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Coluna

Uma carta para Lázaro e para nós, os cobradores

15 de mai de 2017 (atualizado 15/05/17 às 23h17)

    Será que um ator ou atriz que não seja negro convive com o mesmo nível de cobrança que você? Será que nós, pessoas negras, que cobramos tanto dos nossos representantes, cobramos na mesma altura as pessoas brancas que mantêm seus privilégios?

    Lázaro, faz algumas semanas que o Coletivo Nuvem Negra da PUC-Rio, grupo de que tenho o prazer e a honra de ser uma das fundadoras, te convidou para um papo aberto no Pilotis da PUC-Rio, uma atividade com o nome de: “Lázaro Ramos: educação e arte negra”. A proposta do bate-papo veio para conversarmos sobre o protagonismo de pessoas negras na arte e a importância de pensarmos em uma educação antirracista.

    O fato é que o encontro foi um sucesso! A maioria das pessoas presentes eram jovens negros, muitas mulheres e pessoas de diversas partes da cidade e do Estado do Rio de Janeiro. Você mesmo ficou bastante emocionado ao ver todos nós curiosos e no mais linear silêncio, atentos, para te ouvir falar. Até eu, que estava fazendo a transmissão ao vivo pela nossa página, não consegui segurar a emoção em algumas partes.

    Fiquei bastante emocionada e feliz quando você, ao se referir a sua companheira, Taís Araújo, disse: “eu amo a minha preta”. Declarar os nossos amores em público, nesses tempos em que as coisas andam tão estranhas, é algo nobre. O mais louco de tudo isso é exatamente esse tratamento que damos para algo que deveria ser comum. Nesse caso, sendo um amor entre duas pessoas negras, uma declaração de amor em público se torna um “ato político”.

    Infelizmente, para nós, até a nossa humanidade vira ato político quando deveria ser, apenas, a nossa humanidade mesmo.

    Bonito, estimulante e encorajador foi ter ouvido você falar da sua trajetória artística, seu trabalho como ator, diretor e apresentador do programa “Espelho”. Você é um cara que vem, já há alguns anos, disputando a televisão brasileira para, entre outras coisas, mapear nossas referências negras, dizer que elas existem e que podem discutir qualquer tema: a música, a educação, o cinema, a literatura, etc.

    Você contou das suas vitórias e das suas angústias em todos esses anos de trabalho em que você se dedica. Das (muitas) dificuldades que te atravessaram, dos sapos que você engoliu para chegar onde você chegou, para possibilitar diálogos que, anos atrás, eram quase impossíveis de imaginar a sua concretização. Foi uma aula ouvir você falando de mandinga e trabalho. Me lembrou quando a Conceição Evaristo certa vez relacionou o tempo a uma roda de capoeira. O tempo como elemento de amadurecimento, o tempo como aliado para organizar as coisas dentro da gente, inclusive o ódio e a raiva que vivemos cotidianamente.

    Adorei saber que seus mitos estão vivos e andam com você. Que eles podem ter qualquer idade e podem ser de muitos lugares. E quando digo que eles estão vivos, quero dizer que suas obras, seus valores e ensinamentos atravessam ou atravessarão nossas vidas. Gente que deixou e deixa para nós outras possibilidades para as nossas existências individuais e coletivas.

    Você também falou de fantasia, da disputa de novas narrativas ser, inclusive, pela liberdade da gente poder escrever, falar, filmar, atuar, ou seja lá o que for, sobre o que a gente quiser dentro do recorte que a gente acredita, não importando que recorte seja esse. Nesse momento, você se referia às pessoas negras e desejava que nós achássemos as nossas verdades. Para você, encontrar isso, é uma das coisas mais importantes.

    Para mim, que sou uma artista, foi de maior importância. Acabei lembrando de duas coisas. A primeira da Makota Valdina falando no filme “Tempo de Cura”, dirigido pela Ana Paula Mathias.

     

    Makota diz no filme que a primeira coisa que nós, negros e negras, devemos priorizar é isso de manter nossas mentes livres. A segunda foi a coluna de Ana Paula Lisboa, no jornal “O Globo” em que ela fala sobre “excesso de realidade” e do quanto é importante a fantasia, embora nossas vidas sejam atravessadas por situações que, contadas, parecem ficção.

    E por falar nisso, fiquei bastante pensativa com algumas perguntas feitas por nós, admiradores e “cobradores”. É verdade que temos você e tantas outras referências como espelhos, exemplos. Só de existirem com a possibilidade de fazerem o que fazem, já abrem os caminhos para nós que desejamos fazer. E por falar em referências diversas para nós, representatividade dentro dos meios de comunicação, nas artes, nos livros e em outros diversos setores, penso que, às vezes, somos tomados pela ansiedade de ver nossos representantes colocando certas coisas para funcionar sem, ao menos, dimensionar o tempo que vocês levaram para chegar onde estão.

    Digo isso porque fiquei um pouco triste com o nível de cobrança feito por nós. Pensei sobre isso a semana inteira. Será que um ator ou atriz que não seja negro convive com o mesmo nível de cobrança que vocês? Será que nós - admiradores, fãs, acadêmicos, artistas, escritores, jovens, estudantes - pessoas negras em geral que cobramos tanto dos nossos representantes, ou seja, daqueles que nos geram identificação e de quem dizemos “você me representa”, cobramos na mesma altura às pessoas brancas que mantêm seus privilégios e dizem não ter nada a ver com isso? Por que atribuímos toda a responsabilidade da luta antirracista a nós e aqueles que “nos representam”? Por que todas as pessoas negras precisam ter falas, posturas e atuações dentro da militância que a gente quer e não na atuação que cada um escolhe para si?

    Eu gosto muito quando o Antônio Pitanga diz em seu filme “Pitanga”: “eu sou um negro em movimento”. E quando ele faz essa afirmação, aponta que é um negro livre buscando, cada vez mais, a sua liberdade enquanto artista e pessoa.

    Nós precisamos ser livres e atribuir aos nossos mitos essa mesma noção de liberdade. Precisamos vestir as nossas peles, dimensionar os tempos, de mandingas. Saber o que é de responsabilidade das políticas públicas e separar dos lugares que nós podemos alcançar.

    Partiu meu coração no final do nosso papo quando um jovem negro haitiano pegou o microfone para dizer que precisava de um trabalho pois não aguenta mais dormir na rua e enfrentar o racismo nas ruas da cidade do Rio de Janeiro. Aplaudimos quando o jovem perguntou no desespero a você “você pode me ajudar? Como posso fazer?” e você respondeu “Falando comigo”. Aplaudimos esse seu gesto carinhoso e prestativo, que foi excelente. Mas é preciso perceber que nossa demanda é gigante, que nossos mitos não são perfeitos, que possuem suas questões pessoais, assim como todos nós. Que os nossos deuses, mitos, mestres, ou seja lá o que for, são tão humanos quanto nós. É nessa hora que precisamos estar atentos ao exercício da generosidade. Essa pode ser uma maneira de cuidarmos deles e de nós mesmos.

    No mais, muito obrigada, Lázaro! Espero que a gente não siga tratando nossas conquistas de anos como privilégio. Por que nós, negros e negras, quando alcançamos lugares mais altos, sempre atribuímos isso a privilégios? É o nosso direito de ser o que a gente escolheu e batalhou para ser, o que nada tem a ver com meritocracia. Não posso deixar de dizer uma última coisa: você me representa.

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    Dicas da Yasmin

    Começa hoje o segundo ano das sessões do Ficine – Fórum Itinerante de Cinema Negro na Cinemaison, no Rio de Janeiro, com exibição do filme “Nossa Estrangeira” (2010) da diretora franco-burquinense Sarah Bouyain, filme que aborda questões contemporâneas acerca da identidade africana na relação com a diáspora através da história de duas mulheres burquinenses. De graça!

    O Coletivo Nuvem Negra lançou o “Projeto Ananse”, uma campanha colaborativa para financiar a terceira publicação do Jornal “Nuvem Negra”, distribuído gratuitamente em universidades, escolas públicas e outras redes do Nuvem Negra.

    Estreou, na semana passada no Rio de Janeiro, o espetáculo “Lívia”, que conta a história do casal Lívia e Felipe, do seu iníicio ao fim de suas vidas, propondo uma reflexão sobre como os nossos relacionamentos podem modificar e (re)definir a nossa históriavida.

    Yasmin Thayná é cineasta, diretora e fundadora da Afroflix, curadora da Flupp (Festa Literária das Periferias) e pesquisadora de audiovisual no ITS-Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro). Dirigiu, nos últimos meses, “Kbela, o filme”, uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra, “Batalhas”, sobre a primeira vez que teve um espetáculo de funk no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a série Afrotranscendence. Para segui-la no Twitter: @yasmin_thayna

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