A verdade é que cada um de nós carrega um pouco de “good guy” e um pouco de “bad guy” dentro de si

Tenta lembrar do pior dia da sua adolescência. Desculpa te pedir isso, sei que você, se for como a maioria de nós, humanos, vem tentando esquecer esse dia há anos – a humilhação, a vergonha, a decepção, a sensação de inadequação, de impotência, de incompreensão, de estar perdido, sozinho, encurralado. O medo.

A raiva.

Né? Sabe do que estou falando?

Muitos de nós bloqueamos para sempre essas lembranças sombrias de nossa história, mas quase todos, em algum grau, em algum momento, experimentaram isso. É natural – saudável até. Faz parte de crescer – sentir essas coisas é um marco importante da transição difícil entre a proteção da infância e a responsabilidade da vida adulta.

Lembrou do dia? Lembrou do ódio que você sentiu nessa ocasião, talvez de si mesmo, talvez projetado para fora em alguém?

Imagina agora o que teria acontecido se, naquele dia terrível, você entrasse numa sala e aparecessem na sua frente, alinhadas, todas as pessoas que naquela época você culpou por tudo que dava errado na sua vida. E imagine que, nesse momento, você estivesse correndo, aos gritos, com o vento batendo na sua cara e uma metralhadora semiautomática carregada e destravada nas mãos e o seu dedo estivesse pousado sobre o gatilho mole.

O que você faria?

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Pensei nisso depois de ouvir a voz trêmula do garoto de 19 anos, gravada ao telefone pela polícia. Tinha sido o próprio menino que havia ligado para o 911, depois de explodir de raiva na casa de uma amigo, socá-lo na cara, fazer ameaças terríveis e sair correndo porta afora. Na gravação, aos prantos, o rapaz explica para a policial que havia perdido a mãe alguns dias antes e que vinha sendo difícil lidar com as emoções desde então. Ele parecia assustado.

Ouvi essa gravação no The Daily, o ótimo podcast do New York Times, que também encontrou o registro de uma outra ligação para a polícia, feita naquele mesmo dia de novembro de 2017, pela mãe do outro menino, o que levou o soco. Na gravação, a mãe dá alguns detalhes a mais: que aquele menino assustado e raivoso tinha várias armas, e que ele estava indo para uma loja buscar mais uma, uma arma de guerra. O nome do menino era Nikolas Cruz.

Naquele dia, a polícia encontrou Cruz, levou-o de volta para a casa do amigo, eles fizeram as pazes, se abraçaram, a mãe e o amigo disseram que não prestariam queixa, porque o outro já estava sofrendo demais, e a polícia foi embora. Nikolas ficou com as armas.

Dois meses depois, você ficou sabendo da existência de Nikolas Cruz. Foi quando ele entrou na escola, de onde havia sido expulso, portando um rifle AR-15, igual ao que os soldados americanos usam em guerras. Sete minutos depois, 17 pessoas estavam mortas.

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No estado americano onde Cruz vive, a Flórida, é fácil comprar um revólver – basta ir a uma entre muitas lojas, escolher seu modelo preferido, mostrar os documentos e voltar no dia seguinte. Se você não tiver histórico criminal nem de doença mental, você sai da loja com a arma nessa segunda vez.

Mas isso quando é um revólver. Comprar uma semiautomática, como a AR-15, capaz de disparar duas balas mortais por segundo e de produzir uma carnificina antes mesmo que o segurança armado entenda o que está acontecendo, é mais fácil ainda. É possível no estado entrar na loja e sair com a semiautomática no mesmo dia, sem nem esperar as tais 24 horas.

Acreditar que só loucos e monstros matem é comum – e é compreensível. Ajuda-nos a acreditar que o mal está sempre no outro e a esquecer de nossas próprias sombras, aquelas que passamos a vida tentando esquecer. O monstro é sempre o outro

Sabe por que é mais fácil comprar um rifle semiautomático capaz de matar uma multidão do que um revólver simples, que precisa ser recarregado depois de apenas oito tiros? Porque semiautomáticas são armas da moda, que os jovens adoram – graças aos videogames e às histórias de guerra – e que portanto dão muito lucro. Por causa disso, a indústria de armas investe pesado em fazer lobby junto aos congressistas para facilitar a compra desse produto – mais do que investem para promover vendas de revólveres, um produto que apela a gente mais velha e que não rende tanto dinheiro. Tanto da legislação é escrito com base em interesses desse tipo.

É esse lobby  das armas, poderoso também aqui no Brasil, que convenceu boa parte dos Estados Unidos da história de que é positivo facilitar a venda de armas para cidadãos “de bem”, até para que eles possam defender o resto de nós dos verdadeiros bandidos. É a tese de que é bom que haja em todo lugar um “good guy with a gun”, sempre pronto para reagir quando surgir um “bad guy with a gun”. Donald Trump levou essa história a um patamar inédito ao sugerir que professores deem aulas armados.

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O problema dessa tese é que ela é tremendamente ingênua. Ela parte do princípio de que o mundo está dividido entre “bad guys” e “good guys” e que é fácil distinguir um do outro. De que é fácil saber se alguém é uma pessoa boa, que portanto tem direito de carregar armas. Só que não é.

Nos Estados Unidos, em geral, pode comprar arma qualquer um sem registro criminal nem histórico de doença mental. Pois bem: Nikolas Cruz, como a maior parte dos atiradores que cometem crimes como o dele, não tinha nem uma coisa nem outra. Ele não foi diagnosticado com nenhum distúrbio que pudesse tirar-lhe o direito de portar armas. Claro que hoje é difícil negar que houvesse maldade nele – depois que ele friamente encerrou 17 existências –, mas o fato é que quase qualquer ser humano raivoso e deprimido torna-se capaz de matar, sob as condições certas (erradas, na verdade). Até eu. Possivelmente, você.

Acreditar que só loucos e monstros matem é comum – e é compreensível. Ajuda-nos a acreditar que o mal está sempre no outro e a esquecer de nossas próprias sombras, aquelas que passamos a vida tentando esquecer. O monstro é sempre o outro.

Acima de tudo, Nikolas era um jovem atormentado, assustado e cheio de ódio, como há tantos por aí, muitos ocupando lugares importantes no debate público. Era alguém que precisava de ajuda, muita ajuda. E que não devia jamais poder colocar as mãos numa arma. Nem num carro, aliás. Não por uma questão de negar direitos, nem por alguma agenda política oculta, mas simplesmente porque não faz sentido que haja objetos capazes de matar muito rápido nas mãos de alguém incapaz de julgar as coisas com tranquilidade.

Como é que Trump pode garantir que alguns dos professores que ele quer armar não estão também cheios de raiva e medo, dois sentimentos dos quais não há carência neste mundo de hoje? Sabe quem cometeu o primeiro assassinato aqui na rua onde eu cresci, num bairro abastado de São Paulo? O segurança que contratamos para nos proteger. Irritou-se com a petulância de um adolescente que o desafiou na rua e perdeu o controle com um revólver no bolso.

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Claro que eu e você somos “good guys”, né? Queremos o bem do mundo. Claro que às vezes temos raiva, quem não tem hoje em dia? Raiva do PT, do Temer, do Lula, do MBL, dos isentões, dos corruptos, dos golpistas, da mídia, do cara que me fechou, do chefe, dos homens, das mulheres, e essa lista vai embora. Quem de nós não tem a fantasia de matar um desses de vez em quando? Confessa, vai.

Imagine a carnificina na qual viveríamos se, em vez de likes e shares, pudéssemos dar tiros pelo Facebook. Atire a primeira pedra quem não quis ver morto alguém de cuja opinião discorda. Por isso, matar não pode ser fácil ou rápido demais – é uma questão de bom senso.

O problema é que vivemos hoje em sociedades em larga medida desprovidas de bom senso, ainda mais quando o assunto é segurança, algo que mexe conosco tão profundamente. Tanto direitistas quanto esquerdistas honestos concordam que alguém tão raivoso, desesperado e descontrolado quanto Nikolas Cruz jamais deveria poder ter uma arma. E, no entanto, o sistema político americano está tão entrincheirado numa polarização irracional que mesmo as regras mais absurdas não mudam, nem quando o presidente quer (na quarta-feira, Trump surpreendeu sua base e indicou que é a favor de restrições mais duras). O sistema está travado.

A realidade brasileira é extremamente diferente – para começo de conversa, vivemos numa sociedade muito mais violenta do que a americana. Mas numa coisa somos parecidos: também aqui temos num sistema de  segurança pública ilógico, irracional e travado pela polarização política. Temos uma polícia sucateada, absolutamente incapaz de investigar, mais de 90% dos homicidas por isso ficam impunes, somos o país onde mais se assassina no mundo e a cada ano batemos nosso próprio recorde. Como nos Estados Unidos, direita e esquerda estão agarradas a suas crenças – estes aferrados à ideia de que crime é um problema social, aqueles imobilizados pela certeza de que é uma questão moral  – e são incapazes de chegarem a acordos mínimos. Incapazes de abrirem espaço para o bom senso. De reconhecerem que crime é uma questão muito mais complexa do que os modelos simplistas nos quais acreditam e de pensarem no problema de maneira sistêmica, complexa, de maneira a mudar o que obviamente não está funcionando.

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A verdade é que cada um de nós carrega um pouco de “good guy” e um pouco de “bad guy” dentro de si. Cabe ao Estado colocar incentivos na nossa vida que facilitem a expressão daquele primeiro e dificultem a deste último. Oportunidades incríveis – de educação, trabalho, esporte, expressão – no início da adolescência comprovadamente diminuem as chances de alguém virar criminoso. Frustrações, desespero e alienação nesta época da vida têm o efeito contrário. Muitos jovens cheios de potencial, com habilidades de liderança e sem oportunidades dentro da lei para expressá-las acabam entrando para o crime por ambição. Por isso, não é uma boa ideia espalhar agentes do Estado aterrorizando crianças na periferia – isso é dar incentivos para aumentar a produção de criminosos.

Já ter a certeza da punição ajuda a dissuadir criminosos – lá nos Estados Unidos os potenciais assassinos sabem que têm chances grandes de acabarem presos se puxarem o gatilho, enquanto aqui no Brasil a imensa maioria dos homicídios jamais é desvendada. Matar é praticamente legalizado no Brasil – quase nenhum assassino vai preso. Óbvio que isso incentiva o aumento do número de homicídios.

Medo e falta de confiança no Estado são outro fator que aumenta muito a chance de alguém decidir apelar para a violência. Se eu acho que meu vizinho quer me matar e não confio na polícia para me proteger dele, fico bem mais propenso a matá-lo antes, até para me salvar – essa dinâmica explica em grande medida os índices estratosféricos de homicídios no Brasil.

Outra característica social fortemente associada à violência é a desestruturação de famílias. Nesse aspecto, a tradicional política brasileira de encarceramento em massa de mulheres, geralmente por crime não violento, deixando milhares de crianças sem mãe por perto, é um exemplo de política pública que atrapalha muito mais que ajuda. Por sorte a Justiça decidiu encerrá-la este ano, num raro avanço numa era de retrocessos, na qual até os proibicionistas de drogas, quase extintos no mundo todo, ressuscitaram no Brasil.

Enfim, não é apenas com armas e soldados que se garante a segurança pública: sociedades seguras são aquelas que dão menos razão para medo, raiva e desespero, e menos oportunidade para que eles se expressem de maneira violenta. E é claro que uma intervenção militar temporária num único estado, cronometrada para se encerrar logo após as eleições, comandada por um governo de notórios criminosos, não nos coloca nem um centímetro mais perto desse objetivo. A intervenção no Rio é como a Olimpíada: um evento com data para acabar, fortemente vigiado por uma força que logo irá embora. E depois? Vamos começar a construir um país seguro ou cair na ilusão ingênua de que basta espalharmos suficientes armas letais para pessoas boas que cada dia estão com mais raiva?

Denis R. Burgierman  é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. Foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, comandou a curadoria do TEDxAmazônia, e fez parte do time que criou o Greg News, primeiro comedy news da TV brasileira.
Escreve quinzenalmente, às quintas-feiras.

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