos dinamarqueses para colaborar com a melhora da sociedade deles. Encontrei um designer que faz algumas das melhores bicicletas dinamarquesas, e que tem um modelo exposto no Museu de Design Holandês. Também uma profissional de restaurante que trabalha no time de serviço do Noma, que muita gente considera o melhor restaurante do mundo. Amanhã vou visitar um urbanista que trabalha no escritório mais badalado da cidade mais badalada pelos urbanistas do mundo. Todos brasileiros. Todos felizes de pagar imposto aqui. Todos engajados no projeto de construir uma sociedade próspera e justa.

    Por que aqui eles conseguem, mas aí no Brasil não? Esquerda e direita têm respostas bem diferentes para essa pergunta. “Governo incompetente”, grita a direita; “empresários inescrupulosos”, berra a esquerda – e é difícil argumentar que qualquer uma das duas acusações não seja justa. “Privatiza tudo”, um lado vaticina, “estatiza tudo”, o outro receita.

    E, no entanto, as sociedades que mais deram certo no mundo – como esta aqui de onde vos escrevo – são justamente aquelas que se propuseram a ter tudo, liberdade e justiça, riqueza e felicidade. São aquelas que conseguiram tecer um pacto social que fica bom para todo mundo: as que fornecem educação, saúde, infraestrutura e cuidado para todo mundo, com muita qualidade, e que ao mesmo tempo permitem que os cidadãos se expressem, inovem, ajudem.

    Não é engraçado que tanta gente, dos dois lados da divisão ideológica, aleguem pragmatismo para justificar por que não dá para ter tudo? Mesmo sabendo que a fórmula de nenhum dos dois lados nunca deu certo em país nenhum do mundo? E não é curioso que o caminho de apostar na confiança entre as pessoas e na criação conjunta de um futuro em comum seja tido como ingênuo mesmo sendo comprovadamente o modelo adotado por todos os países mais bem-sucedidos do mundo?

    Sei lá. Sei que é possível, porque posso ver. E termino por aqui porque já são quase 10 da noite e quero estar na rua com minha bicicleta na hora do pôr do sol.

     

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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