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Coluna

Cenas da praia

    Patriarcado não é uma coisa que os homens fazem com as mulheres

    Fui para a praia com meus filhos, Aurora, a mais velha, Francisco, o bebê. Ela tem 4 anos e caracóis nos cabelos. No que pisou na areia ingressou no ecossistema. Foi habitar o mundo dos minúsculos serezinhos que revestem as pedras, invisíveis a olhos adultos, a não ser que acompanhados de uma criança. Jogou-se nas ondas com sua pranchinha, misturou-se à espuma rasinha por horas seguidas, sem cansar.

    Uma hora afastou-se de todo mundo e foi caminhando sozinha para as pedras no barranco que separa a praia da estrada. Vi, de longe, ela viu que eu vi, fui seguindo-a entre orgulhoso e receoso, tentando dar-lhe espaço o suficiente para que ela pudesse satisfazer o impulso explorador, mas não tanto que não conseguisse apanhá-la no caso de uma queda.

    Enquanto isso, Francisco, de 1 ano e meio, ficou na esteira, debaixo do guarda-sol, com outras crianças pequenas. A mania nova dele é abraçar todo mundo da idade dele: chega sorrindo, põe os bracinhos nos ombros, e pousa a cabeça, satisfeito. Umas crianças curtem, a maioria se assusta um pouco – uma hora tive que intervir enquanto um menininho com uma bola tentava escapar dessa captura afetiva, aos gritos.

    Me ocorreu que, fossem outros os tempos, não seria incomum que algum mané comentasse “este menino é viadinho”, ou alguma chata viesse dar sermão na Aurora e explicar-lhe sobre a atitude de uma menina, com nojo dos bichinhos que ela catava.

    Não sei se eu vou ver um mundo não patriarcal – esses processos de mudanças profundas às vezes levam gerações para se completar e são tão não lineares que costuma haver muitos recuos no caminho de um avanço

    Para mim, claramente, alguma chave mudou no mundo, e é uma chave que estava numa mesma posição desde que os bandos de humanos nômades da África explodiram sua população graças à invenção da agricultura, há uns 12 mil anos – uma revolução que daria origem a sociedades mais complexas, com relações de poder mais intrincadas. Desde esse momento, o patriarcado vigora em praticamente todas as sociedades humanas e, de acordo com ele, há papéis reservados às mulheres e há papéis reservados aos homens. Há também uma desigualdade na distribuição do poder, que fica quase todo com os homens.

    O patriarcado continua em vigor, muito. Não é essa a chave que mudou, ainda – dê uma olhadinha nestes dados para ver como o poder continua quase integralmente masculino, ou nestas estatísticas para entender como esse poder é exercido (na bordoada, claro). O que mudou é que parece que as pessoas no mundo todo estão se dando conta de que não pode ser assim, de que esse regime é um absurdo. A ponto de que, se aparecesse alguém para reprimir meu filho ou minha filha por eles não obedecerem aos papéis tradicionais de gênero, ia ouvir uma resposta dura e provavelmente sairia da praia com o rabo entre as pernas. (Ou talvez furioso querendo votar no Bolsonaro para colocar essas feministas no devido lugar – as pessoas não aceitam crítica muito bem.)

    Não sei se eu vou ver um mundo não patriarcal – esses processos de mudanças profundas às vezes levam gerações para se completar e são tão não lineares que costuma haver muitos recuos no caminho de um avanço. Mas sei que nem eu nem a maioria dos meus amigos e amigas nunca mais vamos ouvir um mané desses ou uma chata daquelas e ficar calados – vamos proteger nossos filhos de sentirem vergonha por terem prazer fazendo coisas que alguém disse que são “de menino”, ou “de menina”.

    Óbvio que o patriarcado é um regime no qual homens oprimem mulheres. Mas, se for olhar bem de perto, assim como a Aurora fez com as pedras cobertas de sirizinhos e ostras e buraquinhos que se fecham quando se aproxima o dedo, é muito mais complexo que isso.

    Homens também são oprimidos – proibidos de abraçar, por exemplo. E mulheres também oprimem – as chatas que patrulham o mundo colocando limites no que é “a atitude de uma menina”, por exemplo.

    Sinto que às vezes o debate fica tão polarizado que essa complexidade incrível acaba se perdendo – fica parecendo que discutir o fim do patriarcado é uma questão de homens vs. mulheres. Ninguém lembra que Donald Trump, o molestador-em-chefe, que se elegeu presidente dos Estados Unidos com um discurso misógino, recebeu a maioria dos votos entre as mulheres brancas. Não lembra também do tanto de homem que se sente igualmente oprimido pelo patriarcado – porque dança balé, ou gosta de ler, ou não joga futebol, ou não comeu aquela menina, ou deu de abraçar toda criança que encontra.

    Claro que a opressão se dá de maneira diferente para homens e mulheres – eles ganham um trauma psíquico, elas, um olho roxo, uma costela quebrada. Eles ficam descontrolados. Elas morrem assassinadas. Mas patriarcado não é uma coisa que os homens fazem com as mulheres: é um jeito de homens e mulheres viverem. Patriarcado não está nos homens – está na sociedade toda, é como a água do mar, que circunda cada ser aquático, determinando a forma como eles se movem ou como se relacionam uns com os outros.

    Matar o patriarcado não é questão de as mulheres vencerem os homens – é questão de cada um de nós matar o patriarcalista que vive em si.

     

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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