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Coluna

Dois países feitos de ilhas de histórias

    Entre Portugal e Israel: não há nação que deixe de usar a história e de selecionar um certo passado para construir sua identidade

    Férias têm a capacidade de nos envolver numa temporalidade especial. Conforme define Thomas Mann, em “A montanha mágica”, elas parecem muito curtas na lógica do dia a dia, e, ao mesmo tempo, longas nas imagens e lembranças que guardamos.

    De um lado, e durante o tempo vivido nas férias, a noção que prevalece é que, mal começadas, elas já terminaram. Os dias passam velozes e perdemos o controle deles. De outro lado, e paradoxalmente, quando recorremos à nossa memória subjetiva, momentos de férias são os mais preservados. Ou seja, lembramos pouco do que ocorreu no tempo breve; eventos que ocorreram um ano atrás, no mês passado e até no dia anterior. Não obstante, quando se trata de rememorar esses intervalos que cavamos no cotidiano suado, lá estão eles, muito bem guardados em nosso repertório mental e visual. Não esquecemos facilmente dos lugares, das conversas, das sensações, dos aromas e das pessoas que conhecemos nessas viagens, que representam deslocamentos geográficos, mas também temporais e afetivos.

    Pois bem, tirei um mês de férias das minhas colunas para o Nexo. E escolhi, justamente, dois países lotados de memória e de história: Portugal e Israel. Aprendi com Benedict Anderson, no seu livro “Comunidades Imaginadas”, que não há nação que deixe de usar a história e de selecionar um certo passado para construir sua identidade. No entanto, existem alguns países que se apoiam mais fortemente neste tipo de narrativa do que outros. Nesses casos, a fronteira entre a não ficção e a ficção torna-se muito porosa e até mesmo perigosa.

    Comecei minha viagem por Portugal – fui a Lisboa e ao Alentejo – e é esse trajeto que sigo por aqui. Uma determinada história lusitana está fortemente inscrita nos museus e monumentos espalhados pelo país, que evocam um passado grandioso, quando se construiu o imenso império dos portugueses que incluía a Ásia, passava pela África e chegava até o Brasil. Eduardo Lourenço, um grande intelectual português, no seu clássico “Mitologia da saudade”, mostra como os portugueses ainda se consideram um povo messiânico e preservam para si a visão de um país “predestinadamente colonizador e oniricamente imperial”. Por isso a saudade se transformou no grande ícone local e se comporta como uma verdadeira mitologia, revisitada por escritores do passado e do presente, românticos e modernistas. 

    O argumento é forte. No entanto, a atual e inegável vitalidade de Lisboa impressiona. As ruas andam lotadas de turistas, o comércio cheio e a cidade parece distante do tom de lamento do fado.  É como se este país, que até bem pouco tempo voltava-se exclusivamente para seu passado, agora mirasse apenas o futuro. Ou, como explicou José Saramago: “há um crepúsculo da tarde que precede a noite e há um crepúsculo da manhã que anuncia o sol”.

    Mas se a capital se equilibra entre exaltar os feitos da história longínqua e descobrir os encantos das grandes metrópoles contemporâneas, já o interior do país ainda convive com o sentimento de isolamento, com a mística do velho sebastianismo, e com uma quietude que faz da saudade uma espécie de brasão da sensibilidade nacional. Um tempo que foi e não volta mais. Um elogio do colonialismo que despolitiza, naturaliza o passado e deixa uma sensação ambivalente nos brasileiros em viagem: a sensação de estar dentro e estar fora, de fazer parte e ser estrangeiro.

     

    Enquanto a experiência em Portugal trouxe muita familiaridade misturada com alguma dose de distância, a viagem a Israel revelou-se bem mais radical. Aliás, duvido que alguém visite esse país e saia de lá indiferente. Esta é, em primeiro lugar, uma terra marcada por contrastes: o deserto, que toma cerca de 60% do território nacional, convive com enclaves verdes e milagrosamente cultivados; um país laico coexiste com um local marcado pela lógica de muitas religiões; cidades cosmopolitas ombreiam espaços que parecem ter ficado parados no tempo; um Estado em guerra, mas que admite um congresso e eleições que seguem modelos democráticos parlamentares; a modernidade que frequenta a tradição.

    Além do mais, neste pequeno espaço de cerca de 20 mil quilômetros quadrados, dez vezes menor que o estado do Piauí, convivem, de maneira tensa, muitos grupos, utopias e histórias. Impressionante pensar como um mesmo cantinho do planeta virou referência sagrada para tantos povos e culturas. O resultado é que por lá a História (com H maiúsculo) funciona tal qual ferramenta de sobrevivência; é bússola que gira em vários sentidos. Cada guia, professor, cidadão, militar, intelectual narra uma outra história, ou melhor, acentua certas partes dela e esquece ou não dá relevância a outras. A população do Estado, em 2012, era de cerca de 8 milhões pessoas, das quais quase 6 milhões eram judias. Mas os números camuflam: os árabes chegam a quase 2 milhões, sendo a maioria muçulmanos, isso sem esquecer das populações de beduínos que vivem no deserto do Neguev, e dos cristãos árabes e outras minorias como drusos, circassianos, samaritanos, maronitas. Como o passado daquele território foi feito de muitos e sucessivos domínios – assírio, babilônico, persa, grego, romano, bizantino e até um breve período sassânido – a própria arqueologia local é estudada a partir de camadas justapostas de civilizações.

    E o local em que esse ruído aparece em volume mais alto é Jerusalém, onde uma verdadeira geografia política desenha e aparta territórios. Uma pílula dessa situação pode ser encontrada na Cidade Velha, ou Cidade Antiga, que é dividida em quatro bairros contíguos: o Muçulmano, o Judeu, o Cristão e o Armênio. Mas essa separação é basicamente simbólica e imaginária, uma vez que não existem marcas claras entre elas.

    Por exemplo, entrar na Cidade Velha pela Porta de Jafa, ou pela Porta de Damasco (Bab el-Amud, na nomenclatura palestina) faz a mais absoluta diferença. Na Porta de Jafa, conta-se basicamente a história judaica, e não é de se estranhar que logo na entrada exista uma mezuzá (em hebraico, umbral; um pequeno objeto colocado na lateral das portas contendo um pequeno rolo de pergaminho com passagens da Torá), um banco e um museu. Lá a narrativa política sugere uma sucessão cronológica que se centra e culmina no Estado judaico.

     

    Nas pequenas vielas que compõem esse lado judaico da Cidade Velha, é fácil topar com judeus ortodoxos reconhecíveis por suas roupas escuras, camisas brancas, chapéus, peiot (cachos laterais) e talit que escapam pelos cantos de seus pesados casacões. Muitos grupos de turistas também visitam a região. Alguns deles procuram refazer a Via Crucis de Jesus – a Via Dolorosa –; outros compram lembranças da Terra Santa; outros ainda tomam suco de romã com laranja, experimentam as comidas locais, onde a grande unanimidade é húmus com falafel e pão pita; talvez o único hábito, de fato, compartilhado. Como escreveu o historiador Boris Fausto, se a língua divide, a alimentação, de alguma maneira, unifica.

     

    Impressão muito distinta é a que se tem ao adentrar a Cidade Velha pela Porta ou Portão de Damasco. Por lá os tipos muçulmanos dominam a paisagem e o policiamento israelense é ostensivo. Nessa parte da Cidade Antiga a tensão da convivência se expressa nas várias batidas do Exército israelense, nas brigas de rua (eu presenciei três), nos assentamentos judaicos em pleno bairro palestino. Conceitos como perigo e segurança são fartamente utilizados de lado a lado e uma única pequena cidade murada mais se parece com um patchwork de realidades. Burka combina com Coca-Cola, a roupa escura dos religiosos não inibe o uso do celular e as casas ostentam seus próprios sinais e formas de identidade

     

    Há também várias igrejas que igualmente lembram das suas próprias histórias. A Basílica da Natividade, em Belém, marca o local de nascimento de Jesus. É, pois, sagrada para os cristãos, mas também para os muçulmanos que consideram que Jesus é o segundo maior profeta. Ela é administrada por vários grupos religiosos – a Igreja Ortodoxa Oriental, a Igreja Armênia e a ordem dos monges franciscanos –que dividem horários de culto, os ganhos auferidos com a visitação e os gastos também. Fenômeno semelhante ocorre na Igreja do Santo Sepulcro, um templo cristão localizado no coração da Cidade Velha, e onde, diz a tradição, Jesus teria sido crucificado, sepultado e depois ressuscitado. Ela também possui uma administração mista; está nas mãos das igrejas Católicas Romana, Católica Ortodoxa, Armênia, Ortodoxa Copta, Ortodoxa Siríaca e Ortodoxa Etíope

     

    Existe, ainda, uma história de “muros”, com todo o significado simbólico que esse termo pode receber. Estou me referindo aos muros que cercam toda a Cidade Velha, mas também ao Muro das Lamentações e a um muro mais recente que começou a ser construído em 2004 e separa Israel da Palestina.

    O Muro das Lamentações é considerado o único vestígio do Templo de Herodes. Seria o que restou de um muro de arrimo e contenção que sustentava uma das paredes do edifício principal, mas que não fazia, exatamente, parte do Segundo Templo destruído pelos romanos no ano 70. Mesmo assim, a proximidade lhe conferiu sacralidade. Nele, reluzem ao Sol as pedras brancas, que são uma espécie de marca registrada da região, bilhetinhos cheios de desejos e as muitas pessoas que rezam concentradas em suas preces. Misturam-se por lá vários credos, mas não gêneros. Às mulheres é reservada uma parte muito menor do que a dos homens, que possuem, inclusive, um local interno e protegido para suas orações.

    Mas há outro muro, mais recente, que narra uma nova memória. Trata-se de uma barreira física que passa em torno e por dentro dos Territórios Palestinos (Cisjordânia e Jerusalém Oriental) e que tem cerca de 760 quilômetros de comprimento. O muro é feito de concreto e é tão enorme como impressionante: em 90% de sua extensão possui 60 metros de largura, e chega a ter 8 metros de altura em vários locais.

     

     Para os  israelenses o muro é uma reação à Segunda Intifada (2000-2005), que representou o auge dos atentados suicidas a restaurantes e boates em cidades como Tel Aviv. Mais uma vez, os termos vertebram em direções diferentes. Intifada em árabe remete à sensação de ter calafrios e sentir medo, mas também a despertar. Em Belém, um pequeno hotel recém-construído, e chamado Walled off (Murado), oferece, como propaganda a “melhor vista para o muro”. Foi do misterioso grafiteiro britânico Banksy a ideia de criar a pousada e a decoração interna. Lá dentro fica um pequeno museu todo voltado para o tema da guerra e da questão Palestina. Mais uma vez a história é lá usada como um player central.

     

      Também são muitas as escolas. Judeus religiosos só ensinam o Talmude (uma coletânea de livros sagrados em hebraico). Não há no currículo geografia, matemática, química e muito menos outras histórias, a despeito do Estado de Israel determinar a educação laica. Esse grupo também se nega a entrar nas fileiras do Exército, e, cada vez mais cientes de seu papel como fiéis da balança na composição do governo de Israel, andam exigindo o cumprimento de seus próprios direitos que implicam, por exemplo, a proibição do transporte público em todos o país no dia do Shabat: da noite de sexta à de sábado. Aí estão, portanto, novos focos de tensão – entre judeus. Isso sem esquecer dos beduínos, povos nômades, polígamos e que vivem no deserto, voluntariamente apartados das cidades e da história mais recente, mas não da sua própria narrativa de origem.

     

    Enfim, é impossível dar conta de uma realidade feita de tantos ângulos, todos à sua maneira defensáveis. Ainda mais arriscado seria julgar a partir de uma breve experiência de dez dias. O fato é que, como historiadora e antropóloga, senti no dia a dia a maneira como esse tipo de conhecimento é manipulado, por todas as partes, e transformado, muitas vezes, em realidades essenciais, diante das quais não há o que e porque discutir.

    Não existe uma história e muito menos receita de narrativa correta.  Tanto que até os nomes ganham por lá significados diferentes. A guerra de 1948 é conhecida pelos israelenses como a Guerra de Independência ou Guerra de Liberação. Já os palestinos a definem como parte de al-Nakba, termo que poderia ser traduzido como “A Catástrofe”. O muro é chamado de Cerca de Separação ou Cerca de Segurança pelos governos israelenses; pelos palestinos, de um Muro do Apartheid. Nomes não têm nada de ingênuo e as disputas que se travam em torno deles mostram como, por vezes, um pequeno deslize e mau uso pode levar a guerras sangrentas e a ódios milenares.

    História é fermento para os discursos de nacionalidade e inflama tal qual fio de pólvora. Infelizmente, não é preciso ir tão longe para ver bem perto. De volta ao Brasil, também me deparei com um país dividido, com cada uma das partes acampada firmemente em um lado da fronteira. Como cantam Aldir Blanc e João Bosco “o mar da história é agitado”.  

     

    PS1. O termo “ilhas de história” é inspirado no título de um famoso livro do antropólogo Marshall Sahlins

    PS2. Todas as fotos são de minha autoria. Quem quiser ver mais, basta entrar no meu Instagram: @liliamoritz

     

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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