Cólica, dor de cabeça, corrupção; medo, fogo, enchente, revolução. Não tem problema: tudo tem solução. Basta ligar um bom motor a combustão.

Nas últimas semanas, o caos tomou o Brasil. (E eu me surpreendi de ver o quanto que o caos pode ser tranquilo: o trânsito de São Paulo parecia o de uma cidadezinha do interior. O ar limpou-se tanto que até as estrelas apareceram no céu – eu nem lembrava mais delas. E aquela correria com a qual todo mundo leva a vida aqui na megalópole de repente evaporou, diante do fato de que, com tudo atrasado, ninguém mais se sentia atrasado.)

Mas, enfim, foi o caos, ninguém nega. E se resolveu na canetada, com nosso presidente em exorcismo decidindo que o governo iria subsidiar diesel, para baixar o preço do litro em R$ 0,46, e assim convencer os caminhoneiros a parar de bloquear estradas e voltar a ficar em casa esperando alguém aparecer com uma entrega para fazer – algo que acontece raramente, porque a economia está parada (e vai continuar assim, pelo jeito).

E dessa forma, em pleno 2018, o Brasil se pôs a criar incentivos para estimular a venda de óleo diesel – que beleza de país moderno este nosso. A queda de preço foi bancada em parte com cortes nos investimentos em educação. Afinal, quem precisa de jovens bem formados para construir o futuro, quando pode se entorpecer numa boa nuvem de fumaça preta?

Temer e seus patetas só atrapalharam durante a crise, óbvio – como previsto, a falta de legitimidade de sua gestão mais uma vez resultou em apoio popular a qualquer um que se oponha a ele e numa conta mais alta para todos nós pagarmos (ninguém negocia pior do que alguém indigno de confiança). Mas justiça seja feita: nesse ponto, o atual governo agiu como sempre age quase todo mundo neste vasto Brasilzão véio sem ferrovia.

Tudo que acontece no Brasil, de bom ou de ruim, tem sido, na última metade de século, razão para aprofundar ainda mais nossa dependência severa de combustível fóssil.

Tem sido assim desde que Washington Luís (o político, não a rodovia) declamou há quase um século que “governar é abrir estradas”. De lá para cá, o país se convenceu de que gasolina é uma panaceia – um remédio que cura tudo. Rolou recessão? Fácil resolver: basta dar incentivos ao rodoviarismo, espalhando dinheiro pelas longas cadeias de produção da indústria automobilística, para alimentar a economia. Ah, agora é inflação? Opa, tranquilo: toca a incentivar o rodoviarismo, já que o preço de transportar pela estrada reflete no preço de todo o resto neste país onde quase só se transporta pela estrada.

Como bem notou a jornalista Natália Garcia, especialista em cidades, somos dependentes do petróleo – ela imaginou São Paulo, diante de qualquer problema, entrando num bar e pedindo uma dose de gasosa para esquecer. Só que a dose só serve para piorar o problema. Tudo que acontece no Brasil, de bom ou de ruim, tem sido, na última metade de século, razão para aprofundar ainda mais nossa dependência severa de combustível fóssil.

E não se iluda, essa é uma doença que ataca pela direita e pela esquerda. No Brasil, é normal na esquerda achar que empresa de petróleo é patrimônio do povo, sem se importar que o país queime na Petrobras o que podia ser investido em saúde e educação. Já na direita é comum defender que o Estado interdite a liberdade de ir e vir sem motor, com políticas públicas voltadas só para uma minoria que resultam no atropelamento de milhares de pedestres e ciclistas. Na esquerda, há a crença de que prosperidade é comprar um carro em prestações, mesmo com serviços públicos vergonhosos. Na direita, acredita-se que dá para ter uma economia competitiva mesmo transportando tudo de caminhão, o meio de transporte de carga mais caro e inseguro que existe. Nem um lado nem o outro leva muito a sério esse negócio de mudança climática, parece que é invenção para vender documentário da BBC.

Aprendi com a cientista política Terry Karl, da Universidade Stanford, que, se você pegar dois países semelhantes em tudo – história, cultura, geografia – sendo que um tem muito petróleo e outro não, quase invariavelmente aquele que tem é mais pobre (além de mais corrupto e menos democrático). Isso se deve a um fenômeno que ficou conhecido como “a maldição do petróleo”, um mistério que foi finalmente desvendado nos últimos anos.

Não, a tal maldição não é causada por espíritos malignos que nos assombram por termos violado algum cemitério de dinossauros. Trata-se de uma combinação cruel de fatores políticos e econômicos – tem a ver com a valorização excessiva da moeda de qualquer país exportador de óleo, que mata a indústria local, incapaz de exportar, combinada com a flutuação extrema do preço da commodity, por se tratar de um mercado manipulado demais, somado a um enfraquecimento das instituições políticas e a uma desvalorização do cidadão provocadas por um governo viciado em royalties e uma oposição sem compromisso com o bem público.

Escrevi sobre isso uma década atrás, quando ainda tinha gente que achava que a descoberta do pré-sal podia ser boa notícia para o Brasil. Sem querer dar uma de Mãe Dinah, lê lá e me diz se eu não estava certo. Não acho que seja coincidência que este país tenha ido para a cucuia de lá para cá – nem que o escândalo que nos consumiu a todos tenha entrado em metástase a partir da Petrobras.

Natália concluiu que o que o Brasil precisa é de rehab (e, acrescento, de alguém que cuide dele melhor do que cuidaram da Amy). Significa resistir à tentação de entrar no bar e pedir outra dose e optar por um caminho que, hoje, no desespero da abstinência, parece até absurdo: bicicleta, trem, compostagem, navegação, reflorestamento. Significa, veja você, usar gás do cocô nosso de cada dia como combustível, ou para cozinhar.

Não, não estou bêbado. É sério.

Denis R. Burgierman  é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. Foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, comandou a curadoria do TEDxAmazônia, e fez parte do time que criou o Greg News, primeiro comedy news da TV brasileira.
Escreve quinzenalmente, às quintas-feiras.

 

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