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Coluna

Uma outra lógica

    Vou arriscar um exercício de imaginação: e se pudéssemos virar de ponta-cabeça nosso sistema de educação?

    Quando se para pra pensar, o sistema de educação do Brasil meio que não faz muito sentido.

    A educação pública básica é grátis, mas quase sempre fuleira, garantindo uma enorme massa de gente mal-formada, para começar. Aí, a educação superior pública é até que bem boa, mas acaba atendendo só aos ricos, que puderam pagar escola privada.

    É um modelo perverso, porque acaba fazendo com que o país inteiro subsidie a educação dos mais ricos. A revista liberal britânica “The Economist” uma vez escreveu que é um exemplo de um fenômeno típico do capitalismo brasileiro: distribuição de renda, só que dos pobres para os ricos.

    É também um enorme desperdício de potencial. O Brasil é um país jovem de 200 milhões de pessoas. É portanto riquíssimo no insumo mais valioso da economia mundial: gente. A cada ano, mais de 1 milhão de brasileirinhos de 6 anos entram no 1a ano do ensino fundamental – quantos deles não têm em si os talentos necessários para curar doenças, desenvolver tecnologias, criar obras-primas, gerir organizações, mudar o mundo? Infelizmente, quase todo esse potencial é tratado de maneira inadequada: os ricos recebem privilégios e acabam crescendo complacentes, enquanto a imensa maioria não tem quase nenhuma chance, diante da baixa qualidade do ensino. Assim reduzimos nosso enorme “pool de talentos” a quase nada, empobrecendo o país.

    Não importa se se é de esquerda ou de direita, é difícil negar que haja algo errado nesse sistema. Hein, amigos esquerdistas, faz sentido que o governo invista tanto em subsidiar a educação dos mais ricos? E vocês, amigos direitistas, dá para defender um sistema que gera mão de obra desqualificada e pouco produtiva? Ainda assim, não muda nunca. Parece que estamos enroscados nesse sistema ilógico, imobilizados no novelo da disputa política, entre os esquerdistas que chamam qualquer tentativa de gestão mais aberta de “privatização”, e os direitistas, que rejeitam qualquer investimento em melhorar a qualidade como “assistencialismo”.

    Fico aqui sonhando que nessa falta de lógica podem estar escondidas as oportunidades das quais este país precisa. Talvez pudesse haver uma mudança que deixasse o sistema muito mais interessante tanto para um lado da divisão ideológica quanto para o outro.

    Já que o clima é de ano novo, vou me permitir a irresponsabilidade de imaginar como poderia ser. Posso? Já pensou, por exemplo, se a esquerda topasse deixar um pouco de lado o dogma de que “educação pública tem que ser grátis”, ao mesmo tempo em que a direita concordasse em levar a sério o conceito de “bem público”? Assim: universidade pública deixa de ser gratuita, mas não precisa necessariamente ser paga com dinheiro. Quem não pode ou não quer pagar pelo curso pode dar ao país uma contrapartida: oferecer seu trabalho ao bem público por um ou dois anos, logo após concluir o curso (ou quem sabe durante).

    Por exemplo: recém-formados em medicina e enfermagem, vindos das ótimas faculdades federais e estaduais do país, poderiam atender populações de baixa renda onde faltam médicos, para pagar pelo curso que a sociedade lhes deu. Urbanistas e arquitetos projetariam estruturas melhores, engenheiros estenderiam pelo país uma infraestrutura tecnológica básica, comunicadores melhorariam a qualidade da informação pública, administradores ensinariam técnicas de gestão em repartições, advogados revisariam casos, corrigiriam injustiças, e assim por diante.

    Fico aqui sonhando que um projeto assim poderia dar à próxima geração de brasileiros algo que infelizmente faltou à minha: a ideia de de que cabe a cada um de nós trabalhar pelo bem público

    Esse imenso exército de mais de 200 mil jovens que se formam todos os anos nas melhores faculdades do Brasil poderia ser usado para atacar vários dos problemas crônicos do país: a ruína da infraestrutura, a sujeira, a desorganização dos processos, a falta de saneamento básico, o colapso dos ecossistemas, a burocracia enlouquecedora. E trabalharia de graça, pelo bem comum, sem no entanto precisar tirar dinheiro do seu bolso.

    Poderia ser um sistema em rede, totalmente descentralizado: sem uma grande burocracia para tomar conta. Na verdade, o Estado talvez não precisasse gastar nada – cada um dos projetos executados pelos recém-formados poderia ser viabilizado por eles próprios, usando apenas recursos que a sociedade já tem. Os jovens poderiam se hospedar em quartéis, ou em quartos de hotel cedidos por empresas parceiras, ou em ginásios, escolas, onde for possível. Comer em refeitórios de empresas ou de repartições, ou mesmo em restaurantes parceiros. Caberia a cada projeto garimpar o apoio social para se viabilizar – essa seria a tarefa de alguns dos jovens. E tenho a sensação de que não faltaria apoio local para jovens recém-formados das melhores faculdades do país dispostos a trabalhar de graça pela comunidade nos confins do Brasil.

    Ou talvez essa grande rede de jovens profissionais pudesse se dedicar a um tema mais específico: e se eles adotassem as tristes escolas públicas do Brasil? E se, de um dia para o outro, todas as escolas públicas primárias e secundárias do país fossem invadidas por jovens recém-formados querendo ajudar: oferecendo matérias optativas de programação de computadores, chinês, roteiro, gestão, sustentabilidade – tudo aquilo que um aluno de escola privada aprende na faculdade pública. Nutricionistas, agricultores e chefs reinventariam a alimentação dos alunos; arquitetos, engenheiros, paisagistas transformariam os espaços; artistas, tecnólogos, neurocientistas revolucionariam a rotina. Seria um jeito de o investimento estatal em educação superior se reverter em melhoras profundas na educação básica, dando lógica ao sistema todo.

    Fico aqui sonhando que um projeto assim poderia dar à próxima geração de brasileiros algo que infelizmente faltou à minha: a ideia de de que cabe a cada um de nós trabalhar pelo bem público. Repare como essa cultura praticamente não existe no Brasil – não à toa, quase tudo que é público por aqui tem um certo ar de abandono. Salvo raríssimas exceções, só aquilo que é privado tem chance de ser cuidado aqui neste país – algo que absolutamente não acontece em países, pobres ou ricos, onde cada cidadão sente-se um pouco responsável pelo bem de todos.

    Imagine se uma geração inteira de brasileiros começasse sua vida profissional trabalhando para resolver problemas reais de pessoas reais, Brasil adentro. Tenho a sensação de que isso resultaria não só em cidadãos melhores, mas também em profissionais muito mais bem formados e motivados do que aqueles que hoje saem de nossas universidades públicas, tão isoladas da sociedade e desconectadas de suas reais necessidades.

    Claro que isso é só um sonho de uma noite de verão. O governo atual, desmoralizado e pouco capaz, não teria nem sequer respaldo social para operar uma transforma��ão profunda numa área tão chave quanto a educação. Mas ele vai passar. Enquanto isso, não custa ir sonhando.

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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