Coluna

Divou na prancha: palavras do mar para Marielle Franco

    ‘Mulher, preta, favelada’, vereadora desenvolveu um estilo próprio de ser parlamentar, rompendo com o destino que se esperaria para ela

    Esta semana fui apresentada por uma pessoa querida a Chloé Calmon. Campeã mundial de surf, a jovem desenvolve um estilo que consiste em pegar ondas caminhando, ou melhor, divando em sua prancha. O encantamento com o trabalho dessa carioca foi tão grande que, além de me tornar sua seguidora, decidi fazer uma aula do esporte. De tão incrível, a experiência foi incorporada à minha rotina, que agora consiste em, duas vezes por semana, chegar à praia às seis da manhã.

    No primeiro dia, enquanto estava de caloura no mar, entre remadas, levantadas e quedas, lembrei de uma frase de Angela Davis da qual gosto muito: “precisamos aprender a nos erguer enquanto subimos”. Nem nos meus melhores dias pensei que fosse possível associar a cultura do surf, hegemonicamente branca, ao pensamento da filósofa negra no livro Mulheres, Cultura e Política. Mas funcionou.

    Inicialmente fazendo associações ligadas a razões positivas, sequer desconfiava que o mar viraria, de forma tão brusca e avassaladora. No dia seguinte à aula experimental de surf, 14 de março, vi-me surpreendida, enquanto preparava o jantar, pela notícia da execução de Marielle Franco no bairro do Estácio, no Rio de Janeiro. Pensando na história da vereadora, por quem nutria grande admiração, uma pergunta me veio à cabeça: quais são os desafios de nos erguermos durante a subida?

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    Giovana Xavier é professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Formada em história, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado, por UFRJ, UFF, Unicamp e New York University. É idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras. Em 2017, organizou o catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil.

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