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Coluna

Águas de março ou o assassinato de muitos e muitas Marielles

    As estatísticas e os casos recorrentes de violência expressam o racismo e a desigualdade estrutural brasileiras, que com o tempo parecem sempre cair no esquecimento

    No dia 13 de março, uma terça-feira, encerrei minha última aula sobre “A fotografia nas Ciências Sociais”, no Instituto Moreira Salles em São Paulo, e resolvi caminhar um pouco pela Avenida Paulista. Vinha meio absorta, quando me deparei com uma cena que seria corriqueira não fosse o grau de violência nela presente. Já eram nove da noite, mas ninguém prestava muita atenção a uma situação que passava por “normal” para as centenas de pessoas que trafegavam pelo local. Pelo jeito, batidas policiais, com todos os seus requintes de humilhação, já não assustam ou incomodam a população: fazem parte da paisagem.

    Eu (e uma série de pessoas que passavam pela mesma calçada e na mesma hora) não fui parada pela polícia. Já dois rapazes negros, de bermudas e bonés, acabaram encostados na parte dos fundos de uma banca de jornal, tiveram que tirar seus chapéus, curvar os corpos, olhar para baixo, mostrar documentos e passaram a ser revistados. Claro, dirão alguns, que não tenho como ter certeza sobre o que ocorria naquela circunstância. Mas não é segredo para ninguém como a absoluta maioria das batidas militares tem por alvo a população negra.  Danada é a realidade que faz com que nos habituemos a naturalizar costumes perversos como esse, apenas acionando a capacidade protetora que temos de olhar e não ver.

    Assisti a uma cena semelhante numa praça em frente à minha casa, num sábado de manhã. Dois garotos negros estavam descansando ao sol e distraiam-se com a criançada que brincava por lá. De repente, em um minuto, eles se viram circundados por sete motos da polícia. De nada adiantou o depoimento que muitos de nós oferecemos. Naquela situação, eles não passavam de estatísticas e elas valiam mais do que qualquer testemunho. Vivemos em guetos, mas ninguém “lembrou de avisar”. 

    No mês de março fomos inundados por eventos que, tomados em conjunto, mostram como a discriminação não é tema do passado; está inscrita e reelaborada no nosso dia a dia

    Também não foram poucas as vezes que ouvi mães de rapazes negros me contarem que, sempre que seus filhos saem de casa, elas rezam para que voltem, e com vida. As estatísticas têm lhes dado razão. Segundo o relatório do Ipea, os indicadores que cobrem o período de 1993 a 2007 mostram que, a despeito do aumento geral da expectativa de vida no Brasil, a população branca vive bem mais do que a negra. Em 2007 esses percentuais alcançaram 13,2% e 9,5%, respectivamente. Ou seja, até o aumento geral da expectativa de vida é socialmente desigual entre os brasileiros.

    A pesquisa mostra ainda que homens jovens negros morrem antes dos demais, por conta do menor acesso aos serviços médicos. Vivem menos, também, porque têm menos condições de terminar a escola e assim buscar outras formas de inserção no mercado de trabalho. Mas a maior razão é sem dúvida a violência a que estão sujeitos. Enquanto em 2012 a taxa de homicídio para os jovens brancos foi de 29,9 (a cada 100 mil habitantes) – praticamente a mesma da população total – a de jovens negros chegou a 82,3. Eles correspondem a 93% das vítimas de violência letal e têm, portanto, em média 2,5 vezes mais riscos de morrer. Na região Nordeste, onde as taxas de homicídio são as mais altas do país, a média passa para 5.

    No caso das mulheres negras, os números revelam, igualmente, um acesso mais precário à saúde, ao emprego e à habitação. O tempo de vida é também desigual: em 1993, o total de mulheres brancas com mais de 60 anos de idade representava 9,4%, e o de mulheres negras, 7,3%. Isso sem esquecer que são elas as maiores vítimas da “cultura do estupro” e das práticas violentas que se expressam nas relações de sexo e gênero.

    Índices como esses já bastariam para comprovar o racismo estrutural que vivenciamos por aqui. Mas ele se encontra expresso não só nos dados quantitativos, mas nos qualitativos também. No mês de março fomos inundados por eventos que, tomados em conjunto, mostram como a discriminação não é tema do passado; está inscrita e reelaborada no nosso dia a dia.

    No dia 5 de março, moradores da zona da mata próxima de Acari, no subúrbio do Rio de Janeiro, acordaram com o som de disparos. Ao chegar no local, encontraram Eduardo Ferreira e Reginaldo Santos de bermudas e camisas rasgadas, já sem vida, com seus rostos enterrados na terra. A polícia só os recolheu às 19 horas com a seguinte anotação: “homens negros, fortes, de feições marcadas e cabelo raspado”. Essas são descrições sumárias que procuram juntar um estereótipo a uma condenação. Trata-se de um “preconceito”, se pensarmos que o termo vem da união de duas palavras: pré e conceito. Já sabemos o resultado, antes mesmo de tentar conhecer ou procurar entender.

    No dia 9 de março, um aluno da Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo mandou uma mensagem para seu grupo de whatsapp: “Achei esse escravo no fumódromo! Quem for o dono avisa”. Como mostra o historiador Robert Darnton, o fermento da piada é feito do deslocamento de sentidos. Não se ri de nada, mas da inversão de pressupostos que permanecem submersos na velha e forte teoria do “senso comum”. É inacreditável que alguém ainda ache “engraçado” um comentário deste tipo, que remete a um passado recente, uma vez que 130 anos atrás ainda tínhamos escravos no Brasil. Resultado: o “engraçadinho” foi suspenso, processado pelo aluno ofendido, e pode (e deve) passar um tempo atrás das grades. Racismo é crime segundo a nossa legislação.

    No dia 12 de março Matheus Melo Castro, de 23 anos, foi morto depois de sair de uma reunião na Igreja Evangélica Missão da Fé, em Manguinhos, no Rio. Matheus era auxiliar do pastor, subiu em sua moto que fora paga com o salário que recebia como agente de coleta seletiva, e por volta das 22 horas cruzou uma patrulha da Polícia Militar. Foi atingido por dois tiros: um no braço esquerdo e outro no tórax. Nem assim a polícia o acudiu. Membros da comunidade local o levaram num carrinho de mão até a Unidade de Pronto Atendimento local. Foi socorrido, mas não resistiu.

    Na cidade de Belém, no mesmo mês de março, uma garota escolheu como tema para seu aniversário de 15 anos voltar aos tempos do Império Brasileiro. Caprichou no seu figurino de sinhá e contratou negros e negras vestidos como escravos domésticos. As fotos da festa viralizaram e a mãe respondeu que não havia “imaginado” que tal cena pudesse ter causado algum mal-estar. Mais uma vez, “não imaginar” é sinônimo de não perceber a dor alheia e a carga de discriminação inscrita nos atos pretensamente ingênuos.

    Foi no dia 15 de março que Marielle Franco,  a quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro, pelo PSOL, uma cria da Maré – o maior complexo de favelas daquele estado –, negra, lésbica, mãe de uma menina que educou sozinha, defensora dos direitos humanos numa cidade sucateada, crítica da atuação da polícia diante das populações carentes, foi executada com quatro tiros certeiros: três lhe atingiram a cabeça e o outro o seu pescoço. Junto com ela morreu o motorista Anderson Pedro Gomes, outra vítima da impunidade que brota como mato no Brasil.  Marielle não morava mais na Maré, mas era assídua no local. No dia de aniversário do Rio de Janeiro, colocou uma foto na laje do Complexo e ajuntou a seguinte mensagem: “Parabéns para esta cidade que infelizmente tem sido maltratada historicamente. E que quanto mais parece estar abandonada mais fica hostil às mulheres e à população negra...”.

    A verdade é que Marielle eram muitas e a questão, de uma maneira ou de outra, é de todos nós. O clamor que veio das ruas de todo o país e alcançou o exterior continua a pedir por uma solução. Se isso não acontecer, cairemos nas “águas de março” que vão “fechando o verão”

    Irônica, Marielle costumava dizer que havia escapado das estatísticas quando entrou na universidade, depois de se valer das franjas curtas que o sistema público de educação oferece no país. Ela aproveitou todas as brechas que encontrou, terminou a graduação, defendeu o mestrado e vislumbrou para si uma carreira na política; esta, que ela vinha desenvolvendo com a coerência daqueles que não ganham nada de graça, ou em bandeja imperial.

    Mas desta vez, e diferentemente dos demais eventos que citei, a notícia da execução da ativista ganhou o mundo e escapou do anonimato que costuma encobrir casos semelhantes a estes. Virou também uma bomba nas mãos da intervenção federal que assumiu a segurança do Rio.

    No momento em que escrevo esta minha coluna ainda não se tem notícias dos assassinos de Marielle e de Anderson. O caso virou uma batata quente e está sendo investigado pela polícia fluminense, pela polícia federal e pela  Abin (Agência Brasileira de Inteligência).  O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann também falou forte e afirmou que apurar o caso “era questão de honra”.

    Todavia, até o momento, continuamos na política das suposições. Quem não titubeia, mesmo, é o pessoal das fake news, que tem colocado a imaginação para voar. Marielle seria financiada pela bandidagem, teria casado com um dos dirigentes do Comando Vermelho e assim por diante. Sei que o radicalismo e a polarização continuam fortes em qualquer circunstância. Mas diante de mortes brutais como estas; do extermínio de uma personagem como essa, que representava um novo Brasil, mais inclusivo, crítico, justo e aberto ao diálogo, o mínimo que se poderia exigir era uma trégua e um luto partilhado.

    A verdade é que Marielle eram muitas e a questão, de uma maneira ou de outra, é de todos nós. O clamor que veio das ruas de todo o país e alcançou o exterior continua a pedir por uma solução. Se isso não acontecer, cairemos nas “águas de março” que vão “fechando o verão”.  Pior ainda, Marielle virará mais um número nas estatísticas assustadoras acerca da violência no Brasil. 

    No dia 19 de março fui assistir a um debate com o escritor Giovani Martins, autor do magnífico “O sol na cabeça”. Nascido em Bangu, ele morou em três favelas diferentes e disse orgulhar-se de ser filho de d. Neide, que, conforme ela mesma explicou, “já foi faxineira e hoje trabalha na cozinha”. Seguindo as estatísticas, ela também criou seus dois filhos sozinha. E mais: faz alguns anos d. Neide comprou um “cartão funeral”, daqueles que se passa a vida inteira pagando e em módicas prestações. Falante, ela me contou que preferia se adiantar a ter que chorar duas vezes: pela morte de um de seus meninos, e pelo preço de um enterro digno.

    Não parece coincidência que, um dia antes de ser assassinada, e inconformada com a morte de Matheus, a vereadora tenha postado nas redes: “Quantos precisarão morrer”?  Cabe a nós evitar que a pergunta caia no vazio, e que os tantos assassinatos (incluindo o de Marielle) sigam para a vala comum do esquecimento.

    PS: Agradeço à Paula Miraglia pelos dados sobre a violência no Brasil. Por sinal, aguardem pelo livro dela.

     

     

    Lilia Schwarcz

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