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Coluna

A alegoria dos 4 continentes, ou como ser para sempre o país do futuro

    Por meio das artes visuais, ao longo dos séculos naturalizou-se uma visão eurocêntrica e colonial acerca dos diferentes povos. Uma forma dileta eram as alegorias dos quatro continentes

    Desde o século 16, uma série de países europeus, que julgaram por bem chamar a si mesmos de “Velho Mundo”, inscreveram em mapas, tapeçarias, desenhos e telas não só a variedade de povos que foram “encontrando”, na era dos assim chamados “descobrimentos”, como seus próprios preconceitos. Criaram visualmente um mundo que condizia com sua percepção de si e dos demais povos. Nas laterais dos mapas, geógrafos regiamente pagos não só imaginaram um universo em que a Europa se localizava bem ao centro, e na parte superior do planeta, como delinearam com traços firmes fronteiras ainda não exploradas ou as caracterizaram apenas como “terras ainda não descobertas”. O suposto é que o mundo estava lá, à disposição, e bastava classificá-lo, tendo a Ocidente como régua e compasso.

    Foto: Acervo Dixson Library, New sauces wales [Arts Rd, Madgwick NSW 2350, Austrália]
    Claes Janszoon Visscher. Nova Totius Terrarum Orbis Geographica Ac Hydrographica Tabula Autore, 1652.

    Com a “descoberta” do, assim chamado, “Novo Mundo” – que representou um “desencontro” de grandes proporções –, a curiosidade europeia correu do Oriente para os trópicos, com sua natureza paradisíaca de um lado, mas suas “gentes” estranhas, de outro. Essas seriam populações que praticavam a poligamia, andavam nuas e tinham o “mau costume”, segundo relatos dos viajantes seiscentistas, de comer carne humana. Sabemos que esses não eram hábitos “canibais” mas sim “antropofágicos” e, portanto, faziam parte de uma lógica ritual e não alimentar: eram formas de comunicação de povos que viviam articulados em rede. No entanto, a “curiosidade europeia” não chegava a tanto: preferia julgar e condenar do que, de fato, conhecer.

    "América", por Theodor Galle (c. 1580)
     

    Dominava, portanto, esse tipo de imagem eurocêntrica e que inundou o continente. Na famosa gravura de Theodor Galle, de finais do século 16, América aparece personificada no corpo de uma mulher, com seus seios à mostra e seminua. Ela se encontra deitada numa rede, numa clara alusão à lascívia dos americanos; uma “terra desconhecida” que aguardava preguiçosamente pela chegada da Europa. América estica seu braço como que se oferecendo para o “avanço” do “Velho Mundo”, que surge caracterizado por um navegador, o qual porta um astrolábio e uma bandeira com a cruz da Igreja cristã no topo. Ao fundo, e do lado esquerdo, vemos uma caravela que denota o “necessário” movimento de colonização para com os “bárbaros”. Do outro lado, e não por coincidência, está uma cena de canibalismo.   

    Mas essa não é uma forma visual isolada. A partir dessa época proliferaram também representações pictóricas dos quatro continentes, em geral realizadas por pintores flamengos. Essas imagens vinham geralmente precedidas por “tableaux vivants” – grupos de atores que antecediam obras pictóricas em procissões – feitos para celebrar a entrada de reis e da nobreza nas grandes cidades. Por exemplo, no ano de 1564, e para bem comemorar um “ommenganck” (uma procissão), quatro jovens ricamente vestidos desfilaram pelas ruas de Antuérpia, com adornos corporais que simbolizavam diferentes continentes.

    A partir daí a voga tomaria toda a Europa. Nessas alegorias femininas dos quatro continentes, a regra era mostrar a Europa como uma sorte de imperatriz coroada, com direito a cetro e “símbolos de civilização”. A Ásia aparecia com trajes vistosos, mas ladeada por animais de grandes dimensões e terrenos áridos. A África era representada ao lado de animais imensos e selvagens. Já América surgia retratada como uma índia jovem, coberta apenas por penas, segurando flechas e ladeada de bichos e plantas exóticas. Não era incomum a alegoria americana ser pintada com um braço decepado, numa referência ao canibalismo “reinante” naqueles lugares remotos. Da comparação desses conjuntos harmônicos, feitos sempre de quatro obras, depurava-se que a Europa era a rainha entre as rainhas, e os demais continentes seus eternos vassalos. 

    O importante é que se a convenção pictórica demandava quatro pinturas separadas, seu conteúdo só podia ser depreendido a partir da relação que elas estabeleciam entre si. A Europa vinha associada à cultura; a África à bestialidade animal; a Ásia a seus reinos exóticos, sendo a América definida por sua natureza tropical. Era a novidade de um mundo, assim grande, diverso e desigual, que aparecia exposta nessas obras, claramente eurocêntricas 

    Este tipo de alegoria reapareceria no Brasil, tardiamente, e já no século 19, a partir dos pincéis do artista José Teófilo de Jesus (1758-1847), da Escola Baiana de pintura.Pintor e decorador, José Teófilo era discípulo de José Joaquim da Rocha (1737-1800), que contou com o mecenato da Igreja e por isso se manteve restrito ao domínio da arte sacra. Mas Teófilo parecia querer mais; tanto que em 1794, patrocinado pelo mestre, viaja para Lisboa com o objetivo de estudar na Aula Régia de Desenho; a primeira instituição a sistematizar o ensino da arte em Portugal. Os lusitanos não se dedicavam às cenas históricas ou de gênero. Já nosso artista baiano, a despeito de ser obrigado a realizar pinturas religiosas, também arriscou outras convenções pictóricas.

    Ele volta a Salvador em 1801, e imediatamente passa a trabalhar na Ordem Terceira de São Francisco, e em outras igrejas locais, realizando tetos, painéis e douramentos em talha. Sua obra apresentava, no entanto, uma certa fatura de seu tempo, quando o neoclassicismo, com seus temas voltados à virtude cidadã, incendiavam a imaginação dos artistas. Talvez por isso tenha se inspirado nas imagens europeias que circulavam em forma de gravuras, fazendo um esforço de “traduzi-las” para um contexto local. 

    Teófilo se nutriu, então, das lições europeias que recebeu, procurando criar, porém, uma linguagem visual local. Não por acaso, ele foi chamado de “Rafael baiano”, em meio à capital da Bahia, então, conhecida como uma “nova Atenas”.

    Uma alegoria em quatro espaços

    Quem entrar no impressionante Museu de Arte da Bahia, localizado em Salvador, não tem como deixar de reparar em um delicado conjunto pictórico, chamado “Alegoria dos Quatro Continentes” (1758 (?)-1847), de autoria de José Teófilo. Tardia como motivo e estilo, a obra reintroduz aquela que foi uma verdadeira convenção visual do século 16.

    África em "Alegoria dos Quatro Continentes", de José Teófilo
     

    África aparece sentada num grande elefante, devidamente decorado com tecidos e dourações. A alegoria também está ricamente adornada e traz uma sombrinha delicada que lhe protege do sol inclemente de seu continente. Um dos seios aparece sutilmente delineado. Ela traz na cabeça uma grande pena e uma coroa, e nas mãos um cetro. Suas calças têm padronagens típicas, enquanto as sandálias lembram o estilo romano, trançadas até acima dos calcanhares. Todo o ambiente é exótico: os pássaros, os animais selvagens, os macacos e a vegetação que claramente difere daquela de clima temperado. A impressão é que ela vive num ambiente com temperaturas elevadas; tanto que a rainha africana porta poucas roupas diante de um céu azul que perde por vezes sua tonalidade para o cinza da chuva. Mais na base do quadro, uma cobra e uma tartaruga aludem à lerdeza e à falsidade do continente.

    Ásia em "Alegoria dos Quatro Continentes", de José Teófilo
     

    Ásia surge galopando em um camelo adornado, igualmente, de maneira exuberante. No primeiro plano destaca-se uma espécie de moringa, quem sabe uma referência a um continente tantas vezes imaginado a partir de seus desertos. A alegoria veste uma espécie de roupa de odalisca, mas sem fendas que permitam vislumbrar partes de seu corpo, e um turbante na cabeça. Numa das mãos ela traz um longo pito e na outra uma espécie de porta bandeira, com uma meia lua misteriosa em sua extremidade. Aliás, tudo no ambiente é misterioso: os animais (um leão, um pavão, uma zebra e um cachorro muito fino), mas, sobretudo, os elementos que denotam uma civilização diversa daquela do “Velho Mundo”. Diferente da África, que é “pura natureza”, no caso da Ásia, observamos ao fundo um palacete. No primeiro plano à esquerda referências à cultura do chá – com bules e objetos brilhantes, sendo que um deles lembra a forma de uma lâmpada mágica – dividem espaço com contas de colares e um móvel com a mesma meia lua, uma almofada e duas presas retiradas de elefantes. Em destaque está a riqueza do mármore que vem desse mesmo continente. Já a meia lua é símbolo do Islão, numa referência à renovação da vida. Ela é entendida, ainda, como um reflexo do sol,pois não possui luz própria, mudando de aparência sempre em relação ao astro solar; a Europa, por exemplo.

    Europa em "Alegoria dos Quatro Continentes", de José Teófilo
     

    Por sinal, Europa aparece com cabelos e cor de pele mais claros, uma coroa vistosa em sua cabeça e montada num cavalo branco, adestrado. Ela está totalmente vestida, traz um cetro na sua mão direita e um globo, símbolo da sapiência universal, na direita. Um obelisco com as marcas do papado destaca-se bem no centro da pintura, e ao fundo vê-se uma cidade, prova da urbanização e do progresso vigentes no continente. Pacotes bem amarrados e barris de madeira mostram os produtos que circulam pelo rico comércio local. Há muitos animais na pintura – cachorros, galos, alces, búfalos e bois –mas chama atenção como estão todos, à exemplo do cavalo da alegoria, “adestrados”; ou seja, domados pela civilização que Europa dignifica. Também a natureza parece estar em “ordem”; o trigo, fonte do pão, que é considerado o alimento ocidental por definição, destaca-se à direita.  Ao chão e à esquerda notam-se rosas que simbolizam o amor, a alma, a compaixão e a perfeição. Um céu menos azul, mais temperado e com manchas dramáticas, completa a pintura. Estado e Igreja estão aqui bem delineados, e a imagem mostra o equilíbrio vigente entre os homens, sua civilização e a natureza.

    América em "Alegoria dos Quatro Continentes", de José Teófilo
     

    Por fim, lá está América, a caçula das alegorias, idealizada a partir de uma indígena com seu cocar, um papagaio nas mãos e uma arara pousada na árvore próxima. Pássaros simbolizam fidelidade, e o papagaio, em especial, foi sempre associado ao continente. É ave que tem todas as cores dos trópicos; fala, mas não se sabe o que diz. Diferente das demais, América traz os seios totalmente à mostra, está descalça, a despeito de pisar numa espécie de almofada de sisal, ladeada por uma esteira feita do mesmo material. Ela não se deita ou senta no chão. América se encontra recostada num banco simples de madeira e é a única que não aparece na garupa de algum animal de maior porte. É como se a América estivesse na infância da civilização, e assim carecesse de bichos maiores, contando apenas com animais rasteiros: bípedes, pássaros, emas, patos, um boi, um tatu,um jacaré e uma serpente, pronta para dar o bote e roubar os ovos de uma ave que sai em revoada. Perto dela há ainda um “bicho preguiça”, quiçá simbolizando a leseira do continente. No lugar dos grandes animais figura a natureza exuberante do local, representada por imponentes árvores frutíferas como as palmeiras, bananeiras e o cajueiro, próximo da nativa. Abacaxis, jacas, bananas, melancias, rios verdejantes (ainda mais, quando comparados com as demais alegorias), definem a América como um continente projetivo, e que não conta, ainda, com seus símbolos próprios de civilização. A pintura também remete a uma natureza virgem, intocada e sem domesticidade. Mais uma vez, e à exemplo da primeira gravura, América estende sua mão esquerda como se ofertasse (ou se oferecesse) para alguém. No local para onde ela aponta há uma caixa em forma de tesouro, com a nova terra sendo definida, alegoricamente, como um lugar de futuro. Sem edificações, a América contaria com a maior das naturezas e tesouros recônditos guardados para serem abertos no porvir.

    A obra de José Teófilo foi realizada depois de um lapso de quase três séculos. No entanto, o tempo não permitiu eliminar ou nuançar a imagem da América como um continente para sempre jovem; uma promessa de futuro. Se do Oriente e da África já se sabia o que esperar, se a Europa tinha seu local definitivamente consagrado, América continuava “deitada eternamente em berço esplêndido”. Mesmo na palheta de um pintor brasileiro, nada parecia mudar diante da visão eurocêntrica e projetiva, que legou ao continente o lugar de “novo” e da promessa ainda não realizada.

    José Teófilo morreu  em 1847, no início do governo de Pedro II, ao cair de um andaime quando finalizava a arte do teto da Matriz de Divina Pastora. Dizem as testemunhas que, a essas alturas, o artista quase não cobrava por seus trabalhos, tinha poucos alunos e que faltavam-lhe boas encomendas. Enfim, o pintor morreu na penúria, mas deixou, entre outros, trabalhos importantes sobre a sua Salvador, e essa espécie de ode visual que repetia, mas incrementava, a imagem de um país sempre adolescente e cujo destino ainda não se definiu. Uma sorte de Peter Pan com penas e na pele de uma indígena. Essa era a alegoria da América no século 16, de uma certa América no 19, e do Brasil ainda nos dias de hoje. Um país que não se realiza no presente e por isso joga sempre as cartas fortes no futuro. Longínquo.

    PS: Esse artigo foi escrito em homenagem a um grande amigo: o artista Ayrson Heraclito, que, além do mais, me desafiou a fazê-lo.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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