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Coluna

Abril e o Brasil

    Roberto Civita sabia que diversidade é a maior riqueza que ele podia buscar. Mas parece que sua empresa esqueceu disso

    Conheci Roberto Civita numa tarde há 12 ou 13 anos. Eu já o havia visto muitas vezes, pelos corredores da empresa, onde eu trabalhava e ele dava ordens. Mas, até então, eu era só um entre os milhares de rostos impressos nos crachás com o logotipo da árvore verde. Naquela tarde, pela primeira vez, sentei à frente dele.

    Eu tinha acabado de assumir o comando de uma entre as dezenas de revistas de sua propriedade, a “Superinteressante”. Fui à sua vasta sala envidraçada no 26° andar acompanhado de meu chefe de então, o Adriano Silva, que tinha cometido a temeridade de me entregar a responsabilidade, eu mal passado dos 30.

    Entrei, sentei com São Paulo aos meus pés, ele abriu um daqueles sorrisos imensos dos quais era capaz e, com seu improvável sotaque meio americano, perguntou: “Quando vocês escolhem as ilustrações, vocês querem que seja feio ou erram mesmo?”

    A conversa seguiu daí para baixo: ele começou a discordar de quase todas as escolhas que fazíamos. Na época, eu tinha bem mais arrogância que juízo, e discordei enfaticamente. Eu tinha índices de satisfação em alta para exibir – e também números crescentes de venda.

    “A revista não é para você, doutor Roberto. É para gente mais jovem que você”, concluí, e ouvi escorregar a frase da minha boca com uma agressividade maior do que a que eu pretendia. Senti o Adriano soltar um meio suspiro ao meu lado, como quem folheia mentalmente uma lista de editores no mercado, pensando em alternativas à disposição.

    Mas não. O fato é que naquela tarde ganhei a confiança do “doutor” Roberto. Daí para a frente, ele me encomendava pesquisas e me mandava visitar redações pelo mundo. Pedia minha opinião sobre o que fazer com títulos problemáticos.

    Seu maior prazer era papear com seus editores. Para mim, contava histórias da faculdade nos Estados Unidos – estudou física nuclear antes de se conformar com o destino de herdeiro de magnata da mídia – e me mostrava que amava ciência e entendia do assunto. De vez em quando opinava sobre a “Super” – muitas vezes em tom de crítica. Não gostava de ler nossa revista.

    Anos depois, ele organizou um curso de editores e me convidou para a segunda turma. Só aí, nas aulas que ele dava, entendi por que ele me respeitava, apesar de não gostar da revista que eu ajudava a fazer. Eu tinha dado a resposta certa para a primeira pergunta que ele me fez: “a revista não é para você”. É que ele era um profissional da segmentação. Aprendeu com o pai – o idolatrado “seu” Victor Civita – que sua maior riqueza era a diversidade, e por razões bem pragmáticas. Se a empresa dele queria conversar com vários públicos, de maneira a publicar anúncios para eles, precisava aprender a conviver com vários tipos de gente. Não é à toa que seu Victor empregou na época da ditadura mais esquerdistas do que o PT tem hoje filiados: sabia que precisava conversar com todos os setores da sociedade.

    Não é que Roberto Civita confiasse em mim apesar de não gostar da minha revista: ele confiava em mim porque ele não gostava da minha revista. Sabia que eu fazia revista para alguém diferente dele e achava bom: se eu fizesse como ele, não atingiria meu público, que era imenso (a “Super” teve naquela época uma das maiores circulações do Brasil: quase meio milhão por mês).

    Por causa disso, a Abril para mim foi uma universidade. Convivi lá com uma quantidade imensa de talento – e mais que tudo, com uma diversidade impressionante. Havia uma editora, a Marília Scalzo, que entre um fechamento e outro, viajava o Brasil em busca de gente diferente uns dos outros: designers de Olinda e Santa Maria, jornalistas de Aracaju e Belém, fotógrafos de Porto Alegre e Belo Horizonte. Era uma busca permanente por diversidade. Nessa diversidade, encontrei minha turma (inclusive acabei casando com a tal designer de Olinda que citei aí em cima).

    A empresa foi vítima de um coquetel de crises simultâneas: da mídia impressa no mundo, da economia no Brasil, da sucessão na família. Mas tenho para mim que a maior de todas as crises foi de confiança

    Conto essa história para explicar por que foi tão chocante para mim quando, depois de um tempo experimentando coisas diferentes, voltei para a Abril, no final de 2012. Encontrei lá – e vi chegar cada vez mais – gente autoritária, adepta do pensamento único. Havia um clima burocrático, quase o estereótipo de estatal – gente sem querer se expor, sem coragem de propor diferente, com um discurso “o chefe quis assim”. O chefe, no caso, ainda era o mesmo doutor Roberto, no finalzinho da vida, amargurado com assuntos de política, talvez jogando suas frustrações na revista sobre a qual mais tinha influência, a Veja, que virou um pote de fel, mais preocupada em influir na política do que em fazer jornalismo de verdade.

    A coisa desandou de vez quando Roberto morreu, em 2013, e deixou a empresa para filhos desinteressados. O espaço para a diversidade foi rareando. Eu via colegas talentosos de cabeça baixa no elevador, envergonhados. Num dia de 2016, a esposa de um dos vários presidentes executivos que a Abril teve nesses tempos turbulentos comentou em seu Facebook que “o Nordeste colocou Dilma no Planalto, agora um nordestino não quer deixá-la sair. Depois dizem que somos preconceituosos, será mesmo?” (era uma referência ao deputado Waldir Maranhão, do estado de mesmo nome, que tentou parar o impeachment). Em reação, um ótimo designer pernambucano de uma revista da Abril perguntou no Facebook “se eu ofender essa senhora, serei demitido?” Foi, no dia seguinte. Segundo a explicação que lhe deram, por corte de custos.

    Pouco depois, assim que Dilma caiu, o mesmo presidente da empresa enviou um email esquisito para os editores: um texto confuso, no qual não dizia diretamente, mas insinuava que era hora de pegarmos leve com Temer. Escrevi para ele em busca de esclarecimentos, ele nunca respondeu. Após a morte de Roberto, não fui mais convidado ao 26°.

    A “Super” não tratava de política partidária, mas também não fugia de assuntos polêmicos. Mencionamos Temer em notinhas, geralmente para a internet – nada muito pesado, mas com olhar crítico. Marcamos cerrado a falta de noção de sua política agrária e de sua agenda científica, apontamos os riscos que ele representava para a democracia, desmentimos desinformação. Um dia recebi o pedido explícito de que não mais falássemos de política, nem em notinhas na internet. E que evitássemos mencionar Temer. Declinei. Disse que isso – evitar um tema inteiro, ainda mais um que nos dava tanta audiência – eu não poderia fazer. Não combinava com a forma como eu via o serviço que eu prestava ao meu público.

    Fui demitido semanas depois, também por corte de custos, na explicação oficial – e quem há de negar que uma empresa que perde centenas de milhões ao ano precise mesmo cortar custos?

    Não é fácil diagnosticar a doença terminal que acometeu a Abril e que a colocou naquilo que desde a grande demissão da semana passada parece ser a embicada final de sua história. A empresa foi vítima de um coquetel de crises simultâneas: da mídia impressa no mundo, da economia no Brasil, da sucessão na família. Mas tenho para mim que a maior de todas as crises foi de confiança. A uma certa altura de sua história notável, a editora esqueceu de que precisava falar com todo mundo. E embarcou na canoa furada de ter um projeto político e usar suas capas para fazer campanha de ataque a reputações – sem se dar conta de que isso acabaria machucando a sua própria. A ironia é que, quando percebeu e tentou mudar de rumo, colocando a Veja nas mãos mais moderadas de André Petry, um jornalista de verdade que tentou fazer uma revista equilibrada, foi vítima de suas próprias criações. A direita irracional, cultivada pela Veja, passou a acusá-la de petismo, e abandonou-a também. André Petralha, eles dizem.

    A crise da mídia é global, mas há pelo mundo empresas que a estão enfrentando com dignidade, cabeça erguida e dedicação ao melhor jornalismo possível. Por exemplo, o “New York Times”, que também perdeu centenas de milhões, mas seguiu trabalhando sério, inovando, fazendo reportagens e produtos incríveis, e parece que já saiu do outro lado do túnel – vem lucrando dezenas de milhões de dólares ao ano, engordados pela eleição de Trump, que convenceu os americanos de que eles precisavam financiar bom jornalismo.

    Para a Abril, infelizmente, parece tarde demais para encontrar uma saída dessas. A empresa não esteve à altura deste país diverso – não esteve nem à altura dos valores pragmáticos de seus dois primeiros donos. Pena, foi um bom lugar. Que seu desaparecimento próximo abra espaço para coisas melhores.

     

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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