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Coluna

A migração, seus custos e benefícios

    Pesquisas feitas por economistas mostram que a entrada de imigrantes não está necessariamente associada a perdas para trabalhadores nativos

    Nos últimos 15 anos, o número de migrantes internacionais cresceu mais rápido do que a população mundial. Eles passaram de ser 2,8% da população em 2000 para 3,4 % em 2017. Algumas regiões como a Ásia, a Europa e os Estados Unidos receberam a maior parte desses migrantes. Na Europa, por exemplo, o número aumentou de 56 milhões em 2000 para 78 milhões em 2017.

    O aumento de fluxos migratórios veio acompanhado de um crescimento de movimentos políticos anti-imigração. Em quase todos os países europeus ganharam força partidos de direita, como os Democratas Suecos ou a coligação composta pelo Movimento Cinco Estrelas e a Liga do Norte eleita recentemente na Itália. Em trabalho recente os economistas Sascha Becker e Thiemo Fetzer, da Universidade de Warwick, mostram que lugares no Reino Unido que receberam um maior número de migrantes da Europa a partir de 2004 tiveram um aumento significativo nos votos do Ukip (Partido Independente do Reino Unido, de direita) nas eleições para o Parlamento Europeu. Os economistas Martin Halla, Alexander Wagner e Josef Zweimuller documentam um processo similar no trabalho "Immigration and Voting for the Extreme Right", publicado no prestigioso Journal of European Economic Association em 2017. Eles mostram que o aumento de migrantes está associado ao crescimento da direita na Áustria.

    Mas por que a população local em diversos países rejeita a chegada de migrantes? Grande parte dessa rejeição advém da percepção de que eles roubam empregos da população local. O economista George Borjas, da Universidade de Harvard, é um dos maiores defensores dessa ideia. Em seu livro mais recente "Immigration Economics" ele argumenta que processos de migração geram efeitos negativos para países receptores, principalmente para trabalhadores não qualificados. Esta visão, e a evidência apresentada por ele, é amplamente criticada por muitos outros economistas que estudam os efeitos da migração como David Card e Giovanni Peri. Eles argumentam que aumentos do número de migrantes geram efeitos pequenos, tanto em salários como emprego de trabalhadores nativos.

     Um aumento de migrantes não está necessariamente associado a perdas para trabalhadores nativos conforme promovido por muitos políticos anti-imigração

    Um teste dessas teorias poderia ser feito de forma clara se tivéssemos um local que repentinamente expulsou seus migrantes e pudéssemos observar o que aconteceu com os salários locais. Apesar de não podermos fazer isso num laboratório, esse experimento natural aconteceu nos Estados Unidos no anos 1960.

    Entre 1942 e 1964, o México teve  um acordo bilateral para regular a entrada temporária de trabalhadores com pouca qualificação nos Estados Unidos. O programa de trabalhadores braceros, como ficou conhecido, chegou a suprir meio milhão de pessoas para fazendas americanas através de contratos temporários que variavam de seis semanas a seis meses. O programa foi encerrado em 1964 e os economistas Michael Clemens, Ethan Lewis e Hannah Postel recuperaram dados históricos para testar o efeito do seu término em mercados de trabalho locais. No artigo "Immigration Restrictions as Active Labor Market Policy: Evidence from the Mexican Bracero Exclusion", publicado na American Economic Review em 2018, eles compararam locais com uma alta proporção de trabalhadores agrícolas sazonais braceros com locais onde a presença dos braceros era baixa. Os resultados encontrados mostram que a saída dos migrantes temporários das fazendas não gerou efeitos significativos sobre salários e emprego na agricultura.

    A interpretação dos autores é que trabalhadores locais não queriam fazer as tarefas de baixa qualificação executadas na época por mexicanos temporários. As fazendas responderam às restrições utilizando inovações tecnológicas e substituindo o trabalho não qualificado de migrantes por capital no lugar de trabalhadores locais. Assim, os trabalhadores locais não se beneficiaram com a restrição de migrantes no mercado de trabalho.

    As evidências discutidas acima mostram que um aumento de migrantes não está necessariamente associado a perdas para trabalhadores nativos conforme promovido por muitos políticos anti-imigração. Mais do que isso, uma crescente evidência mostra que regiões e países com maior diversidade étnica e de nacionalidades crescem mais no longo-prazo.

    No Brasil, municípios que receberam mais estrangeiros alfabetizados no final do século 19 e começo do século 20 são hoje significativamente mais ricos do que aquelas localidades que receberam menos estrangeiros. Nesse sentido, num momento em que o mundo se fecha para migrantes qualificados de várias regiões, o Brasil poderia se abrir em busca de mais diversidade.

    Claudio Ferraz é professor da Cátedra Itaú-Unibanco do Departamento de Economia da PUC-Rio e diretor científico do JPAL (Poverty Action Lab) para a América Latina. É formado em economia pela Universidade da Costa Rica, tem mestrado pela Universidade de Boston, doutorado pela Universidade da Califórnia em Berkeley e foi professor visitante na Universidade  Stanford e no MIT. Sua pesquisa inclui estudos sobre as causas e consequências da corrupção e a avaliação de impacto de políticas públicas.

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