Ainda não, pelo menos. Esperemos que não se torne (pelo nosso bem, e pelo dele)

“Enxergo o fascismo e as políticas fascistas como ameaças mais violentas à liberdade, à prosperidade e à paz internacionais do que em qualquer outro momento desde a Segunda Guerra Mundial”. Quem escreveu esse alerta, num livro lançado neste fatídico 2018, sabe bem do que está falando: conhece o fascismo de perto. Trata-se de Madeleine Albright, 81 anos, duas vezes fugida de sua Tchecoslováquia natal – primeiro do nazismo, depois do comunismo –, primeira mulher secretária de Estado do país que a recebeu como refugiada, os Estados Unidos, cargo que a levou a visitar ditadores rotineiramente. A Secretaria de Estado é o Itamaraty dos americanos.

No livro “Fascismo – Um Alerta”, Albright, professora de diplomacia e especialista em democracia, compara dirigentes autoritários dos anos 1920 e 30 com uns bem mais recentes, deste complicado século 21, e encontra muitas semelhanças. Depois de décadas acumulando avanços democráticos, o mundo hoje está cheio desses novos tipos de tiranos – Maduro na Venezuela, Erdogan na Turquia, Putin na Rússia, Orbán na Hungria, Duterte nas Filipinas, Trump nos Estados Unidos, Kim Jong-un na Coreia do Norte (o único deles todos a quem a autora não tem dúvidas de dedicar o adjetivo que tão bem caía a Mussolini e a Hitler: “fascista”). Todos com discurso virulento, o hábito de desumanizar adversários e uma máquina de violência e desinformação ao seu serviço.

Bolsonaro não aparece no livro, lançado antes de sua vitória eleitoral. Ele não ganhou um capítulo porque, pelo critério de Albright, não existe fascista sem poder (ela considera que fascismo não é uma ideologia: é uma forma de tomar e exercer o poder, criando uma realidade paralela, alimentando-se de ódio e gradualmente concentrando poder). Portanto, Bolsonaro não é fascista: não teria como ser, já que nunca teve muita influência. Como deputado de segunda categoria de partidos fisiológicos e corruptos como o PP e o PTB, passou décadas no baixo clero, sem tomar parte de comissões importantes, sem influência nas principais votações, sem quase nunca aprovar uma lei – numa posição que provavelmente não lhe rendia nem sequer boas oportunidades de ser corrupto. Mas estava sempre na mídia, por causa das declarações truculentas e absurdas, que a imprensa por muito tempo tratou em tom de chacota.

A princípio, talvez não pareça a descrição de um facínora. A não ser que você conheça a história dos verdadeiros facínoras – e Albright conhece. Apesar da aura de gênios do mal que tiranos como Mussolini e Hitler ostentam hoje, antes de conquistarem o poder eles também foram tidos como piadas pelo establishment de seus países. Seus discursos fantasiosos e cheios de ódio, inicialmente proferidos em porões ou calçadas, tinham um quê de nonsense – e o grotesco deles tirava um pouco do senso de realidade daquelas palavras violentas.

Bolsonaro não é um fascista. E, se é verdade que está bem encaminhado para tornar-se um, acredito de verdade na capacidade deste país, de sua população e de suas instituições de se erguerem à altura da ocasião e ajudarem a evitar o pior

Se não tivessem chegado ao poder, essas figuras não teriam tido muita consequência – Albright inclui em seu livro a história de vários líderes simpatizantes do fascismo que nunca conquistaram grande influência e portanto tiveram seus nomes esquecidos. Mas há momentos da história e lugares no mundo em que figuras assim tornam-se populares. “Em especial se estivermos assustados, com raiva ou confusos, podemos nos sentir tentados a abrir mão de bocados da nossa liberdade – ou, o que dói menos, da liberdade de outros – na busca por rumo e ordem.” Nessas horas, homens autoritários, sem papas na língua para colocar a culpa de todos os problemas em alguém que não é ele nem eu eleitor, começam a ter mais facilidade de ganhar a confiança na população, “e isso quase sempre se dá pela percepção de que são mais decididos e seguros em seus julgamentos”, segundo Albright.

Bolsonaro não é um fascista, mas na check list elaborada por ela para identificar um candidato a fascista, ele mitou. A ex-secretária de Estado alertou os eleitores do mundo para, antes de votar em alguém, fazerem-se nove perguntas: 1) ele explora preconceitos tratando pessoas diferentes como indignas de respeito?, 2) tenta direcionar nossa raiva para um projeto de vingança?, 3) incute desprezo pelas instituições e pelo processo eleitoral?, 4) ataca a fé em instituições como a imprensa livre?, 5) usa símbolos da pátria como a bandeira para jogar-nos uns contra os outros?, 6) nega-se a aceitar o resultado das eleições caso perca?, 7) gaba-se de ser capaz de resolver todos os problemas?, 8) fala casualmente, de forma exaltada e viril, sobre usar violência para dar cabo dos inimigos?, 9) acha desnecessário informar o povo de seus verdadeiros projetos? Nas minhas modestas contas, antes das eleições, o candidato Jair Bolsonaro gabaritou neste teste: nove de nove.

Bolsonaro não é um fascista. É um pobre homem, devorado pelo ressentimento (descrição que caberia bem a praticamente todos os autoritários que listei acima, inclusive os do século 20). É alguém disposto a mentir em nome de um ódio que verdadeiramente sente – e a verdade desse ódio soa a quem odeia também como prova de sinceridade. Possui também, ao que tudo indica, os recursos fundamentais para construir uma tirania: uma máquina de propaganda e desinformação (movida a WhatsApp), apoio das forças de segurança e muita proximidade com grupos paramilitares, como as milícias que controlam vastos territórios no Rio de Janeiro e cujos membros povoam muitos dos grupos de WhatsApp por onde a desinformação vem fluindo. Enfim: tem todas as características dos homens que acabariam por tornar-se fascistas, depois de conquistarem o poder.

Afinal, “o poder, como sabemos, é um vício do qual somos propensos a abusar”, nas palavras de Albright. Homens de valores iliberais, temperamento violento e mágoa no coração frequentemente lidam mal com poder demais e transformam-se em monstros quando têm a chance. A virulência de seu discurso faz de Bolsonaro um candidato forte ao título – talvez mais forte que Maduro, Erdogan ou Orbán.

Mas ninguém transforma-se em fascista num país com instituições capazes de resistir, por mais que queira. Trump, por exemplo, não consegue virar tirano de fato – “se transplantado para um país com menos garantias democráticas, tentaria ser ditador, pois esse é seu instinto natural”, diz a ex-secretária. Já Duterte, nas Filipinas, consegue: ele pode ser diretamente responsabilizado pela execução extrajudicial de dezenas de milhares de pessoas, acusadas com ou sem provas de envolvimento com drogas – as instituições fracas do país permitiram.

Ao Brasil, impõe-se uma decisão histórica: estamos mais para Filipinas ou para Estados Unidos? Nos próximos quatro anos, resta-nos vigiar. Será mal sinal se Bolsonaro continuar seguindo à risca a cartilha fascista: acirrar ainda mais os ânimos e exaltar os ódios, tentar enfraquecer o Congresso ou diluir o Supremo e concentrar mais poder para si, perseguir ou fechar órgãos independentes da imprensa, banir partidos políticos ou pensamentos, censurar a cultura, controlar o que a escola ensina, invadir ou fechar universidades, reprimir com violência manifestações pacíficas, espionar os cidadãos, executá-los…

Lembremo-nos que não será fácil. Albright resgata as palavras de um sobrevivente do Holocausto como advertência: “viver esse processo é ser absolutamente incapaz de reparar nele – tente acreditar em mim, por favor… Cada passo era tão pequeno, tão insignificante, tão bem explicado, que... éramos incapazes de enxergar o desenvolvimento diário da coisa, assim como um fazendeiro não percebe o crescimento do milho…”

Bolsonaro não é um fascista. E, se é verdade que está bem encaminhado para tornar-se um, acredito de verdade na capacidade deste país, de sua população e de suas instituições de se erguerem à altura da ocasião e ajudarem a evitar o pior. Acredito inclusive na capacidade do próprio Bolsonaro de desviar dessa rota. Afinal, é interesse dele tanto quanto do resto de nós. Tiranos são ruins para seus países, mas nem por isso são bons para si próprios. O precedente histórico mostra que eles tendem a terminar mal – condenados em tribunais internacionais, fuzilados pelas suas próprias tropas, acuados até o suicídio, linchados pelo povo. Não vale a pena. Para ninguém.

Denis R. Burgierman  é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. Foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, comandou a curadoria do TEDxAmazônia, e fez parte do time que criou o Greg News, primeiro comedy news da TV brasileira.
Escreve quinzenalmente, às quintas-feiras.

 

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